Novembro 1, 2022
Por Rafael Ricarte
Comecei minha carreira do jeito que começam a maioria dos profissionais de inovação, cursando uma graduação na universidade e aprendendo novas habilidades ao longo da vida. No meu caso, estudei Administração de Empresas na faculdade, Economia no MBA e Transformação Digital, Novas Tecnologias e Agilidade na pós-graduação, além de fazer diversos cursos executivos e de inovação que me ajudaram na formação.
Há 15 anos, trabalho na Mercer Brasil - líder mundial em serviços profissionais nas áreas de risco, estratégia e pessoas - onde desenvolvi uma trajetória de especialista na área de recursos humanos. Há quase quatro anos, passei a atuar como Diretor de Produtos e Inovação da área de Carreira da companhia e a jornada tem sido de muito aprendizado e diversão. Como fica claro pela minha própria história, diferente de carreiras e funções clássicas, não tem receita de bolo para se tornar um profissional de inovação. Entretanto, algumas habilidades ajudam no caminho e estão sendo cada vez mais buscadas pelas empresas ao redor do mundo.
Quando parei para criar esse conteúdo (originalmente uma apresentação do Conexão Partners do AgTech Garage), pensei: Se o profissional de inovação fosse o personagem Inspetor Bugiganga ou o Gato Félix, quais ferramentas ele precisaria ter na manga para ser bem-sucedido nas mais variadas situações dentro das empresas? Depois de consultar várias pesquisas da Mercer e do mercado, além de outros colegas que ocupam cadeiras de inovação e de recursos humanos, cheguei a uma lista com 8 habilidades fundamentais.
Promover a inovação de forma sustentada, contínua e relevante exige criatividade, conhecimento, confiança, recursos narrativos, resiliência, autonomia, capacidade de cooperação e de gestão de pessoas. Vamos passar agora por cada uma dessas habilidades, e explico porque acredito que sejam essenciais:
1) Mente faminta
Em uma grande corporação ou startup, quem trabalha com inovação tem que ter a comichão de buscar novidades em todo lugar e a todo momento, estar antenado a tudo que acontece e ser capaz de estabelecer correlações inusitadas, daí a “mente faminta”.
Um exemplo que pode servir de inspiração é o do cientista, pintor, inventor e anatomista Leonardo Da Vinci. No dia a dia, ele fazia coisas tão diversas e curiosas como calcular as medidas de Milão, entender como pendurar um baluarte ou aprender a consertar uma eclusa. Ele foi um gênio e grande inovador no seu tempo e já naquela época buscava aprender em meio à rotina e com quem estava ao seu redor.
Da Vinci deixa uma lição para os gestores de inovação: ser curioso e aprender a aprender rápido. Hoje, não dá mais para fazer cursos de dois a quatro anos e ficar esperando um diploma ou certificado para dizer que entende de determinado assunto. Precisamos, sim, aprender com todas as pessoas e situações e a todo momento. Tudo é razão e motivo para descobrir algo novo.
A curiosidade é, nada mais nada menos, que o desejo genuíno de aprender e construir sua visão de mundo. Ela ajuda os profissionais de inovação a fazerem perguntas mais ousadas e, com esse tipo de pergunta, mobilizar outros pares e pessoas a seu redor a ver novos caminhos e se sentirem instigados a otimizar processos e transformar o mundo.
2) Tudologia (do bem)
O tudólogo é aquela pessoa que entende de tudo um pouco e acaba tendo sempre uma história para contar e uma opinião, quando não agrega ao menos um ponto de vista ou aquele comentário cirúrgico que o interlocutor precisava ouvir. Não estou falando de pessoas arrogantes, longe disso. O olhar diverso e abrangente tem que vir casado com humildade e empatia, e a ideia que está por trás é que a gente saiba de tudo um pouco, além de ser capaz de interpretar por si só os estímulos que recebemos a todo momento.
Conhecer os negócios da companhia, mas também de geografia, política, lazer, tecnologia. Investir na leitura de livros e notícias, em ouvir podcasts, não só de temas de interesse ou nos quais está inserido, acompanhar pesquisas acadêmicas e, acima de tudo, formar times diversos, ajuda muito qualquer profissional de inovação.
Já ouviram falar na heurística? Essa palavra, derivada de “eureka” (que quer dizer “descobri”), fala sobre a arte ou ciência de encontrar respostas adequadas, ainda que imperfeitas, para questões complexas. Um desafio no dia a dia do profissional de inovação. Daí a importância de ter times multidisciplinares na área, para quando esse atalho mental surgir, a resposta ser a melhor possível dentro de um universo de escolhas variadas.
3) Rebeldia
Quem trabalha com inovação deve ainda ser rebelde. Em outras palavras, ter coragem e ousadia para, com gentileza e respeito, desafiar o status quo. Às vezes nossa mente nos trai nessa missão, por receio de levantar uma ideia desconcertante e abalar as estruturas. Contudo, provocações são esperadas da área de inovação e quando você provoca alguém está, justamente, fazendo seu trabalho. Como seres humanos, somos muito bons em imaginar situações, e inclusive o pior. Nessas horas, criamos problemas que só existem na nossa cabeça. Então, não, você não vai perder o emprego por qualquer objeção à diretoria ou a qualquer instituição superior do ponto de vista hierárquico ou de poder. E, sim, com respeito e empatia, devemos ser rebeldes.
