O mercado de fusões e aquisições no setor de consumo iniciou 2026 em terreno mais firme, mas continua condicionado pelas incertezas macroeconômicas, pelas tensões geopolíticas e pelos juros elevados. Os processos estão mais longos e os compradores analisam com maior rigor as perspectivas de crescimento, a sustentabilidade das margens e os riscos de execução.
Apesar da cautela, o mercado não está paralisado. Empresas e investidores continuam buscando ativos capazes de fortalecer posições competitivas, ampliar o acesso aos consumidores e acelerar a transformação dos negócios.
A atividade global desacelerou: com base nas transações anunciadas até maio, o volume de operações deve cair 12% em 2026, enquanto o valor total deve recuar 2%.
Excluída uma grande fusão ferroviária anunciada em 2025, o valor das transações apresentaria crescimento de 17%, sinalizando que ainda existe espaço para operações estratégicas de grande porte.
Reconfiguração de portfólios, consolidação, aquisição de capacidades e ativos ligados a saúde, bem-estar e canais digitais estão entre os principais motores do mercado
Empresas de consumo e varejo estão adotando uma abordagem em duas frentes: vendem marcas e negócios que perderam aderência às suas prioridades e concentram recursos em plataformas mais fortes, escaláveis e rentáveis.
Spin-offs, carve-outs e desinvestimentos ajudam a simplificar operações, melhorar a disciplina de capital e liberar recursos para categorias com maior potencial de crescimento. Ao mesmo tempo, a pressão para realizar saídas de investimentos de private equity pode ampliar a oferta de ativos, inclusive em situações de dificuldade financeira.
No Brasil, os juros ainda elevados e o aumento das recuperações judiciais no varejo podem gerar oportunidades para investidores com capital disponível e capacidade operacional para reestruturar negócios.
O M&A orientado pela aquisição de capacidades tende a crescer. Varejistas, plataformas e donos de marcas buscam incorporar tecnologia, logística, inteligência de dados e infraestrutura omnichannel com mais rapidez do que conseguiriam desenvolver internamente.
A inteligência artificial já transforma a maneira como os consumidores descobrem, comparam e compram produtos. Com isso, dados próprios, programas de fidelidade e o relacionamento direto com o cliente tornam-se ativos ainda mais estratégicos.
“Agilidade, integração e transformação contínua se tornam diferenciais decisivos para enfrentar a concorrência impulsionada pela convergência entre tecnologia, dados e IA.”
Luciana Medeiros,sócia e líder da indústria de Varejo e Consumo da PwC BrasilSaúde do consumidor, beleza, alimentos e bebidas, varejo, transporte e logística concentram algumas das principais oportunidades. Em saúde e bem-estar, a demanda resiliente e o interesse crescente dos consumidores sustentam aquisições.
No Brasil, a expansão projetada do mercado de medicamentos GLP-1 também pode criar oportunidades em empresas de saúde, canais de distribuição e serviços complementares.
Na beleza, marcas premium, digitais, respaldadas pela ciência e capazes de formar comunidades fiéis continuam atraentes. Em alimentos e bebidas, os compradores procuram ativos alinhados à busca por saúde, conveniência e custo-benefício.
No varejo, escala, dados de clientes e integração entre canais físicos e digitais estão no centro das estratégias. Já em transporte e logística, ganham valor os ativos que aumentam a resiliência das cadeias de suprimentos, especialmente em cadeia de frio, logística para saúde, última milha e tecnologias de visibilidade e roteamento.
O mercado de M&A no setor de consumo deve permanecer seletivo, com vantagem para ativos que apresentem marcas fortes, demanda resiliente, canais diferenciados ou capacidades críticas.
Para compradores e vendedores, o desafio será construir teses de investimento claras, identificar oportunidades com antecedência e demonstrar como cada transação pode gerar valor em um ambiente de transformação acelerada.