Março 24, 2022
Por Mauricio Moraes e Fabio Pereira
O agronegócio vem aumentando ano a ano sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, representando mais de um quarto da economia do país, segundo projeções da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP) para o ano de 2021.
O setor gera riquezas e atrai investimentos em todas as cadeias de valor, principalmente em inovação e tecnologia. O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VPB) está estimado em R$ 1,204 trilhão, com base nas informações de janeiro, o que representa um valor 4,3% maior em relação ao ano passado (R$ 1,154 trilhão).
Esse cenário justifica a expectativa de 77% dos CEOs de empresas do agronegócio de que o crescimento da economia global deve se acelerar em 2022 e de 57% que têm o mesmo otimismo em relação à economia brasileira, conforme resultados da 25ª CEO Survey* da PwC, publicada em janeiro de 2022.
Além disso, 74% dos executivos do setor demonstram confiança no crescimento da receita de suas empresas nos próximos 12 meses. Para o horizonte de 3 anos, o percentual aumenta para 80%. Esse otimismo pode ser explicado pelos resultados que o agronegócio vem obtendo nos últimos anos, reforçando a vantagem competitiva do Brasil e sua importância como fornecedor global de produtos agropecuários e alimentos.
Parte dessa confiança dos CEOs do agronegócio se deve a uma expectativa positiva em relação ao mercado externo. Os Estados Unidos e a China são os mercados mais relevantes para, respectivamente, 63% e 60% dos respondentes, com percentuais mais elevados do que a média brasileira, que foi de 50% para Estados Unidos e 34% para China.
Isso reflete o peso dos principais países clientes das empresas brasileiras no mercado internacional, um diferencial quando se trata de companhias ligadas às cadeias de valor do agronegócio, pois ambos são importantes tanto como mercados compradores dos produtos agropecuários brasileiros quanto como exportadores de matérias-primas e insumos para a produção agropecuária.
Maiores ameaças ao crescimento
A pesquisa também abordou os principais riscos para os negócios na visão dos executivos. Em nível global, a principal ameaça para os CEOs de todos os setores são os riscos cibernéticos (49%), enquanto os brasileiros estão mais preocupados com a instabilidade macroeconômica (69%).
No agronegócio brasileiro especificamente, a principal ameaça é a instabilidade macroeconômica (57%), seguida pelas mudanças climáticas (50%), que apresentam no setor resultado bem acima do registrado entre os CEOs globais ou brasileiros de todos os segmentos. Isso se deve, em grande parte, ao fato de a agropecuária ser um dos segmentos mais vulneráveis à questões de clima e temperatura. Riscos cibernéticos vêm em terceiro lugar na lista de preocupações dos CEOs do agronegócio, com 27% de menções.
Com o clima sendo uma das principais ameaças ao desenvolvimento do agronegócio, o setor demonstra estar mais adiantado que outros em sua jornada de descarbonização. Enquanto 22% das empresas globais e 27% das empresas brasileiras dizem já ter assumido compromisso Net Zero, no agronegócio esse porcentual chega a 37%. Os resultados são ainda melhores para compromissos assumidos de neutralização de carbono: eles são realidade para 47% das empresas do agronegócio, em comparação com 31% das empresas brasileiras e 26% das globais.
Sobre o conceito da neutralidade de carbono, esse compromisso é alcançado quando nenhum equivalente de dióxido de carbono é adicionado à atmosfera por uma organização, empresa ou país. Isso pode envolver a eliminação de emissões, a compensação delas ou uma combinação de ambas. No conceito Net Zero, isso significa não adicionar novas emissões à atmosfera, segundo a Organização das Nações Unidas. No entanto, alcançar o status Net Zero é bem mais complexo, pois envolve também a eliminação das emissões indiretas geradas por toda a cadeia de valor, incluindo fornecedores e clientes.
Os resultados da CEO Survey mostram que os líderes do agronegócio brasileiro entendem as consequências das mudanças climáticas e seus impactos e estão cientes das suas responsabilidades ao assumirem compromissos de descarbonização. Eles incorporam os critérios de sustentabilidade em suas estratégias e confiam que o Brasil seguirá como fornecedor sustentável de produtos agropecuários e alimentos para o mundo.
O agronegócio, tanto no Brasil quanto no mundo, já compreendeu a necessidade de investir em práticas ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) para garantir novos negócios e preservar sua reputação internacional.
O progresso em relação aos problemas mais desafiadores da sociedade exigirá atitudes ousadas dos líderes e suas organizações. A pesquisa ressalta as pressões crescentes do mercado: embora os imperativos financeiros continuem críticos, as demandas sociais, ambientais e de governança requerem cada vez mais atenção. Nesse contexto, algumas prioridades podem ajudar os CEOs a gerar resultados mais sustentáveis.
É importante que conselhos, CEOs e os principais executivos da companhia tenham uma conversa franca para se alinhar em relação às transformações associadas a esse novo mercado. Novas habilidades de desenvolvimento de capacitações serão necessárias para lidar com as incertezas do mercado e o uso de tecnologias para gerenciamento da descarbonização e dos riscos das mudanças climáticas.
O processo de sucessão precisará ser reavaliado, novas lideranças deverão fazer parte dos conselhos para compreender os desafios atuais e incorporar diferentes conjuntos de competências e ampliar a diversidade. Os incentivos precisam ser reformulados, pois os indicadores não financeiros devem ser analisados em relação às prioridades e estratégias. E para enfrentar os desafios mais urgentes da sociedade, será preciso repensar a colaboração, promovendo a interação entre empresas, startups, academia, autoridades públicas, líderes setoriais e investidores, como em um ecossistema de inovação aberta.
*Metodologia: A PwC ouviu mais de 4.400 executivos, em 89 países, com uma participação expressiva de líderes do Brasil. Nem todos os números somam 100% devido ao arredondamento das porcentagens e à exclusão de respostas do tipo “nem/nem” e “não sei”.
Mauricio Moraes - Sócio e líder de Agribusiness da PwC Brasil
Fabio Pereira - Gerente sênior e especialista em Agribusiness da PwC Brasil