Novembro 18, 2022
Por Ivan André Alvarez
A restauração florestal no Brasil tem sido sempre considerada de alto potencial de demanda, mas de fato ainda falta ganhar escala. Conforme os relatórios do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), a meta é restaurar 12 milhões de hectares, além de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens até 2030, aliados à implantação de sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
A descarbonização do mundo passa necessariamente por reduzir emissões de gases de efeito estufa com inclusão social e práticas que aumentem a segurança alimentar. Estamos falando da adoção de novos manejos agropecuários mais sustentáveis e até da participação dos povos originários no processo. Porque, sem que haja um combate à pobreza, dificilmente o meio ambiente original florestal se recompõe.
Economia da floresta em pé. O que isso quer dizer? Quer dizer que se ganha mais com a manutenção da floresta do que com a sua retirada. A cadeia da restauração tem que ter permeabilidade na economia, gerando riquezas que sejam socializadas. Isto inclui o agente que colete a semente, o produtor de mudas, o sujeito que implanta a técnica de restauração e aqueles que se beneficiam das florestas em pé.
Para se ter uma economia de desmatamento zero, a pesquisa em meio ambiente é fundamental e trabalha para que se obtenham tecnologias aplicáveis que se utilizem dos meios digitais para gerar inovação e que levem em consideração a sócio-biodiversidade.
Assim, os estudos devem estar relacionados à forma com que se maneja os recursos naturais de modo a associá-los à influência sobre o clima. A restauração florestal em larga escala terá sucesso na sua implantação se sua cadeia de produção estiver atrelada a esse conceito.
Quando se foca na restauração florestal da propriedade rural, tanto do ponto de vista legal como para obtenção de novas fontes de recursos, o que se deve levar em conta é o modo de sua produção. Daí surgem os novos aliados da restauração em termos de inovação: a integração lavoura-pecuária-floresta, a agricultura de baixo carbono e a silvicultura de nativas com obtenção de ganhos na floresta em pé, aumentando a oferta dos produtos não-madeireiros.
O estudo das interações sociais dentro da propriedade agrícola ganha um grau de importância e as relações da população com a floresta em si auxiliam no estabelecimento de uma sócio-economia florestal. Esta deve vincular práticas agropecuárias à recuperação de áreas degradadas.
Nesse contexto, o jovem rural surge como um ator social relevante, ainda que seja muito estimulado a construir a carreira nas grandes metrópoles. A não ser no agronegócio de grande vulto de investimento, a agricultura familiar, em muitos casos, não se apresenta como um estímulo para o jovem permanecer no campo.
Somado a isso, mesmo que exista um movimento de “neorurais”, os chamados agricultores sem tradição na família, ele é muito incipiente para a busca de trabalho entre as novas gerações. Aqui vale citar, contudo, um movimento que ganhou corpo na pandemia, embora impacte um número restrito de pessoas, que é o daqueles que procuravam condições melhores de qualidade de vida na agroecologia.
O trabalho de restauração florestal abre uma gama de oportunidades para a nova geração no campo (Foto: Embrapa)
Com as novas possibilidades de recursos digitais e ensino a distância, a expectativa é que grandes caminhos se abram para que o jovem ocupe maior destaque no meio rural.
Políticas públicas que estimulem o jovem a desenvolver atividades agrícolas são sempre bem-vindas. Segundo trabalho desenvolvido por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (Alvarez et al, 2021), o maior estímulo para o jovem permanecer na propriedade rural é o de encontrar um nicho de atuação próprio, que venha não só a lhe render seus próprios ganhos, mas ter autonomia de ação e desenvolver seu propósito.
Dentre essas possibilidades, o que se descortina ao longo dos próximos anos são as atividades relacionadas à cadeia produtiva da restauração florestal, uma vez que existe um enorme passivo ambiental a ser trabalhado.
Desta forma, mecanismos e estratégias que organizem a produção de mudas e sementes são uma opção, quando se prevê que há a necessidade de restaurar tantas áreas e se propõe alcançar o desmatamento zero. O mercado, carente de viveiros e insumos como sementes florestais, deve estar apto a fornecer de pronto esses produtos. Nesse sentido é preciso iniciar o quanto antes um esforço hercúleo para criar um sistema de produção acelerado. Caso contrário, teremos um apagão desses produtos, quando as atividades de fato estiverem a todo vapor no processo de restauração.
A Embrapa tem incitado esforços para organizar o setor, de forma a contribuir com pesquisas que possam dar um norte ao oferecer modelos de restauração, propondo o convívio da produção agrícola com o meio ambiente. Agora há inúmeras possibilidades de se aplicar a tecnologia gerada como também de ampliar as pesquisas que envolvam manter a floresta em pé, gerando riqueza com capilaridade social.
Em especial, a Embrapa Meio Ambiente, por meio de suas pesquisas organizadas no site WebAmbiente e Plataforma ABC, além das novas tecnologias que vêm sendo desenvolvidas para descarbonização e para o fortalecimento da cadeia de sementes e mudas na restauração, que podem vir a contribuir mais com a Década da Restauração e com os novos ares de projeção mundial do Brasil na área ambiental.
Do ponto de vista humanitário, é cumprir nossa missão, reintegrando o homem à natureza sem que o antropocentrismo seja dominante, pois esse, de fato, gerou todos os efeitos já sentidos das mudanças climáticas. Na ponta da tecnologia do campo, a Embrapa contribui para inovar e consolidar a restauração florestal no imenso passivo ambiental dentro das propriedades rurais brasileiras.
Ivan André Alvarez é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, com atuação nas áreas de recursos florestais, desenvolvimento territorial rural, silvicultura urbana, manejo e conservação da natureza.