Revista CEO Brasil | Edição 43 | Junho 2020





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O músico executivo

Cultivando valores inspirados pela arte, como a diversidade e a disposição para servir as pessoas, Roberto Marques lidera a consolidação da Natura &Co como o quarto maior grupo de beleza do mundo. Para o executivo, a crise causada pelo novo coronavírus é uma oportunidade para as empresas repensarem seu papel na sociedade


Um violão, uma conversa animada e bom humor sempre fizeram parte da vida de Roberto Marques, CEO da Natura &Co, grupo que desde 2019 reúne as marcas Natura, Avon, The Body Shop e Aesop. “Toquei em muitos bares de São Paulo”, diz o executivo, que era reconhecido pela versatilidade musical no Café Paris, “saudoso” boteco dos anos 1980, próximo à Cidade Universitária. Entre as músicas que não saíam do repertório estavam Faz Parte do Meu Show e Ideologia, de Cazuza, e clássicos da bossa nova de Jobim, como Chega de Saudade e Águas de Março.

“Quando você toca em bares, aprende a ter jogo de cintura, a entender a diversidade e a lidar com públicos absolutamente diversos”, lembra. Influenciado pelo músico, compositor e violonista Paulinho Nogueira, seu professor de violão, Roberto Marques compreendeu o valor dos detalhes e o poder das relações humanas na vida e nos negócios. “É uma grande referência, não só pelo talento como compositor mas também pelo seu lado de humanidade. Essa característica ficou presente em minha cabeça como líder: ter uma postura de servir ao próximo e às pessoas que trabalham comigo, e ser humilde”, afirma. “Passava horas tocando com ele e participei de suas turnês.”

Movido por um impulso de realização constante, Marques liderou, ao conduzir a fusão com a Avon, a consolidação da Natura &Co como o quarto maior grupo de beleza do mundo, com um faturamento anual superior a US$ 10 bilhões, mais de 40 mil colaboradores e presença em 100 países. Formado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com pós-graduação pela Northwestern University e pela The Wharton School, da University of Pennsylvania, ele foi presidente para a América do Norte na Mondeléz, conglomerado multinacional estadunidense de alimentos, entre 2013 e 2015. 

“Não queremos ser a melhor empresa de beleza no mundo, queremos ser ‘para’ o mundo”

Roberto Marques, CEO da Natura &Co

 

Antes, trabalhou por 25 anos na Johnson & Johnson – empresa norte-americana especializada na produção de farmacêuticos, utensílios médicos e itens de higiene pessoal, que reúne marcas como Johnson, Sundown e Tylenol –, atuando como presidente do grupo para a América do Norte. Casado com Paula Marques, pai de três filhas, Juliana, Mariana e Fernanda, Roberto, que morou também na Colômbia e no Reino Unido, vive hoje em uma cidade próxima a Nova York, nos Estados Unidos. “Ser família é a minha primeira definição como pessoa, é onde encontro o equilíbrio para enfrentar os desafios cotidianos”, afirma. 

Para manter o ritmo e a energia, gosta de correr, pedalar e jogar tênis – pelo menos duas vezes na semana. “Pratico com os amigos há anos, é um grupo bastante competitivo. Quando vou ao Brasil, frequento o Clube Pinheiros [clube tradicional de São Paulo] e consigo encontrar meus irmãos tenistas”, diz Marques. Neste depoimento à CEO Brasil, o executivo relembra episódios marcantes de sua trajetória, como o momento decisivo em que teve de escolher entre a vida artística e o mundo dos negócios, e fala sobre valores aprendidos em uma jornada profissional de mais de três décadas. 

“Nestes mais de 35 anos de carreira, duas questões têm marcado minha trajetória: a valorização das relações humanas e a busca por realizações. Acho que a primeira vem muito da minha experiência com a música; e a outra, do esporte. São duas características que me ajudaram a entender como me relacionar com o trabalho, com as empresas, a lidar com a complexidade das diferenças, tendo jogo de cintura para me posicionar e encontrando um modo de servir ao outro.

Nasci em São Paulo, na capital, em uma família com três irmãos. Minha mãe, Marlisa Marques, era dona de casa, e meu pai, José Antônio Marques, trabalhava em uma multinacional. Tive uma infância muito rica. Jogava futebol com os amigos e, até hoje, sou tenista. Quando estou no Brasil, pratico tênis com meus irmãos no Clube Pinheiros, do qual somos sócios. Aqui nos Estados Unidos, sou membro do conselho da United States Tennis Association (Usta) e faço parte da fundação que tenta ajudar as pessoas mais carentes usando o tênis como uma forma de inclusão.

Comecei a tocar violão desde cedo. Estudava no Colégio Santa Cruz, que sempre teve um incentivo grande às artes, e depois o violão acabou virando profissão. Meu mestre foi o compositor e violonista Paulinho Nogueira, com quem passei muito tempo tocando e realizando turnês. Ele me inspirou não só pelo talento musical, como compositor de músicas que até hoje são famosas, entre elas Menina, mas também pela humildade. Isso ficou presente na minha cabeça como líder: ter uma postura de servir ao próximo. Ele tinha uma atenção com as pessoas que não percebi em mais ninguém. 

Como profissional da música, você cresce não só pelo lado técnico mas também pelo lado humano. A arte influencia a formação da sua humanidade. Quando você toca em bares, por exemplo, precisa aprender a lidar com a diversidade e a ter jogo de cintura para atender aos pedidos das pessoas.” 

