Os próximos passos das agfintechs na revolução do crédito para pequenos e médios agricultores

No mercado aquecido como está, a cavalgada de unicórnios está próxima e a tendência é o crédito abrir caminho para a adesão a outras soluções

Fevereiro 10, 2022

Por Kieran Gartlan

Algo grande está mudando na agricultura brasileira e beneficia os pequenos e médios produtores. Tradicionalmente colocados à margem do processo de acesso a crédito no agronegócio, e dependentes sobretudo da oferta subsidiada dos bancos estatais, agora eles têm novas opções para financiar suas atividades. 

A combinação de taxas de juros mais baixas (o que aguçou o apetite dos mercados de capitais por investimentos alternativos) e o incremento do volume de dados e tecnologia disponíveis nas fazendas (que deram mais lastro para o gerenciamento de risco), direcionam a revolução do crédito no país. 

Em velocidade exponencial, as agfintechs agarraram a oportunidade de navegar no gigantesco oceano azul da produção agrícola brasileira, que demanda em torno de US$ 100 bilhões em crédito por ano. 

O advento da covid-19 também acelerou a transformação, ao restringir a possibilidade de o produtor ir fisicamente à agência bancária da sua cidade e , de maneira quase forçada, procurar alternativas online. Diante dessa experiência, o que eles encontraram foi algo muito melhor, mais rápido e mais barato do que o financiamento tradicional. Dinheiro direto na conta, em poucas horas — ao invés de meses — e com necessidade de pouquíssima papelada.

Com a revolução em curso, virá a marcha dos unicórnios 

O Brasil e a América Latina produziram muitos unicórnios nos últimos anos, e muitos deles vieram do setor financeiro. As chamadas fintechs — que fornecem soluções de banco digital, ou microcrédito, aos clientes, competindo com os bancos tradicionais em preço, agilidade e gerenciamento de riscos — conquistaram seu lugar ao sol.

As agfintechs têm tudo para serem os primeiros unicórnios do agro no Brasil (Imagem: Canva)

Dado que o Brasil e a América Latina são uma potência agrícola, faz muito sentido que as fintechs também estejam focando nesse enorme mercado, ainda com muito espaço para crescer.

Diante disso, eu não me surpreenderia se as primeiras agtechs a virarem unicórnios no Brasil fossem justamente as agfintechs. Elas não passam mais despercebidas e começaram a despertar o interesse mesmo dos grandes investidores globais de Venture Capital, como Softbank e Tiger Global, bem como de algumas empresas de Private Equity. O próprio The Yield Lab, do qual faço parte, já investiu em três delas: TerraMagna, Seedz e Agroforte (leia mais abaixo)

Me arrisco a dizer, portanto, que o agronegócio brasileiro só não tem um unicórnio ainda porque as primeiras startups que surgiram estavam resolvendo problemas não tão críticos quanto o do crédito ao produtor. Por isso mesmo, suas soluções levaram mais tempo para amadurecer e alçar essas startups ao patamar de tração e ganho de escala próprios de um unicórnio. 

E, no campo, o que está por vir? 

Com a chegada das agfintechs ao campo, uma conexão digital e acelerada está se estabelecendo com os pequenos e médios agricultores. Afinal, tem ficado cada vez mais claro que para acessar crédito barato e rápido não é preciso sair de casa. Inclusive, os produtores já demonstram ficar mais à vontade até com a contratação pela tela do celular. 

Como consequência, a capacidade de penetração das agfintechs no mercado aumentou. E esse novo canal digital também abriu espaço para ser aproveitado para outros fins, como a venda de insumos ou compra da produção online. Ele leva os agricultores para um mundo digital totalmente novo.

À medida que os agricultores ganham segurança financeira, outra vantagem é que eles também tendem a investir mais em tecnologia e querer aumentar a sua eficiência, incorporando no portfólio as soluções “boas de se ter”. 

E o crédito facilitado traz, ainda, mais uma vantagem: acesso a dados e transparência sobre a forma como os agricultores produzem. Essa é a chave para estimular a adoção de melhores práticas, que hoje também já permitem obter melhores taxas de crédito, sobretudo de “crédito verde”, para fomentar a agricultura responsável. 

