Abril 19, 2022
Por Patricia Menezes Santos, Alberto Carlos de Campos Bernardi e José Ricardo Macedo Pezzopane
Como podemos alimentar a população mundial com o menor impacto possível no ambiente? Como podemos criar condições para que pequenos e médios estabelecimentos rurais sejam viáveis e não desapareçam? Como ter alternativas de produção viáveis para regiões marginais e de baixa aptidão agrícola? A pecuária pode fazer parte dessa solução, mas muitos desafios precisam ser vencidos.
A pecuária do futuro dependerá cada vez mais da aplicação de conhecimento e tecnologia, e é preciso criar condições para que os produtores tenham acesso e adotem as tecnologias já disponíveis, e as que serão desenvolvidas daqui para frente.
As novas tecnologias serão desenvolvidas tanto com foco na solução de problemas enfrentados pelos produtores no seu dia a dia, quanto em questões de interesse da sociedade em geral.
Seja qual for o seu propósito final, ao longo do processo de P&D é preciso levar em consideração o ambiente no qual a tecnologia será aplicada, assim como as dificuldades dos produtores para a sua adoção. É fundamental apoiar o produtor na etapa de implementação dessas novas tecnologias, ser flexível e adequar as soluções à sua realidade. A palavra-chave, nesse sentido, é adaptabilidade.
Na produção de leite, a ordenha mecanizada gera vantagens à produção e ao ordenhador (Foto: Embrapa)
Em uma sociedade intensiva no uso de informação e conhecimento, mesmo as tecnologias aparentemente mais simples e tradicionais irão incorporar ao seu desenvolvimento princípios que nascem na fronteira do conhecimento.
O desenvolvimento de novas cultivares irá incorporar cada vez mais técnicas de genética molecular, e as recomendações de práticas agropecuárias irão se beneficiar de conceitos e ferramentas da agricultura digital.
Novas tecnologias farão cada vez mais parte do dia a dia dos produtores. O entendimento das relações entre os microrganismos e as plantas está se expandindo. E, isso, abre portas para criação de bioinsumos com grande diversidade de aplicações, desde a maior tolerância das plantas à seca até o aumento da disponibilidade de fósforo e a fixação biológica de nitrogênio.
Novas soluções para a agricultura tem seu valor multiplicado pelos sistemas que integram lavoura, pecuária e floresta (Foto: Gisele Rosso/ Embrapa)
Insumos mais eficientes estão surgindo, como os fertilizantes de liberação lenta ou controlada, e em formulações com microrganismos, para aumentar o aproveitamento dos nutrientes pelas plantas e reduzir perdas.
A transformação digital está afetando os mais diversos aspectos da nossa vida e terá efeitos sobre a pecuária. Seus efeitos são sentidos em muitas frentes — automação de máquinas e equipamentos, uso de sensores e atuadores, internet das coisas, big data, computação em nuvem, inteligência artificial, aprendizado de máquinas e a integração de sistemas — e criam condições para a coleta, processamento e análise de grande volume de dados sobre o ambiente, as plantas e os animais.
Os dados podem ser locais (ex: pluviômetros, estações meteorológicas instaladas em áreas da própria fazenda, mapas de fertilidade do solo etc) ou regionais (ex: rede de estações meteorológicas mantidas por diferentes instituições, base de dados de solos) e podem alimentar modelos que ajudam o planejamento do sistema de produção.
Instalação de estações meteorológicas podem gerar dados locais e regionais, a depender do agente gestor do banco de dados (Foto: Gisele Rosso/ Embrapa)
É verdade que as ferramentas de monitoramento auxiliam de muitas formas, mas é preciso conhecer os sistemas de produção, as demandas dos produtores e da sociedade, e ter criatividade.
Por exemplo, imagens de satélite contribuem no diagnóstico das condições das pastagens na fazenda e apoiam decisões sobre sua recuperação e/ou melhoria.
Sensores de imagem diversos e modelos de crescimento de plantas são usados para gerar cenários e ajudam o produtor a tomar decisões sobre estratégias de uso e manejo dos pastos e sobre o número de animais que deve ser colocado na fazenda ou em uma área específica.
Sensores colocados nos animais, ou até mesmo imagens, podem melhorar a sanidade e bem-estar do rebanho, tanto aumentando a produtividade quanto garantindo a segurança dos alimentos.
Com sistemas de rastreabilidade, os consumidores têm informações sobre a origem dos produtos e a sua forma de produção, e escolhem o que comprar em função daquilo que acreditam ser melhor para todos.
As ferramentas de monitoramento também são usadas para avaliar os serviços ambientais prestados pelas pastagens, permitindo a remuneração diferenciada de produtores que adotarem práticas nesse sentido.
O Brasil é um país grande e com imensa diversidade. Há uma tendência clara de expansão acelerada destas novas tecnologias, de maior controle e precisão dos sistemas de produção pela utilização de equipamentos e sensores inteligentes.
Novas profissões estão surgindo, como operador de drones, técnico em agricultura digital, especialista em automação agrícola, engenheiro agrônomo digital, entre outros. O profissional do futuro deverá ter conhecimentos multidisciplinares.
Por outro lado, é importante ressaltar que estas novas ferramentas somente terão o efeito positivo desejado se o básico tiver sido atendido, como as necessidades do rebanho em nutrição, sanidade e genética.
Ainda há alguns gargalos para que a pecuária do futuro se torne realidade. Há questões de P&D que precisam ser vencidas, desde o ajuste de sensores e equipamentos até o desenvolvimento de algoritmos.
É preciso alcançar a conectividade do campo e viabilizar fontes de energia limpa e renováveis, confiáveis e de qualidade para garantir o funcionamento de todos os sensores, equipamentos e conexões.
É necessário também entender melhor as dificuldades dos produtores no campo e desenvolver ferramentas adequadas ao seu ambiente de produção.
Dentro das fazendas, uma dificuldade citada com frequência é a baixa capacitação, escassez e alta rotatividade das pessoas. Qualquer solução que seja levada ao campo precisa incorporar formas de contornar esse gargalo. A complexidade das soluções terá que ser traduzida em saídas tão simples e diretas quanto a receita do soro caseiro!
O risco da atividade também é um ponto que aparece com frequência. Dentre os fatores de risco de produção, destacam-se os eventos climáticos extremos e questões relacionadas à sanidade animal.
Além disso, há riscos de mercado, relacionados à comercialização de produtos e insumos e ao comércio internacional, e riscos do ambiente institucional e regulatório, que englobam questões como infraestrutura e logística.
Com a aplicação de novas tecnologias, será possível, por exemplo, gerar cenários de produção e estimar o risco de eles se concretizarem ou não a partir de séries de dados de vários anos. O produtor terá informações que poderão lhe ajudar a escolher o que fazer, de acordo com seu perfil, seus objetivos e sua disposição ao risco.
O uso de tecnologia poderá contribuir para que a pecuária atenda às demandas dos diversos setores da sociedade e contribua para a construção de um sistema agroalimentar mais justo e sustentável. No entanto, é fundamental que a gente busque formas de impedir que isso se torne um fator de exclusão.
A pecuária é fundamental para que milhares de pequenos e médios produtores permaneçam no campo e será cada vez mais difícil manter sistemas de assistência técnica e extensão rural nos moldes praticados até agora. Precisamos ser criativos e pensar em formas de usar as novas tecnologias.
Patricia Menezes Santos
Alberto Carlos de Campos Bernardi
José Ricardo Macedo Pezzopane
Todos são pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste.