AgTech Garage comemora 5 anos protagonizando a 4ª era da inovação, das “garagens corporativas”

José Tomé, CEO do AgTech Garage, compartilha as referências por trás da criação do hub e sua visão de futuro para continuar inovando o agro

Junho 1, 2022

Por José Tomé 

O ano era 2012 e eu já tinha começado a estudar sobre inovação aberta quando li o artigo do consultor Scott D. Anthony, da Innosight, na MIT Technology Review. Ele falava que podíamos estar diante da “nova era das garagens corporativas”, ou a chamada 4ª era de inovação. 

Antes dela, a 1ª era da inovação tinha sido pautada no empreendedor solo, ou melhor, no inventor, fosse Thomas Edison com a lâmpada; Whitney com o engenho de algodão e mesmo Santos Dumont com seu avião. Depois, a 2ª era da inovação foi a do P&D, dos experimentos em laboratório e passou a responsabilidade de inovar do indivíduo para as empresas, mas cada uma no seu quadrado. Tanto que não demorou para a burocracia na hora de inovar acabar abrindo espaço para a 3ª era da inovação, quando começam a surgir as startups e os Venture Capitals. Essa é a era da Apple, Microsoft, Google etc. 

Ali, já tínhamos um sinal de que a dinâmica da inovação estava mudando, por isso mesmo Anthony propôs nesse artigo da MIT Technology Review a história das “garagens corporativas”. A ideia inspirou o nome do AgTech Garage — que nasceu oficialmente em 2017, quando a 4ª era de inovação ainda estava engatinhando. Segundo Anthony, os catalisadores corporativos da inovação começavam a ter um impacto transformador, incutindo em gigantes como a IBM o espírito das startups. 

José Tomé (esq.) e Marcelo Carvalho (dir.) no AgTech Garage Day

A garagem corporativa do agro

Eu, Adriana e Marcelo — sócios no AgTech Garage — sempre tivemos muito claro nosso posicionamento de criar algo voltado para as grandes empresas, que consequentemente também ajudaria os empreendedores. A ideia era que as empresas conseguissem, de fato, praticar a inovação aberta. 

O artigo do Anthony explica que “garage” é onde se criaram grandes coisas lá atrás. Mas tenho para mim que as garagens de hoje não são mais como as de antigamente. Daqui em diante, não vamos mais ver startups saindo de garagens isoladas como foi no passado. Elas vão sair de hubs como o AgTech Garage, assim como os grandes projetos de inovação das empresas. Nossa garagem é  multistakeholder, então, dela participa o corporate, a startup, Academia e também o produtor rural, porque nascemos com um tema. Nosso tema é o agtech ou, mais precisamente, a cadeia de valor do agronegócio, do campo à mesa do consumidor. 

É interessante perceber que fomos um dos primeiros no Brasil a trazer esse conceito. Um tempo depois, outras garagens surgiram. Por exemplo, o BNDES Garagem e a Garagem AgroStart, da Basf. A Microsoft já tinha a The Microsoft Garage fora do Brasil. Além do artigo que abre esse texto, fomos buscar várias outras referências e fizemos uma viagem aos Estados Unidos em 2016 para conhecer diferentes iniciativas de inovação. Visitamos aceleradoras, como a Plug and Play e Thrive, e o hub de agro Western Growers Center for Innovation & Technology. Conhecemos o fundo de investimento The Yield Lab. O objetivo não era copiar e colar o que existia no exterior e trazer para o Brasil. Na verdade, fomos colher insumos para montar nosso próprio modelo. A gente foi observar e aprender. Enquanto isso, conversamos muito com as empresas no Brasil para entender o que faria sentido para elas. 

O AgTech Garage seria lançado em 2017 e, no ano de 2016, o Startup Genome, que lista os principais ecossistemas de empreendedorismo no mundo, passou a considerar o papel das grandes empresas no ecossistema pela primeira vez. Eles sempre fizeram várias avaliações para entender e deixar muito claro por que o Vale do Silício é o Vale do Silício, analisando acesso a capital, a talentos. E, finalmente, perguntaram: Será que o Vale do Silício tem um número razoável de empresas no ecossistema? Tinha sim, e isso foi um ponto positivo para nós. De fato, me marcou muito a entrada desse critério “participação de grandes empresas” no Startup Genome para construir o AgTech Garage. Era mais uma ficha que confirmava ser necessária a participação de grandes empresas no ecossistema de inovação, o que não se tinha no Brasil. 

Nesse processo de pesquisa, já com a marca do AgTech Garage na mão, fizemos também o primeiro senso de startups do agronegócio junto com a Esalq-USP e, naquele momento, a gente já perguntava para o empreendedor: Quais as suas dores? Como é que você vê a relação com grandes empresas? Quais os desafios? Isso também serviu de input para a gente criar nosso modelo. Ainda existia muito pouca coisa no Brasil... O Pulse, hub de inovação da Raízen, por exemplo, nasceu em 2016, e aí foi interessante acompanhar um case nacional diferente. Ele fez acender mais uma luz de: “É real, as empresas estão indo por esse caminho”. 