Como diz o ditado no Brasil: “agricultores no vermelho, não pensem no verde”. Ou seja, se os agricultores não estiverem com as finanças em dia, é muito menos provável que tenham preocupações mais amplas com o bem-estar do planeta. E a nova onda de agfintechs também quer desaguar nesse mar. 

Agfintechs que estão fazendo a diferença

TerraMagna

A TerraMagna, sediada em São José dos Campos (SP), redefiniu o gerenciamento do risco de crédito agrícola para distribuidores de insumos (revendas, cooperativas, indústrias) por meio de sua inteligência artificial e plataforma móvel e de nuvem alimentada por satélite. 

A solução oferece alertas e informações em tempo real para os credores durante toda a estação de cultivo, alertando sobre possíveis perdas de rendimento ou atrasos na colheita. O objetivo é oferecer aos credores um processo de cobrança tranquilo. 

No caso dos distribuidores, a solução de empréstimo comercial dá prazos mais flexíveis e taxas de juros mais competitivas do que as praticadas pelos credores tradicionais.

Em janeiro de 2022, a TerraMagna anunciou uma rodada de investimentos de US$ 40 milhões liderada pelo SoftBank Latin America Fund com participação da Shift Capital e Milenio Capital, além de investidores anteriores. Até aqui, a empresa havia levantado US$ 2,2 milhões da ONEVC, MAYA Capital, Accion Venture Lab, Canary e do The Yield Lab.

Seedz

A Seedz, de Belo Horizonte (MG), por sua vez, fornece inteligência de negócios e insights para grandes empresas do agronegócio por meio de sua plataforma de fidelidade e incentivo de vendas. 

Ao usar programas de fidelidade e reembolso, as empresas clientes podem criar um envolvimento mais profundo com os agricultores fora do ciclo normal de vendas e obter maior tração e inputs, ao mesmo tempo em que fornecem aos agricultores benefícios e reconhecimento concretos.

A Seedz trabalha em parceria com grandes empresas do agronegócio como John Deere, UPL, Yara e AgroGalaxy, em toda a cadeia de abastecimento agrícola, incluindo sementes, proteção de cultivos, fertilizantes, máquinas e equipamentos, energia, nutrição e saúde animal, armazenamento e infraestrutura. 

Em outubro de 2021, a Seedz teve sua mais recente rodada de investimentos puxada por Volpe Capital e 10b, integrante da holding Sk Tarpon. O aporte foi seguido pelo The Yield Lab e Tridon Participações (fundo independente da família Nishimura, fundadores do Grupo Jacto). O valor do investimento não foi divulgado. Em dezembro, a Seedz anunciou, então, a compra da Atomic Agro (aplicativo de planejamento de safra e engajamento do produtor rural). 

AgroForte

Atuando no mercado de proteínas, a AgroForte, sediada em São Paulo (SP), tem uma missão: se tornar o primeiro banco digital para pequenos e médios produtores de aves, suínos e laticínios. A empresa está focada no modelo integrado da pecuária, comum nesses setores. 

Trabalhando com grandes frigoríficos e cooperativas, a Agroforte é capaz de acessar dados históricos de produção e gerenciar o risco de crédito. Os criadores têm acesso aos empréstimos para comprar animais, custear a produção e antecipar recebíveis, além de investir em infraestrutura. Ao investir na fazenda, eles fortalecem a cadeia de suprimentos e melhoram a saúde e o bem-estar animal. Ao trabalhar com fornecedores selecionados de tecnologia e infraestrutura, a Agroforte também garante o melhor serviço com o menor custo para os criadores.

Neste mês de fevereiro, a Agroforte captou R$ 6 milhões em rodada liderada pela Futurum Capital e acompanhada pelo The Yield Lab, Kalei Ventures, Catálise Investimentos e investidores pessoa física, como Felipe Moraes, Arthur O’Keefe e Guillermo Arauz.

Kieran Gartlan é diretor do The Yield Lab Latam. Há 25 anos, atua na América Latina nos setores financeiro, de commodities e capital de risco (Venture Capital). Sua experiência também passa pela área de empreendimentos corporativos, inovação, mentoria de startups e investimentos.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão do Agtech News.

Contatos

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

Siga-nos