Março 23, 2022
Por Viviane Taguchi
Não é de hoje que o delivery, bom e velho serviço de entrega, facilitou a vida do consumidor. Da tradicional pizza, antes pedida apenas por telefone (o que já foi uma grande revolução nos anos 1980), hoje as possibilidades de recebimentos de mercadorias, em poucos minutos, em qualquer lugar do mundo, ganharam ares tecnológicos.
De um smartphone, com alguns toques, o consumidor tem a sua disposição milhares opções de compras rápidas, que vão de alimentos prontos, congelados ou in natura, direto da fazenda, a eletrodomésticos, roupas e eletrônicos. A pizza de outrora e a pandemia, decretada em março de 2020, abriram um caminho infindável para o comércio online.
Impulsionado pelas restrições ao funcionamento do comércio varejista durante o período mais crítico da pandemia, o e-commerce brasileiro cresceu consideravelmente nos últimos dois anos. A Associação Brasileira de E-Commerce (ABComm), em parceria com a empresa de pesquisa Neotrust, revelou que somente em 2021, o setor cresceu 86,9% quando comparado a 2020.
O faturamento do setor chegou a R$ 161 bilhões e, dentre as áreas que mais aumentaram no e-commerce, estão moda, beleza e a alimentação saudável. A projeção, para este ano, é que a receita do e-commerce no país cresça mais 9%, atingindo um faturamento recorde de R$ 174 bilhões.
Desde o início da pandemia, 76% dos brasileiros passaram a fazer compras de supermercado online e a tendência, segundo os especialistas, é que este número aumente ainda mais devido à comodidade, segurança e agilidade dos serviços.
“O ano de 2020 foi um divisor de águas para o varejo brasileiro. Com a pandemia, as empresas perceberam a relevância de promover a transformação digital e investir no e-commerce para poder atender seus clientes”, explicou o vice-presidente institucional e administrativo da Associação Brasileira dos Supermercados (Abras), Marcio Milan. “O que percebemos é uma demanda grande por produtos especiais, como os alimentos sem glúten, zero lactose e os orgânicos”.
O movimento que já existia antes da pandemia, como o de assinaturas online de produtos, até então focada em produtos premium específicos como vinhos, cafés especiais ou chás temáticos, ganhou a atenção até de empresas tradicionais, como granjas de ovos.
O Grupo Mantiqueira, que é líder no segmento, com 2,7 bilhões de ovos por ano, montou um clube de delivery que cresceu 15 vezes na pandemia, segundo Murilo Pinto, diretor comercial do grupo. Hoje, nas opções oferecidas, tem até ovo vegano em pó.
Segundo ele, o aumento na procura foi reforçado pela pandemia, mas também pelo investimento em plataformas digitais mais simples que proporcionam comodidade e segurança para o consumidor. “Apostamos na intimidade e personalização de compras por meio do e-commerce para fidelizar os clientes, e os clubes possibilitam recebimentos regulares programados”, afirmou. Segundo ele, os mais kits de ovos mais pedidos são os fitness, família, orgânicos e os ovos plant-based, da foodtech N.Ovo. “Os consumidores de todas as idades criaram esse vínculo com o e-commerce”.
Na esteira do crescimento do setor, a Jasmine, uma das precursoras da alimentação saudável e que comercializava seus produtos pela Amazon nos últimos anos, lançou em janeiro uma plataforma de e-commerce própria.
Segundo a empresa, foram investidos R$ 100 mil no marketplace próprio. Rodolfo Tornesi Lourenço, CEO da Jasmine, disse que a estratégia de um marketplace B2C visa fortalecer a presença e o alcance da marca em todo o país. “A nova plataforma terá abrangência nacional e entregará em todas as regiões do Brasil, sem restrições”, explicou. “O nosso game changer (ponto de virada) foi a parceria que fizemos com a Amazon em 2020 e, em pouquíssimo tempo, alcançamos mais de 100 mil unidades comercializadas pelo canal e entendemos que precisávamos ter a nossa plataforma própria”.
