Na corrida da agricultura autônoma, o produtor que inova será o único a cruzar a linha de chegada

Diante da demanda por produzir mais em uma área cada vez menor, o agronegócio está sendo desafiado a incorporar as tecnologias digitais 

Novembro 25, 2021.

Por Octaciano Neto

Todo crescimento que observamos no agronegócio brasileiro nos últimos 50 anos tem três pilares: química, biologia e mecanização. Agora surge um novo pilar, ou melhor, um novo paradigma, da combinação das novas tecnologias digitais, da agenda ESG e do mercado de capitais alinhado ao que se conhecia até aqui. Uma coisa não substitui a outra. As tecnologias digitais não vão tomar o lugar da evolução da química, da biologia e nem da mecanização. Mas elas vão acelerar esse processo. 

É verdade que, no caso do agro, esse processo é um pouco mais lento por conta da questão da conectividade no campo. Hoje você tem 23% das propriedades rurais conectadas, com expectativa de chegar a 50% até o final de 2030. 

Mas podemos olhar isso com o copo meio cheio. O fato de o agro não ter acelerado tanto lá atrás, por conta da conectividade, pode se traduzir também em melhores oportunidades, considerando que está havendo uma evolução gradual e um amadurecimento dessas tecnologias. Outra vantagem é que nós não temos um grande legado de sistemas, o que costuma ser um problema em empresas que se digitalizaram muito cedo. O agro, nesse sentido, vai super bem e está repleto de oportunidades. 

O futuro é da agricultura autônoma

Do meu ponto de vista, caminhamos agora no setor para ter uma agricultura autônoma, que se contrapõe à agricultura empírica, que existia até aqui. Um exemplo clássico dessa agricultura empírica, que deve ficar no passado, é a irrigação baseada no toque da botina. Dado que irrigar é muito caro – e o produtor irriga à noite, quando a energia elétrica é mais barata – sempre no fim do dia ele passava a bota no chão. Se estava úmido, não irrigava. Se estava seco, dá-lhe irrigação. O processo decisório era intuitivo, baseado em experiências porque faltavam dados. 

Com as tecnologias digitais, isso muda de figura. Nós temos sensores no solo que informam exatamente o nível de umidade ambiente, a umidade da cultura, a necessidade hídrica daquela planta e se vai chover à noite ou não. Começa, assim, a ser criada uma base de dados enorme para que os processos decisórios sejam muito mais assertivos. 

Outro exemplo: o processo de aplicação de adubo ou herbicida. O produtor vai no talhão da fazenda, colhe amostras do solo, leva para o laboratório, três dias depois vem o resultado e ele decide qual volume vai aplicar na fazenda. Agora e, no futuro, serão os tratores que irão na frente fazendo a ressonância magnética do solo e analisando a necessidade de aplicação de fertilizante por planta. Desta forma, se aplica por indivíduo e não mais por conjunto da população. As primeiras experiências mostram que a redução no uso de insumos é de 30% com essa nova tecnologia. Pode ser que um indivíduo precise de mais e outro de menos, e isso muda toda a equação.

Mas ainda falta agarrar as oportunidades

No meio de tudo isso, porém, ainda temos um desafio. Poucas empresas estão, de fato, olhando para o que importa para o produtor. E muitas desenvolvem um conjunto enorme de apps, de soluções digitais, que cairão em desuso. 

Cada vez mais, vamos ver um agrônomo chegar nas fazendas ao lado de um cientista de dados. Uma profissão não substitui a outra, elas se completam. Você precisa do conhecimento do negócio, porque o Analytics não para em pé se você não tem quem o interprete. Essa combinação é perfeita para atingir a agricultura autônoma.

O ponto é e sempre foi sobre como gerar valor a partir dos dados. O Analytics nos permite avançar muito na melhoria do processo decisório, porque o aperfeiçoa. Habilita o próximo passo. Vou plantar hoje ou vou plantar na semana que vem? Coloco menos adubo? Aplico herbicida? São perguntas cotidianas do produtor rural, mas são decisões tomadas geralmente com pouca informação e nenhuma inteligência de dados. 

