Por Nyeli Franca e Fernanda Cavalcante
Com produção estimada em cerca de 360 milhões de toneladas de grãos, o Brasil se aproxima do fim de uma safra recorde enquanto já planeja o próximo ciclo sob influência do El Niño. O volume projetado para 25/26 é 2,2% superior ao registrado na temporada anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. Agora, a atenção se volta para os possíveis efeitos do fenômeno sobre as lavouras e o funcionamento das cadeias produtivas.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica e interfere na distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
Para analisar como esse cenário pode repercutir da produção à gestão de riscos nas cadeias agropecuárias, a matéria reúne as perspectivas de Ari Heck, especialista em inteligência de mercado e CEO da Agro BI, startup que desenvolve soluções de inteligência de dados e infraestrutura analítica para o agronegócio, e Talita Martins, especialista em ESG e CEO da Equos, consultoria voltada à gestão de riscos ambientais, sociais e de governança.
Segundo especialistas, a extensão e a diversidade do território brasileiro exigem uma análise regionalizada do fenômeno. Historicamente, o El Niño está associado ao aumento do risco de períodos mais secos em partes das regiões Norte e Nordeste, enquanto o Sul tende a registrar chuvas mais frequentes e volumosas. Os efeitos, no entanto, podem variar conforme localização, período do ano, cultura e estágio de desenvolvimento das lavouras.
Na avaliação de Ari Heck, as chuvas podem representar tanto oportunidades quanto desafios para a produção agrícola. Quando ocorrem de forma regular e bem distribuída, tendem a beneficiar culturas que demandam maior disponibilidade hídrica, como o milho. Já eventos concentrados, e de grande intensidade, podem gerar impactos significativos na logística, manejo e sanidade das lavouras.
O desafio é justamente controlar o incontrolável: o clima e seus efeitos associados, segundo o especialista. “Chuvas sejam bem distribuídas podem beneficiar determinadas regiões, especialmente as mais ao Sul. Porém, se forem concentradas, podem causar erosão, dificultar o manejo das lavouras, incluindo o controle fitossanitário, e favorecer o surgimento de doenças. Outra preocupação está relacionada aos temporais e seu potencial de causar danos logísticos dentro e fora da porteira”, afirma Heck.
Do ponto de cada cultura, Talita Martins afirma que os impactos também podem variar bastante. Nas regiões Sul e Sudeste, o aumento da frequência de chuvas pode provocar encharcamento dos solos, apodrecimento de sementes e atrasos na colheita da soja. Esses atrasos tendem a se refletir em toda a cadeia produtiva, interferindo, por exemplo, no calendário de plantio do milho safrinha em sistemas de rotação de culturas.
Na cana-de-açúcar, alterações no regime hídrico podem comprometer a qualidade da matéria-prima ao afetar o Açúcar Total Recuperável (ATR). Já no café, especialmente nos segmentos de maior valor agregado, as mudanças climáticas surgem como um fator de preocupação crescente. “O mercado de cafés especiais tem consumidores cada vez mais exigentes em relação à qualidade dos grãos e ao padrão das torras. Períodos prolongados de seca e estresse climático podem afetar essas características e comprometer a qualidade final do produto”, explica Talita.
Diante de um cenário climático mais instável com o El Niño, a tecnologia passa a desempenhar um papel central na mitigação de riscos e planejamento das operações agrícolas.
Para Ari Heck, a organização e a integração de dados são fatores decisivos para melhorar a tomada de decisão no campo. Segundo ele, cooperativas e produtores que estruturam adequadamente suas bases de informações conseguem antecipar eventos adversos e reduzir perdas.
“Uma cooperativa que tem uma boa base de dados realiza a colheita antes que a chuva chegue na lavoura”, afirma. Ao cruzar dados climáticos, históricos da propriedade e informações agronômicas, produtores conseguem construir uma visão mais integrada dos riscos associados aos eventos climáticos extremos. Heck considera que um dos principais desafios do setor está justamente na consolidação dessas informações.
“Falta a integração de dados climáticos com o histórico da propriedade e os dados agronômicos”, destaca. Na prática, essa integração permite a geração de alertas sobre precipitações, umidade do solo e possíveis impactos na produção, apoiando decisões relacionadas ao plantio, manejo e colheita.
Talita Martins afirma que a tecnologia também desempenha papel importante ao conectar riscos físicos e riscos de transição. Segundo ela, ferramentas de monitoramento permitem avaliar desde ameaças relacionadas a ventos, secas e inundações até impactos financeiros, reputacionais e regulatórios decorrentes das mudanças climáticas.
A partir dessas análises, produtores e cooperativas podem desenvolver planos de adaptação mais específicos, incluindo o uso de cultivos protegidos, tecnologias para melhoria do desempenho das culturas e insumos desenvolvidos para aumentar a resiliência a cenários adversos.
A agricultura de precisão completa esse processo ao integrar informações meteorológicas, agronômicas e operacionais em uma visão mais detalhada da propriedade.
Com o cruzamento desses dados, produtores conseguem planejar melhor cada etapa produtiva, realizando ajustes de acordo com as características das áreas em particular.
Embora as ferramentas de previsão e monitoramento estejam cada vez mais acessíveis, transformar informações climáticas em ações práticas continua sendo um desafio para parte do setor.
Segundo Talita, muitos produtores ainda atuam de forma predominantemente reativa, implementando medidas somente após a ocorrência de perdas ou eventos extremos. Além das questões climáticas, a cadeia produtiva precisa lidar simultaneamente com fatores que tornam esta equação mais complexa, a exemplo da: disponibilidade de armazenamento, logística, volatilidade dos preços das commodities e dos insumos, além das exigências de mercado.
“O desafio está em transformar dados e alertas climáticos em decisões antecipadas que reduzam riscos e aumentem a competitividade”, afirma.
A especialista observa que ações relacionadas à sustentabilidade, adaptação climática e critérios ESG também são, ainda, frequentemente percebidos como custos adicionais. No entanto, quando incorporados à estratégia empresarial, essas iniciativas podem gerar benefícios concretos para a produtividade e a resiliência dos negócios.
“É importante compreender que essas ações não se aplicam apenas para atender exigências externas. Elas ajudam a prevenir impactos negativos na produção, preservar recursos essenciais, como solo e água; e fortalecer a resiliência do negócio diante das mudanças climáticas”, destaca.
Embora o El Niño seja um fenômeno temporário, seus efeitos se somam a uma tendência mais ampla de mudanças nos padrões climáticos globais, o que pode provocar transformações de longo prazo no agronegócio brasileiro.
De acordo com Talita Martins, algumas regiões podem perder gradualmente a aptidão para determinadas culturas caso alterações de temperatura, chuvas e regime de ventos se consolidem ao longo dos próximos anos. Isso pode provocar deslocamentos produtivos e reconfigurações nas cadeias agrícolas.
Os impactos vão além da produção. Armazenagem, logística, agroindústria e disponibilidade de mão de obra especializada também podem ser afetadas por eventuais mudanças nos polos produtores.
Ao mesmo tempo, a especialista avalia que o Brasil reúne características que podem fortalecer sua posição competitiva em um cenário global marcado por eventos climáticos cada vez mais frequentes se investir na agenda de adaptação.
Para ela, a vantagem competitiva do Brasil não estará necessariamente em sofrer menos impactos climáticos que outros grandes produtores agrícolas, mas em sua capacidade de responder ao novo cenário.
“A vantagem do Brasil não está em sofrer menos com as mudanças climáticas, mas em ter ampla diversidade de biomas, abundância de recursos hídricos e uma das mais avançadas bases de pesquisa agropecuária tropical do mundo, para se adaptar mais rapidamente do que muitos de seus concorrentes.”
Segundo a especialista, a competitividade futura do setor dependerá cada vez mais da capacidade de antecipar riscos, incorporar a gestão climática às decisões de negócio e investir em infraestrutura, tecnologia, armazenagem e mecanismos de proteção financeira.
“Gestão climática não é mais uma pauta ambiental, é uma pauta de competitividade. A próxima fronteira do agronegócio brasileiro não será apenas produzir mais, mas produzir com resiliência em um clima cada vez mais imprevisível.”