O Grupo Mantiqueira passou a fazer entregas de ovos e correlatos em casa
Em 2021, as startups nacionais receberam cerca de US$ 9,4 bilhões em aportes, conforme um levantamento do Distrito. Esse volume é três vezes maior que o registrado em 2020 e mostrou que, apesar da pandemia e da crise econômica, os investidores estão apostando alto no setor. “Devido ao cenário em ascensão, somente em 2021 vimos 10 novas startups se tornando unicórnios ao atingir valuation igual ou maior a US$ 1 bilhão, totalizando 21 unicórnios no Brasil”, apontou o relatório.
Nesse contexto, o Distrito ainda realizou uma projeção de apostas para os próximos unicórnios e, dentre as 16 startups apontadas, a foodtech Liv Up aparece como uma das aspirantes.
A Liv Up foi criada por Henrique Castellani e Victor Santos em 2016. Com um aplicativo próprio, permite que os consumidores peçam produtos de hortifrúti ou refeições prontas, mas tudo é fresquinho, produzido por agricultores familiares e orgânicos. Segundo a empresa, são 500 mil refeições preparadas mensalmente em uma cozinha de 8 mil metros e 5 cloud kitchens (modelo exclusivamente criado para atender somente pedidos de delivery, sem o tradicional salão com mesas para clientes).
Na pegada do e-commerce de preocupação com a saúde, no final de fevereiro, a Liv Up anunciou uma parceria com a seguradora QSaúde. Clientes da operadora terão descontos para comprar da Liv Up ou opções de cash back (programa de recompensa com devolução de parte do valor da compra).
Victor Santos, CEO da empresa, disse em comunicado que a parceria foi possível porque une propósitos: a facilidade do e-commerce com a saúde dos consumidores, através do consumo de alimentos saudáveis. “Nossas receitas são desenvolvidas por chefs e nutricionistas, com ingredientes prioritariamente orgânicos e provenientes da parceria com agricultores familiares, ponto de partida para uma alimentação saudável e gostosa, não apenas para quem consome, mas também para quem produz e para o planeta”, disse.
Em Fortaleza (CE), Priscilla Veras fundou, no final de 2018, a startup Muda Meu Mundo (MMM). Ela, que já atuava no terceiro setor, decidiu empreender em uma área para onde ninguém estava olhando: o empoderamento do agricultor brasileiro.
Priscilla Veras: “Da forma como o segmento está crescendo, é possível que as Ceasas nem precisem existir mais daqui um tempo”
“Já existiam muitos movimentos farm-to-table (da fazenda para a mesa), mas o agricultor não era visto pelo setor varejista”, disse Priscilla. Foi aí que ela resolveu atuar e, hoje, a MMM conta com uma rede de cerca de 300 famílias agricultoras que distribuem produtos orgânicos para 40 lojas, médias e grandes redes varejistas, no Ceará e em São Paulo, e startups B2C.
Com um marketplace, a MMM é responsável por ‘dar match’ entre produtores e redes de supermercados, ávidos por fornecedores de alimentos sustentáveis. Os agricultores usam a plataforma da MMM gratuitamente e as redes de varejo pagam uma taxa para encontrar o produto que eles querem. “O que percebemos é que, durante a pandemia, houve uma demanda grande da rede varejista por sustentabilidade. Foi por isso, por trabalhar com o foco em sustentabilidade, que ganhamos espaço no mercado”, explicou.
A ideia de Priscilla é expandir, a partir de 2023, a atuação para outros Estados do Brasil. “Estamos o tempo todo realizando captação de leads, buscando produtores agrícolas para a nossa rede, investindo na aprendizagem, assistência técnica, ajudando com microcrédito e financiamentos para expandir o marketplace no ano que vem”.
Segundo ela, o foco da MMM são as grandes e médias redes de varejo que hoje se abastecem nas Ceasas (centrais de abastecimento). “Da forma como o segmento está crescendo, é possível que as Ceasas nem precisem existir mais daqui um tempo”, arriscou dizer.