“O primeiro e mais importante passo é formar líderes, ou seja, buscar talentos melhores do que você, construir times que possam contribuir para o crescimento da empresa”


Uma cronologia
 



“A crise traz uma oportunidade de aprendizado para todas as empresas, de entender que seu papel é também manter empregos, colaborar com os órgãos de saúde pública e se posicionar em relação à proteção do meio ambiente, à redução das desigualdades e à inclusão social”

Roberto Marques, CEO da Natura &Co

Leveza de artista

“Queria dizer que me formar em Administração de Empresas foi muito pensado ou planejado, mas não foi. Foi brilhantismo do meu pai. Ele disse: ‘Você pode seguir na música, vamos te apoiar, mas seria importante fazer uma faculdade’. Então, acabei entrando na Fundação Getulio Vargas, porque gostava do lado criativo do marketing, e fiquei conciliando os dois mundos até o momento em que não deu mais. Acabei deixando a vida artística de lado, mas pretendo voltar em algum momento no futuro. 

Naquela época, eu era jovem e dava para fazer bem as duas coisas. Lembro que saía dos bares e ia direto para a FGV. Era meio músico, meio rebelde, um pouco contrário àquela coisa do mundo capitalista, multinacional e, por incrível que pareça, isso me ajudou a conseguir um estágio na área de marketing da Johnson & Johnson em 1986. Estava tão relaxado durante o processo seletivo que essa característica me ajudou. Talvez seja outro aprendizado. Às vezes queremos tão fortemente algo que acabamos atrapalhando. Estava muito mais tranquilo do que os outros candidatos. 

Ao lado da Johnson & Johnson, havia o Café Paris, um bar em que toquei durante anos. Na empresa, nunca havia comentado abertamente que era músico profissional e que tocava na noite. Achava que não seria uma coisa adequada a um executivo que estava entrando numa multinacional americana. Mas eis que numa bela sexta-feira a equipe resolveu fazer uma happy hour lá no Café Paris. Estava vestido de paletó e gravata. Quando entrei no bar, os garçons falaram: ‘O que você está fazendo fantasiado de executivo?’ Então, é claro, tive de subir ao palco e tocar. As pessoas da firma lembram daquele momento com muito carinho.”
 


Legado de executivo 

“Em todas as posições que assumi durante minha carreira, sempre pensei em qual legado queria deixar quando mudasse de empresa ou de cargo. Fiquei na Johnson & Johnson por 25 anos e depois fui para a Mondeléz para ficar outros três. Nesse período, passei a atuar como conselheiro da Natura e, ao passo dos acontecimentos, como a aquisição da The Body Shop, fui convidado a assumir a posição de principal executivo do grupo. 

O primeiro e mais importante passo é formar líderes, ou seja, buscar talentos melhores do que você, construir times que possam contribuir para o crescimento da empresa. Fico feliz quando alguém diz que o ajudei na carreira ou contribuí para que se tornasse um profissional melhor. Poder ter feito parte, de alguma maneira, da jornada das pessoas é o legado mais importante. O segundo passo está ligado às realizações. É poder olhar para trás e ver, por exemplo, o que estamos construindo com o grupo Natura &Co. É um motivo de orgulho, não só como brasileiro, ver uma empresa nacional se tornar global, com quatro marcas espetaculares, como a Natura, a Avon, a Body Shop e a Aesop, tendo quase 200 milhões de consumidores.

Ficamos motivados com a possibilidade de ampliar as mensagens em que acreditamos, que não vêm apenas do negócio, mas da sustentabilidade, do impacto positivo na sociedade. Não queremos ser a melhor empresa de beleza do mundo, queremos ser ‘para’ o mundo. Ao pensar no aspecto transformacional na vida dos 6 milhões de consultoras, diria que esse poder de amplificar as nossas mensagens pode ser ainda maior.”

“Devemos ter um papel de ajudar a sociedade neste momento de crise causada pela Covid-19 e preparar as pessoas e as empresas para o que chamamos de ‘novo normal’”



Parte da solução

“Devemos ter um papel de ajudar a sociedade neste momento de crise causada pela Covid-19 e preparar as pessoas e as empresas para o que chamamos de ‘novo normal’. É uma responsabilidade importante para a Natura &Co como grupo global. A pandemia que, infelizmente, tem um impacto maior em populações menos privilegiadas abre caminho para a reflexão. A Natura quer fazer parte da construção de uma sociedade melhor e mais igualitária. Pensamos que, agora, existe uma chance de a humanidade repensar seus valores. 

A crise traz uma oportunidade de aprendizado para todas as empresas, de entender que seu papel na sociedade, cada vez mais, não é somente ajudar com doações. É também manter empregos, colaborar com os órgãos de saúde pública e se posicionar em relação à proteção do meio ambiente, à redução das desigualdades e à inclusão social. 

A inclusão, aliás, é muito importante em nosso modelo de negócios, representada pelo contato com o consumidor, com a representante, com a consultora e com as pessoas que trabalham nas lojas. São bandeiras importantes que vamos continuar defendendo. 

Nos últimos meses, estive muito presente no Brasil, pelo menos duas vezes por mês. Também viajava com frequência para outros mercados. Agora, o trabalho está se dando de maneira totalmente virtual. Estamos aprendendo a ser mais eficientes, podendo ficar mais com a família. Posso tocar e ouvir música, que é minha paixão. Estamos valorizando mais a subjetividade, sem nos esquecer de manter o equilíbrio, respeitando o isolamento social. Tenho a impressão de que esses serão aprendizados importantes no pós-crise.”