José Tomé (esq.) e Adriana Lúcia da Silva (primeira do lado dir.) com membros da EsalqTec

Por outro lado, desde o início, nossa proposta era atrair vários parceiros para perto. Nós entendemos lá atrás a importância da densidade para fomentar uma comunidade ampla e nos posicionar no ecossistema de inovação, que é mundial. Adotamos então, um modelo multistakeholder dividindo o risco entre várias empresas, com cada qual investindo um tíquete menor para fazer parte da nossa rede e se nutrindo da diversidade do entorno. O surgimento do AgTech Valley, o Vale do Piracicaba, foi mais um elemento que veio para posicionar o movimento em curso na cena de inovação no agronegócio brasileiro. 

Inovação como área estratégica para as empresas

Nesses últimos cinco anos, nossa essência se manteve e estamos amadurecendo nossas práticas. Uma vez que a gente decidiu ajudar grandes empresas e gerar benefício para todo o ecossistema, potencializamos nosso modo de fazer inovação aberta. Hoje com experiência, melhores práticas, ferramentas e profissionais especializados auxiliamos as empresas com sua gestão da inovação. 

Conexão Partners 2022 realizado no Parque Tecnológico do Vale do Piracicaba

Quando a gente começou, muitas empresas diziam: “Fazemos inovação de forma orgânica”. Hoje, está bastante claro que essa é uma indústria muito profissional. Geramos valor para as companhias de forma estruturada e incluímos na relação todas as outras esferas que compõem o ecossistema de inovação no agronegócio, ou seja, as ag&food techs, professores e pesquisadores, consultorias, agências internacionais e os produtores rurais — que defendemos estar no centro da inovação no setor. Hoje, qualquer pessoa que olha de fora vê o quanto geramos de valor para todos esses elos, especialmente as startups, mesmo tendo o core business nos parceiros corporativos (Innovation e Ecosystem Partners). A relevância das startups para o ecossistema de inovação se reflete no nosso propósito. Estamos aqui também para “alimentar os empreendedores que vão alimentar o mundo”. 

Se antes inovar poderia ser algo orgânico, atualmente, a importância dada ao tema é tamanha que a Inovação é tratada pela liderança das organizações no nível corporativo-estratégico. Ou seja, olhando como a inovação aberta pode impactar todos os departamentos da empresa, desde a gestão de pessoas até o marketing, e não só a área de negócios. A governança da inovação já está sendo implementada em boa parte dos mais de 80 parceiros corporativos do AgTech Garage, com diferentes estágios de maturidade. 

Visão de futuro

Olhando para trás, não me restam dúvidas de que criamos um modelo único, que gera valor para todos os envolvidos no ecossistema de inovação, e uma rede de parceiros muito sólida. A comunidade AgTech Garage conta atualmente com mais de 80 companhias, mais de 1.000 startups na nossa plataforma virtual e mais de 100 startups residentes e membership, além de centenas de universidades e instituições de pesquisa parceiras e 30 agências internacionais conectadas. 

Me orgulha ouvir dos nossos parceiros e futuros entrantes que “não é possível fazer um evento de inovação no agro sem a presença do AgTech Garage” e que “não há como querer investir em inovação aberta em ag&food tech sem conhecer a proposta de valor do AgTech Garage”. Esse posicionamento de mercado, essa relevância, esse reconhecimento que a gente tem é nossa principal conquista nesses cinco anos, além de um time suportado por uma cultura de muito aprendizado e reinvenção, que deve chegar a ter no fim do ano mais de 60 profissionais. O AgTech Garage foi eleito em 2021 como um dos 20 principais articuladores do ecossistema de inovação no Brasil, o único no agronegócio. A gente criou algo que é sustentável e que está causando impacto positivo.

Parte do nosso time no Conexão Partners 2022, um time de #GenteQueInovaOAgro

E, apesar de a gente já ter feito bastante coisa, a sensação é de que estamos apenas no começo da nossa trajetória. A gente vê um mundo de oportunidades logo à frente. Nossa expectativa é crescer seis vezes nos próximos três anos, consolidar iniciativas novas que temos no AgTech Garage, como o For Farmers e o Flagship. O Flag é uma iniciativa com a qual estamos bastante animados e tem tudo para ser muito disruptiva. Trata-se de distribuir o hub, que foi algo concebido por muitos para ser o centro e a gente está propondo o contrário. Temos o olhar de expandir nosso impacto, de levar a experiência do AgTech Garage para os hubs dos parceiros e fazer a inovação aberta alcançar cada vez mais pessoas, inclusive fora da América Latina. A gente vai se consolidar como uma rede global, conectando o ecossistema de ag&food tech de forma genuína. 

 

José Tomé, co-fundador e CEO do AgTech Garage

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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