Todo melhoramento genético na pecuária é muito baseado em fenótipo. Sempre no visual. Quando eu passo a fazer a análise a partir do genótipo, passo a olhar o genoma dos animais, a base de dados para tomar uma decisão se multiplica exponencialmente. Posso começar a fazer recomendações de cruzamento de indivíduos de forma mais assertiva. Isso significa que numa propriedade rural, se eu tenho uma geração de bezerros que produzem mais, eu produzo mais carne por hectare. Na soja também, vou produzir mais alimento na mesma área e com menos recursos. O melhor dos mundos para a sociedade. 

Olhar sobre a segurança alimentar

Falar sobre agricultura do futuro é falar de segurança alimentar. A grande demanda no agro em relação ao blockchain, por exemplo, está na rastreabilidade da produção de alimentos. E isso deixa claro que o consumidor é soberano em todas as discussões que fazemos sobre o agronegócio e o uso de tecnologia. Afinal, o setor existe para: (1) produzir alimentos, (2) fibras e (3) energia. 

No pacote da alimentação saudável entram produtos sobretudo in natura que, no Brasil, já são obrigatoriamente rastreáveis (Foto: Gustavo Froner)

De um lado, 1 bilhão de pessoas ainda passam fome e teremos que alimentar outros 2 bilhões que vão nascer até 2050. De outro, existe um grupo de consumidores que já pode escolher se alimentar cada vez melhor, e que quer saber exatamente de onde vem o combustível que o move. A Europa está na vanguarda desse processo, mas países asiáticos como a China também têm pautado a discussão, questionado se os produtos são produzidos com boas práticas sociais e ambientais, se têm certificação ou se vêm de áreas de desmatamento. 

No Brasil, temos 250 milhões de hectares disponíveis para a agropecuária hoje, e o velho paradigma produtivo não dará conta de atender à demanda do país e do mundo em termos de volume e nem de boas práticas com a tendência de redução dessas fronteiras. Nós precisamos combinar as alavancas digitais com a biologia, química e mecanização para produzir mais com menos. 

Dito isso, o último obstáculo para superar esse desafio no Brasil é o acesso a crédito, porque o agronegócio é muito intensivo em capital. Em algumas culturas, ainda temos ciclos longos de produção. É o caso do eucalipto, que leva sete anos para gerar algum retorno financeiro. É diferente de ter um comércio, por exemplo, em que o ciclo de capital de giro é muito rápido. No agro, ele é muito longo. Entre a vaca dar luz ao bezerro e ele estar pronto para o abate podem passar quatro anos em fazendas de criação extensiva. Algumas culturas são mais rápidas como a soja, claro, mas, no geral, o capital de giro demandado é considerável. 

Por fim, o crédito aliado à tecnologia

Atualmente, estima-se que a carteira de crédito agrícola no Brasil seja de R$ 750 bilhões. Um terço é subsidiado pelo governo federal pelo Plano Safra; outro terço é financiamento direto dos bancos a taxas não subsidiadas; e o último terço corresponde a operações de escambo, de troca, barter – um atraso do ponto de vista econômico, considerando que é comum ver balanços de empresas em que o resultado financeiro foi maior que o resultado operacional. Ou seja, dá mais dinheiro fazer a troca do que vender um determinado produto. 

Para resolver essa distorção, o mercado de capitais está entrando de forma acelerada no agronegócio. Com o Fiagro, por exemplo, o investidor finalmente poderá financiar o agro sem burocracia, dando condições ao Brasil de produzir mais alimentos, fibras e energia na mesma área.

Se a gente olhar o valor bruto da produção agropecuária, que é um indicador conhecido no agro, vamos ver que 9% dos produtores rurais do Brasil respondem por 88% da produção. Existe uma enorme concentração, e isso não é concentração fundiária, mas uma concentração produtiva. Temos poucos produtores rurais, cerca de 500 mil deles, que produzem quase tudo. 

E, para mim, os produtores que tiverem maior flexibilidade, não mais terras nem mais dinheiro, serão aqueles que vão usufruir da agricultura autônoma. Os produtores que estiverem abertos ao uso de tecnologias, que forem mais curiosos, esses serão os vencedores. Afinal, o momento é de experimentação, de olhar para a demanda da segurança alimentar e de interpretar os dados. A corrida está ganha e, aqueles que não correrem, terão, de um jeito ou de outro, que pendurar a botina. 

Octaciano Neto é Head de Agronegócios da EloGroup. Durante a carreira, atuou como Secretário de Agricultura do Estado do Espírito Santo, entre 2015 e 2018, e também como produtor rural no mesmo Estado.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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