Março 9, 2022
Por Marcelo Carvalho
Você quer ser dono do seu negócio. Não ter mais para quem prestar contas, definir os seus horários, fazer apenas o que gosta e ser responsável direto pelos resultados (e, por que não, colhê-los!): é, sem dúvida, uma visão muito atrativa para todos aqueles que pensam em empreender algum dia. Ou, ainda, você quer criar uma organização de sucesso, talvez se tornar um unicórnio e ficar rico.
Para começar, quase nada daquilo escrito no parágrafo anterior realmente deve representar a verdadeira motivação para alguém que quer começar um negócio. Até porque não faz parte da realidade da grande maioria dos empreendedores. Se o seu objetivo for não ter para quem prestar contas, não ter horário e fazer apenas o que gosta, talvez você tenha uma noção muito distorcida do que é empreender e provavelmente você deverá rever seus conceitos (e tudo bem!). Já o desejo de ter sucesso e criar uma organização que valha muitos milhões ou até bilhões pode ser sim saudável – mas obviamente não é fácil.
Porque, afinal, alguém deseja empreender? Quais os traços e comportamentos que podem ajudar o candidato a empreendedor em sua jornada?
Esse texto visa traçar, na minha visão e experiência de quase 30 anos a partir da minha trajetória como fundador da AgriPoint e co-fundador do AgTech Garage (e também observando outros empreendedores), o que considero as características essenciais para os empreendedores.
É a minha forma de ver esse tema hoje, o que não quer dizer que não possa mudar à medida que vou aprendendo mais. Afinal, “humanity is a work in progress”, como escreveu o dramaturgo norte-americano Tennessee Williams. Também, cada um tem a sua visão sobre o tema. Considere esta apenas mais uma delas.
Vamos lá, começando do início. A verdadeira motivação do empreendedor é fazer a diferença de uma maneira própria. Antes da liberdade, da fama, do dinheiro. Ele(a) quer que o seu mundo seja dividido entre antes dele e depois dele(a). Ele(a) quer ter as grandes ideias e colocá-las em prática. Sim, grandes ideias que se não viram realidade não fazem um empreendedor. Serão apenas...ideias. Empreender significa ter capacidade de realizar.
O empreendedor tem a necessidade de empreender, e não empreender por necessidade. O empreendedor quer ter autonomia, dentro do limite que o conceito permite: ele nunca terá autonomia plena, vai sempre prestar contas ao mercado, equipe, investidores, família... mas pelo menos terá autonomia nas ideias e nas grandes decisões do que fazer ou não fazer.
O empreendedor pensa no seu negócio o tempo todo. Uma vez, assisti a uma palestra do Nizan Guanaes que disse que trabalhava 24 horas por dia. É mais ou menos isso, o que não quer dizer evidentemente que o empreendedor trabalha 24 horas por dia, mas sim que suas antenas estão ligadas 24 horas por dia!
Ele pode assistir a um filme e nesse momento ter uma ideia importante para o seu negócio; ele pode estar caminhando com a família e ter um clique que não tinha tido antes. E ele não acha isso ruim, nem se sente explorado (por ele mesmo), nem escravo do seu trabalho. Isso faz parte do seu jeito de ser e do seu modus operandi. Ele(a) não sai do escritório e simplesmente desliga a chavinha.
O empreendedor normalmente tem uma insatisfação crônica. Ele nunca acha que está bom o suficiente (talvez atingir esse estágio seja um sinal de maturidade...). Ele sempre quer mais, não no sentido financeiro, mas de realização. Ele é um eterno radar de captação de oportunidades, o que, dependendo do momento, pode atrapalhar, já que o foco pode ficar prejudicado.
O empreendedor é, acima de tudo, um otimista, beirando até a insensatez em alguns casos. Sem uma boa dose de “loucura saudável” e mesmo autoengano, é muito difícil fazer um negócio decolar! Convencer pessoas boas a trabalhar na sua ideia, obter capital e colocar sua ideia no mercado exige muito otimismo. Nunca conheci um empreendedor de sucesso que não acreditasse no seu negócio, mesmo diante dos desafios. Muitas vezes é justamente o contrário: o empreendedor é motivado pelo desafio, porque assim ele é verdadeiramente testado.
