O que podemos falar sobre o perfil empreendedor? – parte II

Além de querer mudar o mundo, ser um eterno insatisfeito e ter muita energia e ambição, o empreendedor ainda precisa acumular algumas habilidades-chave

Abril 6, 2022

Por Marcelo Carvalho

No texto anterior, comecei a falar sobre o perfil do empreendedor, na minha visão e experiência e observando outros empreendedores. Meu objetivo é que tenha sido uma leitura interessante para empreendedores e para candidatos a empreendedores. 

Mencionei algumas características que considero importantes em um empreendedor: querer realmente fazer a diferença, pensar no negócio o tempo todo, acreditar mais do que qualquer outro que é possível realizar e ter alta energia, mesmo – e principalmente – nos momentos ruins.

Mas há mais aspectos que podem e devem fazer parte do perfil de um empreendedor! Vamos a eles:

Vendedor

O empreendedor é, acima de tudo, um vendedor. Ele, mais do que nunca, precisa vender sua ideia para um monte de gente. Cada um tem um jeito de fazer isso, mas seja lá que jeito for, precisa ser efetivo. Sem vender a ideia para a equipe, investidores e clientes, não conheço sequer um empreendedor que avançou. 

Não basta ter uma boa ideia ou expertise em determinada área se você não conseguir vender o peixe para quem precisa comprá-lo. Pode-se chamar isso de carisma, talvez. O empreendedor consegue criar uma visão de futuro, transmiti-la a outras pessoas e, principalmente, engajá-las com seu sonho. Nesse sentido, muitos grandes empreendedores são grandes comunicadores.

Comunicativo

Aqui vai uma característica aparentemente contraditória em relação ao que escrevi até agora (aliás, eu acho que as pessoas de maior sucesso têm uma certa ambiguidade, até porque quase nada na vida é preto no branco, não é?). Apesar de acreditar demais em si e no projeto, o bom empreendedor sabe ouvir e aprender, ajustando sua visão se necessário. É preciso ser poroso o suficiente para aprender, seja com o mercado ou com o estagiário que acabou de entrar e te falou algo que você não sabia. 

Eu logo detecto o empreendedor que não está interessado em aprender, mas sim em impor a sua visão. O objetivo não é validar se está certo, mas sim provar que está. Essa arrogância, se não resolvida, vai inviabilizar o sucesso, porque é quase impossível criar algo sem o input crítico de outras pessoas que têm credibilidade. Hoje, ao ter uma ideia que considero potencialmente boa, a primeira coisa que faço é submetê-la a outras pessoas para fazer um “reality check”.   

Dentro disso, o empreendedor precisa ter a flexibilidade de mudar de rota quando necessário. Ele não tem a quem enganar se as coisas não vão bem. Ele precisa encarar a realidade, fazer constantemente um “reality check”. 

Olha a ambiguidade de novo: no texto anterior, falei que o empreendedor precisa acreditar tanto no seu negócio, a ponto de se colocar quase “fora da realidade”. Pois é... mas o empreendedor que não muda diante das evidências vai ter uma vida muito mais difícil. Resumindo, é preciso ser ao mesmo tempo confiante e humilde. A dose de cada um vai depender do momento.

Generalista

O empreendedor precisa de relacionamentos. Ele definitivamente não fará nada sozinho. Se ninguém acreditar no seu sonho, ele não irá a lugar nenhum. Talvez um dos maiores ativos que alguém (não só empreendedores) possa ter seja sua rede de relacionamentos. Pessoas com quem conviveu ao longo da trajetória e que irão ajudá-lo, por acreditar em você e no seu negócio. Mas é preciso cultivar relacionamentos genuínos, pessoas que você admira e que te admiram.  

O empreendedor precisa entender que será, à medida que a empresa cresce, um generalista. Ele irá lidar com muitas variáveis distintas e ao mesmo tempo. Um erro grave que um empreendedor comete é, por exemplo, quando diz “não gosto da parte comercial”, ou “esse negócio de lidar com gente não é a minha praia”.... 

