Mercado agropecuário acelera transformação no comércio eletrônico

Renato Seraphim destaca as agtechs que, na sua visão, têm grandes chances de despontar no ano que se inicia

Março 2, 2022

Por Renato Seraphim

A produção de alimentos e o agronegócio formam uma indústria global de mais de US$ 5 trilhões e, à medida em que a demanda por comida no mundo aumenta, o investimento no setor cresce. Em meio a tantas oportunidades, a  inovação, por meio da tecnologia e da digitalização, tem sido vista como uma absoluta necessidade. 

Nesse cenário, os fornecedores de produtos do agro estão buscando a distribuição e o acesso facilitado à cadeia de suprimentos. Os clientes pedem maior rastreabilidade e transparência de preços. E novas plataformas digitais surgem todos os dias para atender a essa necessidade do mercado.

De acordo com o Agri-FoodTech Funding Report 2019 do AgFunder, US$ 786 milhões em financiamento – ou 4% do investimento total no espaço de ag&foodtech, foram aportados em marketplaces de insumos em 2010, isso em 104 negócios. Já o Agri-FoodTech Funding Report 2021 mostrou um salto nos investimentos para US$ 1,1 bilhão, mantidos os 4% ante o total. Ao todo, foram 89 deals no período, o que demonstra a maior robustez das rodadas. 

Quem está desenvolvendo esse mercado? 

Dois grandes perfis organizacionais se destacam quando analisamos os protagonistas no mercado de plataformas de comércio eletrônico, de acordo com artigo da especialista em estratégias digitais e vendas June Boo

Em primeiro lugar, o destaque vai para as startups, baseadas principalmente em mercados emergentes, que buscam revolucionar o setor no contexto da transformação digital. Seu objetivo é melhorar e agilizar os processos de aquisição de produtos, fornecer maior transparência de preços e permitir a rastreabilidade por meio da tecnologia blockchain, entre outras. Em segundo lugar, estão as grandes multinacionais, como Cargill, Bunge, US Foods e Nestlé.

Desde o início de 2010, vários players estrearam suas plataformas online em todo o mundo e as startups arrebataram os maiores investimentos. A finlandesa Agroy foi uma das pioneiras, tendo sido lançada em 2011 pelo empreendedor Jukka Peuranpää. Depois vieram nomes como a Agriconomie, fundada em 2014 na França, e a Agrellus, em 2015, nos EUA. Também nos EUA, a CommoditAg nasceu em 2017 e foi adquirida, na metade de 2021, pela Farmers Edge. O sonho compartilhado por elas? Basicamente, se tornar a Amazon dos insumos agrícolas. 

No Reino Unido, a Yagro começou como um mercado online para conectar agricultores e fornecedores, realizar pedidos digitalmente e facilitar cotações até que deu um novo passo. Hoje, é mais uma empresa de dados e Analytics do que um marketplace de venda de insumos. Entre seus carros-chefe está uma inteligência de comparação do benchmark de produtores, além de um comparador de preços de produtos de agroquímicos. A Yagro também trabalha com a comercialização de seguro agrícola. 

Para além dos insumos agrícolas, muitos outros mercados têm sido explorados, como por exemplo: 

  • Plataformas de negociação para facilitar a venda, arrendamento e/ou aluguel de máquinas e equipamentos agrícolas, como a Agrishare e Alluagro
  • Redes de agricultores que fornecem seus produtos diretamente para o varejo/restaurantes/hospitais/consumidores, como a Sumá e Rural Direto
  • Plataforma de vendas de distribuidores para distribuidores, como a AgriAcordo
  • Plataformas com foco em agricultura regenerativa e consulta agronômica, como a IZAgro
  • Plataformas com foco no agrônomo e em franquias digitais, como a For Farmer
  • Marketplace para venda de seguro agrícola e/ou financiamento de compras, como a Agristamp e Agritask
  • Plataformas de crowdfunding e financiamento para agricultores, como a Blox
Tendência de crescimento: o case da Insumo Agrícola

Não há dúvida que os marketplaces continuarão a crescer como canal de venda de produtos e serviços em vários estágios da cadeia de valor do setor agropecuário. E mesmo players que entraram mais tarde no mercado estão tendo sucesso. Um caso interessante é o do marketplace Insumo Agrícola

Lançado em 2020, ele cumpre um requisito que considero muito importante nesse mercado: ser abrangente e com proposta de valor clara. O objetivo da plataforma Insumo Agrícola é oferecer as melhores oportunidades para compra de insumos pelo produtor. Como faz isso? Com o envio de vários orçamentos de distribuidores de diferentes regiões a partir de uma única solicitação.

