Os novos desafios dos CEOs

 

Henrique Luz | Sócio e membro do comitê de liderança da PwC Brasil

Nos últimos 20 anos, a globalização e os avanços tecnológicos provocaram uma grande revolução. As empresas registraram aumento da produtividade e viram seus mercados se expandirem enormemente. Os ganhos beneficiaram também as pessoas: milhões saíram da linha de pobreza e outros milhões tiveram melhora no padrão de vida. A despeito dessas conquistas, a globalização e as novas tecnologias passaram a ser questionadas. Para essa parcela da sociedade, a tecnologia e a globalização são responsáveis pela eliminação de milhares de postos de trabalho, entre outros efeitos negativos. Os movimentos de oposição reverberaram nos líderes políticos e estão influenciando as políticas de vários países. Essa mudança na dinâmica econômica global exige dos CEOs um bom entendimento e rápida adaptação.

Recentemente, a PwC divulgou a 20th Global CEO Survey, com entrevistas com cerca de 1.400 CEOs de 79 países. As respostas mostram que os líderes globais têm consciência da mudança do cenário: 58% dizem que a adoção de políticas nacionalistas em alguns países tornou a competição mais difícil e 69% afirmam que ficou ainda mais difícil manter a confiança dos stakeholders na era digital (em que as informações circulam com grande velocidade e podem vazar rapidamente). Considerando que a economia se baseia na compra e venda de produtos e serviços, a revolução tecnológica não vai retroceder e a confiança é um atributo indispensável para qualquer empresa que queira ser bem sucedida, os líderes empresariais têm diante de si um imenso desafio.

Um primeiro desafio é recuperar a confiança. Na era digital em que vivemos, a transparência é um requisito fundamental para o cumprimento desse objetivo. Os líderes empresariais precisam entender as implicações éticas de suas decisões. Nada passa despercebido. Um desvio pode significar uma crise de reputação. A 20th Global CEO Survey mostra que 92% dos entrevistados concordam que, hoje, é muito importante que o propósito das empresas esteja refletido em seus valores, culturas e comportamentos. Outras pesquisas da PwC revelam que a busca pelo lucro financeiro não deve ser o único objetivo das companhias – elas precisam abraçar valores como diversidade, inclusão e sustentabilidade para serem bem sucedidas.

Um segundo ponto a ser enfrentado é conciliar o trabalho humano com as novas tecnologias. Com o avanço da impressão 3D, da internet das coisas e o uso de robôs não só na produção de bens, mas no setor de serviços, os conflitos tendem a se agravar. Outra sondagem feita pela PwC com 5.000 pessoas de 22 países revelou que 79% deles acreditam que a tecnologia vai provocar redução nos postos de trabalho nos próximos cinco anos.

A despeito disso, a contribuição humana no trabalho é imprescindível – e deverá ser por muito tempo. Pouco mais da metade (52%) dos CEOs entrevistados planejam contratar. E as qualidades que eles buscam na força de trabalho ainda não podem ser copiadas pelas máquinas: criatividade e inovação; liderança e inteligência emocional. Três quartos dos CEOS afirmam que a falta de talentos pode impactar o crescimento das empresas em 2017.

O terceiro desafio é defender os benefícios da globalização. Para cerca de 45% dos respondentes da 20th Global CEO Survey, a globalização não conseguiu diminuir a desigualdade entre ricos e pobres. Uma das soluções apontadas por eles para avançar neste sentido é aumentar a colaboração com os governos. Uma área promissora é a educação. O trabalho conjunto de empresas e governos em prol da qualificação de trabalhadores pode produzir resultados significativos. E a tecnologia pode ser uma aliada (por exemplo, os cursos on line).

Como se vê, vivemos uma era de divergências que demanda um novo estilo de liderança, capaz de gerenciar as crescentes ansiedades. Os vencedores serão os que conseguirem entender os diversos anseios e conciliá-los para o progresso sustentável e inclusivo.

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