Índice de Economia de Baixo Carbono 2019

Uma piora nas emissões

Após quatro anos de progresso moderado, o ritmo da transição para a economia de baixo carbono diminui em 2018, igualando-se à média do período de 2000 a 2018. Apesar dos aumentos significativos em energia renovável, a diferença entre a meta do Acordo de Paris e o que se vem alcançando atualmente continua a crescer.

“É preocupante que o progresso em relação à questão climática pareça ter parado. Há uma enorme lacuna entre a retórica da “emergência climática” e a realidade de uma resposta global inadequada. É algo cada vez mais desafiador para as empresas gerenciarem, pois elas lidam tanto com impactos climáticos extremos como com riscos crescentes de políticas climáticas. As empresas estão tendo que equilibrar a demanda pela manutenção da normalidade dos negócios e o apelo urgente por uma mudança disruptiva.”

No ano passado, o PIB global cresceu 3,7%, impulsionado pelas economias emergentes. China, Índia e Indonésia tiveram um crescimento superior a 5%. Embora a economia global esteja ficando mais eficiente no uso da energia, o consumo de energia aumentou 2,9% em 2018. A energia renovável1 cresceu na taxa mais alta desde 2010, atingindo 7,2%, o que, entretanto, ainda é inferior aos 12% alcançado pelo sistema energético como um todo. A maior parte do crescimento da demanda de energia foi atendida por combustíveis fósseis, o que aumentou a emissão global em 2%. Esse é o aumento mais acelerado de emissões desde 2011.

Uma taxa de descarbonização de 7,5% ao ano é necessária para obter dois terços da probabilidade de limitar o aquecimento global a dois graus, enquanto é preciso uma taxa de 11,3% para manter o aquecimento em 1,5 grau. Para comparar, a França se descarbonizou a 4% ao ano durante a mudança para a energia nuclear nos anos 1980, e os EUA alcançaram uma taxa de 3% ao ano na revolução do gás de xisto.

Em 2019 – ano em que as ambições em relação à questão climática cresceram – vários países revisaram suas metas de redução de carbono. Em julho, o Reino Unido prometeu uma taxa líquida de emissão zero até 2050 e a UE sinalizou intenção semelhante. Mas a janela de oportunidade para cumprir as metas do Acordo de Paris está se fechando.

A adoção de soluções climáticas naturais é urgente. O recente Relatório Especial do IPCC sobre Mudanças Climáticas e Terra destacou a importância do uso da terra na redução das emissões e na mitigação dos impactos das mudanças climáticas. O documento mostra que o potencial técnico total de mitigação das atividades agroflorestais, de cultivo e pecuária pode atingir até 10 gigatoneladas (Gt) de CO2 por ano até 2050,2 o que equivale a 20% das emissões antropogênicas. No entanto, será preciso fazer escolhas difíceis entre medidas de combate às mudanças climáticas baseadas no uso da terra, capazes de gerar energia de baixo carbono (como biocombustíveis) e atender à questão da segurança alimentar global.

As empresas estão tendo que lidar com impactos ambientais cada vez mais intensos e eventos climáticos extremos, em paralelo a respostas políticas incoerentes a essa questão em todo o mundo.

A intensidade de emissão de carbono da economia global caiu 1,6% em 2018. Isso é menos da metade da taxa de descarbonização observada em 2015 (de 3,3%), quando mais de 190 governos se comprometeram com o Acordo de Paris. Nesse ritmo, os países nem sequer alcançarão suas próprias metas nacionais – as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs na sigla em inglês) – muito menos o objetivo global bem mais ambicioso desse acordo. Estimamos que a taxa média de descarbonização necessária para atender às NDCs das economias do G20 seja de 3% ao ano até 2030.

*Os orçamentos globais de carbono referem-se ao orçamento global estimado de emissões de combustíveis fósseis constantes no Relatório Especial do IPCC sobre Aquecimento Global de 1,5° C. Uma série de premissas sustentam esses orçamentos de carbono, incluindo a probabilidade e as incertezas de manter os limites de temperatura e o uso de tecnologias de remoção de dióxido de carbono.

Fontes: BP, Energy Information Agency, Banco Mundial, FMI, UNFCCC, agências governamentais nacionais, dados e análises da PwC.

Notas: O PIB é medido com base na paridade do poder de compra (PPC). A curva da NDC é uma estimativa da taxa de descarbonização necessária para atingir as metas divulgadas pelos países do G20. As NDCs cobrem apenas o período até 2030. Extrapolamos a tendência de descarbonização necessária para atingir as metas até 2100, para efeito de comparação. 

1Energia renovável inclui biocombustíveis, biomassa, geotérmica, hidroeletricidade, solar e eólica.
2O relatório sugere que o potencial total de mitigação técnica das atividades agropecuárias e agroflorestais é estimado em 2,3-9,6 GtCO2e/ano até 2050, com média segurança.

Demanda energética

Em primeiro lugar, houve uma retomada do crescimento de indústrias intensivas em energia, como as de construção e aço, em economias em rápida industrialização, como China, Índia e Indonésia. Segundo dados da World Steel Association, a produção global de aço cresceu 4,5% em 2018  – China e Índia foram responsáveis por mais de três quartos desse aumento. A China investiu várias centenas de bilhões de dólares em projetos de construção e infraestrutura em larga escala na Ásia, Oriente Médio, Norte da África e Europa, por meio de sua estratégia “Um Cinturão, Uma Rota”. Em outras partes do mundo, os investimentos em infraestrutura e construção imobiliária continuam a crescer nas economias emergentes, que buscam acompanhar o aumento da riqueza e dos padrões de vida das regiões mais desenvolvidas.