Fluxo de compra e venda na plataforma Insumo Agrícola

O cadastro e a navegação muito simples também são pontos altos da plataforma, o que tende a atrair uma gama maior de produtores, revendas e cooperativas. Com poucos cliques e apenas algumas informações, o usuário tem acesso a todo o ambiente de negócios e também pode tirar suas dúvidas com um atendente virtual.

Os produtores se cadastram, montam a lista de insumos dos quais precisam (com informações básicas do produto, como quantidade, tipo de embalagem) e publicam o pedido. O revendedor, por sua vez, recebe uma notificação e tem acesso à solicitação de forma resumida (com o nome do produto e localização aproximada do potencial cliente). Caso o distribuidor tenha interesse em entrar em contato com o produtor, usa uma moeda disponível na plataforma para desbloquear o contato e negociar diretamente a venda. 

Em 2021, o Volume Bruto de Mercadorias transacionado pelo marketplace (GMV, na sigla em inglês) foi de aproximadamente R$ 39 milhões, com um tíquete médio de R$ 110 mil. A Insumo Agrícola está passando de 1,3 mil produtores cadastrados. 

No final de 2021, diante da crise no abastecimento de insumos no Brasil, a startup lançou uma nova área: de conexão de revendedores a fornecedores de adubos. Para esse nicho, a Insumo Agrícola oferece também serviço logístico e de crédito por meio de parcerias. Ao todo, a empresa tem 5 parceiros na área de fretes, 2 de crédito e 1 de cursos no agronegócio. No ecossistema de inovação, seu hub parceiro é o AgTech Garage.

A operação na plataforma, nesse caso, também é simples. A revenda ou cooperativa faz seu pedido e a startup define qual dos fabricantes é o mais indicado para atender à demanda. Os critérios de escolha são: volume, localização e forma de pagamento. A oferta enviada ao distribuidor já vem pronta, com o preço do produto, frete e o crédito embutido. 

Em termos de métricas deste serviço para revendas e fabricantes, em apenas dois meses, a Insumo Agrícola registrou 500 interessados em negociar um montante equivalente a quase R$ 30 milhões (GMV). Como o pedido mínimo é de 30 toneladas para a categoria, o tíquete médio ficou na casa de R$ 440 mil.

Para o produtor rural, as principais vantagens da Insumo Agrícola são:

  • Planejar a compra de seus insumos com rapidez e segurança;
  • Poder enviar uma única solicitação de cotação do produto que deseja e receber vários orçamentos de fornecedores de diferentes regiões;
  • Encontrar os produtos em uma única plataforma;
  • Acessar o comparador de preços sem burocracia;
  • Escolher o frete e prazo de entrega mais ajustados para a fazenda;
  • Fazer o controle dos custos de produção. 

Para o fornecedor:

  • Ampliar a base de clientes;
  • Diminuir  os custos de vendas, marketing, distribuição e logística;
  • Acessar leads qualificados;
  • Escolher quais ofertas quer atender;
  • Reduzir custos operacionais.

Para o fabricante: 

  • Ampliar as vendas;
  • Ter acesso a mercados fora do Brasil (Paraguai, Venezuela, Colômbia);
  • Contar com representantes de campo comissionados pela Insumo Agrícola;
  • Atrair grupos de compra 
  • Acessar suas negociações em tempo real. 

Para os compradores o serviço é totalmente gratuito e para os fornecedores cobra-se uma taxa de comissão que é muito mais baixa quando comparada aos métodos convencionais de venda.

O portfólio da plataforma é completo e vai da venda de insumos agrícolas, passando por medicamentos veterinários, maquinários, estruturas de silos, EPIs a serviços. O carro-chefe, contudo, são os fertilizantes. 

A Insumo Agrícola também tem alguns desafios, é verdade. Como o de não ser uma plataforma transacional. Mas, no caso dos marketplaces do agro, hoje, a oferta de soluções financeiras e de logística tem sido atendida por parceiros, opção escolhida pela empresa.  

No Brasil, temos 1 milhão de agricultores e pecuaristas que perfazem 95% do mercado e não é tão difícil chegar até eles. O desafio maior, eu diria, é se fazer presente entre eles, conhecer bem os seus hábitos e preferências, para ajudá-los nos desafios diários. 

As plataformas digitais precisam investir, cada vez mais, em personalização das ofertas e em processos de compra sem interrupções. Lá na frente, vejo que esses serão os diferenciais para atrair novos clientes, além de mantê-los fiéis.

Renato Seraphim, 50 anos, é engenheiro agrônomo graduado pela Unesp de Jaboticabal (SP) e pós graduado em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

No agronegócio, fez especializações junto ao Programa de Estudos dos Sistemas Agroindustriais (Pensa-USP), à Fundação Dom Cabral (FDC), Insead Business School e Perdue University. Com 25 anos de experiência no setor, tem passagem por empresas de defensivos agrícolas e biotecnologia.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão do Agtech Innovation News.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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