4) Storytelling
Os profissionais e times de inovação são excelentes em criar novidades, projetos, experimentos. O próximo passo é desenvolver a habilidade de vender as boas ideias e fazer os outros as “comprarem”. Então, vale pensar várias vezes sobre: como apresentar um projeto, qual formato, ferramentas, mídias, mensagem, interlocutor, enredo, contexto, ou seja, todo o aparato de comunicação. A construção de uma história interessante se vale de elementos de influência e persuasão. E não à toa uma boa história é capaz de mover montanhas, trazer pessoas para perto e convencer sobre o potencial do desconhecido. Estudar técnicas discursivas, beber de fontes do marketing e conhecer novos formatos é crucial para se tornar um storyteller da fronteira da inovação.
5) Espírito highlander
O profissional de inovação tende a ser um tanto Highlander, lembrando o guerreiro imortal, perseverante e resiliente. Essa característica é importante porque, não sendo nada romântico, quero lembrar que projetos de inovação tendem a ser rechaçados em companhias que ainda não vivenciam a ambidestria de fato. Isto é, que continuam fazendo bem o que sempre fizeram, mas que também olham para novos horizontes de inovação. Cada vez que uma ideia cai por terra ou que um orçamento é cortado, o líder de inovação precisa se manter de pé, assim como seu time, formal ou informal. A resiliência, persistência e insistência fazem parte das habilidades a serem desenvolvidas na carreira, e que são demandadas pela alta gestão das empresas.
6) Autonomia
Estamos saindo de cadeias de comando e controle e indo para a gestão mais descentralizada nas grandes empresas, o que é muito positivo para inovar. A autonomia é peça chave para quem trabalha com inovação, principalmente quando as companhias têm uma cultura mais madura e permitem a condução de experimentos e projetos de forma mais livre.
A habilidade de tomar decisões rápidas e alinhadas com o “sonho grande” da empresa podem resultar em muitas conquistas quando se tem autonomia. O profissional de inovação não gosta de micro gerenciamento, tem pavor de check list. Ao invés disso, trabalha muito melhor quando recebe uma folha em branco e também quando tem liberdade para amassar a folha e começar tudo de novo.
Para os líderes de inovação, fica o lembrete de que as equipes querem sim um norte, um caminho, mas precisam sentir que há espaço para deixar acontecer.
7) Cooperação
Todo mundo fala de cooperação quando fala de inovação. É unânime e não tem como ser diferente! Saber cooperar é fundamental para qualquer profissional que quer ter sucesso hoje e no futuro. A inovação, em si, só vinga dentro das empresas se tiver apoio da liderança e das áreas envolvidas, tanto na condução dos projetos quanto na implantação das ideias. Daí a cooperação ser fundamental e a comunicação também.
Não dá mais para conviver com os silos internos nas empresas, em que as áreas não se comunicam, não colaboram e não interagem para identificar os gargalos e resolver as fricções. Poder contar com a cooperação dos diferentes stakeholders é o primeiro passo para inovar, seja de forma incremental ou disruptiva.
8) Gestão de pessoas
“Se você não entende de pessoas, não entende de negócios”, disse certa vez Simon Sinek, autor americano sobre temas de liderança, e é a mais pura verdade. Eu, pessoalmente, acredito que o maior legado de um profissional de liderança, de inovação ou não, são as pessoas que ele forma.
A área de recursos humanos (RH) dá método, ferramentas, processos, tecnologia, mas são os líderes que têm que cuidar da experiência dos profissionais dentro das empresas e das equipes. Claro que tem gente que não gosta de lidar com pessoas, mas aí é opção, porque a habilidade de gerir pode ser aprendida por todos nós.
No caso da inovação, fazer a gestão de pessoas é primordial por vários motivos, vou listar alguns: inovar passa por mudar mindset, mudar comportamentos, processos, cultura. Ou seja, tudo a ver com gente. Embora eu recomende que todos, a despeito da área de atuação, estudem o tema em algum momento da carreira, os profissionais de inovação têm uma responsabilidade adicional nesse quesito de gerir pessoas porque o dia a dia engole a gente, mas não pode engolir a área de inovação. Caso contrário, a sobrevivência das empresas ficará comprometida.
Rafael Ricarte é o atual Diretor de Produtos e Inovação da área de Carreira da Mercer Brasil, conduzindo o time responsável pelo desenvolvimento, inovação, gestão e comercialização de um amplo portfólio de soluções digitais, plataformas, pesquisas e benchmarks de RH em geral.
Exerce papel relevante em Inovação e Digitalização do RH, participando ativamente de comunidades como a do AgTech Garage, Inovabra, Urano e Amcham, como mentor de startups, agente e influenciador da inovação e disrupção no RH.
É graduado em Administração de empresas pelo Mackenzie, possui MBA em Economia pela FGV e pós-graduação em Transformação Digital, Novas Tecnologias e Agilidade pela FIA, além de cursos Executivos e de Inovação complementares. É também professor da PUC-MG.
Pai do Benjamin e da Olívia, é marido da Andrea e apaixonado por leitura, filosofia e esportes. Inconformado por natureza, é apaixonado por problemas, quase nunca aceita um não, adora fazer perguntas e odeia zonas de conforto.