Certa vez, quando minha primeira empresa estava no início, eu não tinha capital, clientes e nem equipe, eu listei tudo aquilo que eu precisava fazer para que o negócio crescesse (ou melhor, não morresse). Isso incluía funções operacionais, visão estratégica, comercial, marketing... ao terminar a lista, eram cerca de 40 itens. Eu olhei para aquilo ali e meu lado racional pensou: “é impossível! Feche a empresa e vá procurar trabalho...”. Mas meu lado empreendedor rebateu: “feche essa lista e vá trabalhar...”.
Ray Dalio, no grande livro “Princípios”, vai além, identificando aquelas pessoas que considera “formatadores”: “pessoas que surgem com visões únicas e valiosas, que as constroem de maneira maravilhosa e que geralmente vencem as dúvidas e a oposição dos outros. São as pessoas que promovem a mudança e criam organizações duradouras”. Jobs, Freud, Einstein, Darwin... e também pessoas que têm esse perfil no seu círculo de conhecidos, ainda que sua capacidade de influência seja mais local do que global.
Claro que é preciso em algum momento ser realista, se curvar aos fatos e números, e tomar decisões que nem sempre são aquelas que você gostaria. Afinal, se você estiver em um buraco, a primeira decisão é parar de cavar. Mas muitas vezes essa não é a realidade; o que há pela frente é “apenas” um enorme desafio, e você se sente apto e com energia para enfrentá-lo.
Energia. Essa é outra característica que considero fundamental em um empreendedor. Não conheço nenhum que seja “pilha fraca”, até porque os desafios e a carga de trabalho são significativos. A energia precisa aparecer não só nos melhores momentos (aí é fácil), mas justamente quando os reveses acontecem.
Em várias situações, diante de um problema grande, daqueles que nos abatem e nos tiram do rumo, o empreendedor consegue tirar uma motivação extra para buscar uma solução. De certa forma, se sente testado nas tempestades.
Ouso dizer que empreender, no final das contas, é topar a briga e até “curtir” os obstáculos (depois que passam). É como andar de bicicleta (meu hobby adquirido na pandemia): é melhor você aprender a gostar das subidas, porque você passará muito mais tempo subindo do que descendo.
Talvez seja a tal resiliência que a turma fala hoje. Outro dia, conversando com um empreendedor cuja startup estava passando por dificuldades, ele me disse: “é estranho, mas estou mais animado e energizado como nunca”. É por aí.
O empreendedor quer ficar rico? Ambição é uma motivação forte e uma característica do empreendedor? Vejo a realização financeira como (parte da) medida do acerto da trajetória, não como ponto final ou objetivo.
Diria que faz parte do contexto: se vou correr o risco, fazer a diferença, quero sim ter a recompensa. E, certamente, pensaria muito antes de empreender caso não conseguisse viver da maneira como quero em termos financeiros. Mas não faço o que faço tendo o dinheiro como meta. Há uma grande diferença, inclusive determinando o que estou ou não estou disposto a fazer na empresa em função de retornos financeiros de curto e longo prazo.
E acho que a maioria dos empreendedores também pensa assim. Como me disse uma vez um empresário, o dinheiro é uma espécie de placar do jogo: você não jogará bem se ficar toda hora olhando para ele. Mas, por outro lado, se no final do jogo o placar for negativo, você perdeu a partida e precisa repensar sua atuação. Acho essa analogia muito boa. Talvez a mesma analogia valha para reconhecimento, dependendo do perfil de cada um.
Há, ainda, outros perfis de empreendedores para os quais essa análise pode ser diferente. Empreendedores sociais, por exemplo, não deixam de ser empreendedores, ainda que a motivação financeira tenha uma pontuação bem baixa, e não há nada de errado com isso.
Há ainda outras características que fazem um bom empreendedor, que explorarei na parte II deste texto. Aguarde as cenas dos próximos capítulos na minha coluna no AgTech Garage News.
Marcelo Carvalho é engenheiro agrônomo, formado pela Esalq-USP, tem mestrado em Ciência Animal e Pastagens pela mesma universidade e MBA Executivo Internacional pela Fundação Instituto de Administração (FIA).
Hoje, atua como CEO da AgriPoint, responsável pela plataforma MilkPoint; pelos eventos Interleite Brasil, Interleite Sul e Dairy Vision; e pelo EducaPoint, plataforma de treinamento online para profissionais do agronegócio.
Marcelo também é co-fundador do AgTech Garage, ao lado de José Tomé e Adriana Lúcia da Silva.