Em segundo lugar, os padrões extremos de frio e calor observados globalmente no ano passado levaram a um aumento na demanda por eletricidade e gás para aquecimento e refrigeração. Esse é um forte alerta dos possíveis ciclos de feedback associados aos impactos das mudanças climáticas. Atualmente, mais de 1,6 bilhão de aparelhos de ar condicionado em uso no mundo consomem acima de 2.000 terawatt-hora (TWh) de eletricidade a cada ano. Com os períodos de calor mais frequentes e a ampliação do mercado para aparelhos de ar condicionado – graças à expansão da riqueza, principalmente na China, Índia e Indonésia – a expectativa é que a demanda atinja 15.500 TWh até 2050.

Mix de energia

Carvão, gás natural e petróleo foram responsáveis por mais de dois terços do aumento da demanda de energia. Embora permaneça menor do que o pico de 2013, o consumo de carvão cresceu pelo segundo ano consecutivo. A Índia registrou o aumento mais significativo, elevando seu uso em 36,3 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep) em 2018 – um acréscimo de 8,7%. Esse aumento é equivalente ao consumo de carvão de toda a América Central e a do Sul. O consumo global de gás natural também aumentou 5,3% e compõe uma parcela crescente do mix global de energia.

Pela falta de políticas climáticas ambiciosas e mais coordenadas, a economia continua tendo um papel dominante na determinação do mix de energia e as alternativas de baixo carbono ficam prejudicadas. Nos EUA, o gás de xisto é a fonte de energia mais barata, enquanto o carvão é o preferido na Índia e na Indonésia. Embora as energias renováveis tenham crescido 7,2%, o maior aumento percentual desde 2010, esse crescimento foi incapaz de compensar o aumento do consumo de combustíveis fósseis e representa menos de 12% da energia total.

Desempenho do G20

Nosso Índice de Economia de Baixo Carbono monitora as taxas de transição para baixo carbono nas economias do G20 e as compara com as metas nacionais. Os países que tiveram os melhores desempenhos em 2018 são Alemanha, México, França e Itália, pois excederam suas metas de NDC. No entanto, esses países constituem uma exceção à regra – o restante do G20 não foi tão bem.



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Alemanha – líder do Índice de Economia de Baixo Carbono 2019

A Alemanha liderou o Índice de Economia de Baixo Carbono este ano com uma taxa de descarbonização de 6,5%, reduzindo o consumo de carvão, petróleo e gás natural e aumentando a energia solar e eólica em 8,7%. No entanto, essas reduções de emissão foram associadas em parte a padrões de clima quente, que restringiram a demanda doméstica de energia no ano. A expectativa é que o país não alcance a meta estipulada para 2020 – de reduzir as emissões em 40% em relação a 1990.

Os 5 melhores desempenhos

Os outros melhores desempenhos no índice deste ano – México, França, Itália e Arábia Saudita – foram capazes de reduzir as emissões ao mesmo tempo que expandiam suas economias. A descarbonização na UE foi impulsionada pela troca de carvão para gás, principalmente na Alemanha e na França. O preço do carbono na UE aumentou drasticamente, passando de menos de 8 euros no início de 2018 para cerca de 25 euros atualmente. Isso está forçando os geradores a alterar seus portfólios e buscar alternativas mais eficientes em termos de emissão de carbono, além incentivar a substituição contínua do uso de energia baseada em carvão.

O que vem por ai?


O foco e o engajamento nas questões climáticas se intensificaram em 2019. Até agora, dez países, incluindo Reino Unido, França, Canadá e Irlanda, declararam “emergência climática”. O Reino Unido tornou-se a primeira grande economia a estabelecer em lei uma meta de emissão zero, e vários outros países avançaram com legislação ou política nesse sentido. A ação da sociedade civil chegou ao auge, com o “Efeito Greta” mobilizando uma nova onda global de ativismo climático.

O mundo está numa corrida para limitar as mudanças climáticas. Em um esforço para atender a essa necessidade urgente, o Secretário-Geral da ONU convocou uma cúpula em Nova York em setembro para aumentar a meta e a ação global em relação às mudanças climáticas. Muitas promessas foram feitas por países, jurisdições subnacionais e empresas. Os compromissos mais ambiciosos vieram dos países menos desenvolvidos e vulneráveis ao clima, aqueles que menos contribuíram para as emissões globais. Os maiores emissores, incluindo muitos países do G20, não se comprometeram com metas mais ambiciosas.

Com o Reino Unido preparado para sediar a COP26 e o “mecanismo de catraca”* do Acordo de Paris pronto para ser acionado, 2020 precisa ser um ano excepcional para o clima. Espera-se que muitas economias importantes assumam NDCs melhores no próximo ano. Vamos analisar esse movimento ao longo de 2020, em preparação para a COP26.

*Estabelece um processo contínuo e regular para elevar as ambições de um país. Os países devem apresentar o seu progresso a cada cinco anos e, com base na reavaliação da situação, enviar um plano de ação climática que seja mais ambicioso do que o anterior.


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