Mesmo que você tenha suas preferências e zonas de conforto, saiba que você terá que lidar sim (pelo menos no início) com o comercial, com gente, com marketing, finanças, jurídico etc. Quer queira, quer não, você precisa ser pelo menos razoável em diversas áreas do negócio, caso contrário você não vai longe. Sim, você precisa fazer o que não gosta! O corolário disso é que dificilmente o empreendedor que tem uma empresa que cresce, será um especialista – ele contratará os especialistas.  

Esse é um aspecto importante quando se aborda áreas técnicas, como as relacionadas ao agro. A grande parte das ideias surge do conhecimento técnico do empreendedor e sua paixão pelo que sabe. Paixão excessiva pode cegar (“mas meu produto é tão bom!”), dificultando encontrar o product-market fit. Também, pode gerar a ilusão de que ser empreendedor é escalar uma solução. Não é: é criar uma empresa, com tudo de bom e ruim que tem nisso! 

Competitivo

Aqui outro ponto polêmico: acredito que o empreendedor tenha em geral instinto competitivo. Ele gosta do jogo. É fácil saber se você tem instinto competitivo: se qualquer coisa que você fizer, você tem a necessidade de fazer o melhor que pode, a competição faz parte do seu modo de ser (claro que há limites que definem o quanto desse instinto é saudável e o quanto é tóxico). 

Porque é importante ter instinto competitivo? Competir com você ou com os outros é, em última análise, gerenciar um conflito. E empreender é, acima de tudo, gerenciar conflitos. Não no sentido de briga, mas sim de que há interesses variados que precisam ser contemplados e que passam pela sua análise e pela sua decisão. Afinal, estamos em um ambiente competitivo.

Gestor de risco

Essa aqui é aparentemente fácil: o empreendedor precisa ter baixa aversão ao risco. Na realidade, o risco maior para ele é não empreender. Mas não se deve confundir baixa aversão ao risco com inconsequência (tudo tem limite). 

Eu me considero conservador: gosto de ter um caixa razoável na empresa. Isto significa que prefiro lidar com a potencial acomodação (que ter dinheiro em caixa pode gerar) do que com a angústia de estar sempre no fio da navalha. Há outros que lidam melhor com esse fio da navalha, sem dúvida.  

Mas a aversão ao risco não é somente em relação ao dinheiro, mas principalmente ao risco de colocar no mundo uma ideia e ela não ser aceita. Nesse ponto, acho que os empreendedores todos têm baixa aversão ao risco. Afinal, empreender significa dar vida a uma nova ideia na forma de um negócio.

Conhecedor de si mesmo

O empreendedor não precisa ser um super-homem (talvez um pouco, sim). Evidentemente ninguém vai ser nota 10 em tudo isso, ou quase ninguém. Há gradações e processos de desenvolvimento. Por isso, é fundamental também você se conhecer, entender onde você é bom e onde você não é. 

Autoconhecimento é essencial para qualquer candidato a empreendedor (para todos, na verdade). Concentre-se no seu melhor, mas trabalhe seus pontos fracos para que não limitem o desenvolvimento do negócio. E saiba trazer as pessoas que vão te complementar, seja como co-fundadores, seja como funcionários-chave. 

Por fim, alguém irá lembrar que muitas dessas características não devem ser exclusivas de empreendedores, mas sim de qualquer pessoa que queira obter resultados extraordinários em qualquer coisa que venha a fazer na vida. E é verdade, lembrando ainda que as empresas buscam cada vez mais empreendedores internos, gente que faz acontecer e que quer deixar sua marca no mundo. 

Talvez, porém, nos empreendedores essas características sejam mais intensas e necessárias para que possam dar vida a ideias novas e transformá-las em negócios que podem mudar o mundo.

Marcelo Carvalho é engenheiro agrônomo, formado pela Esalq-USP, tem mestrado em Ciência Animal e Pastagens pela mesma universidade e MBA Executivo Internacional pela Fundação Instituto de Administração (FIA). 

Hoje, atua como CEO da AgriPoint, responsável pela plataforma MilkPoint; pelos eventos Interleite Brasil, Interleite Sul e Dairy Vision; e pelo EducaPoint, plataforma de treinamento online para profissionais do agronegócio. 

Marcelo também é co-fundador do AgTech Garage, ao lado de José Tomé e Adriana Lúcia da Silva.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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