50 anos da Embrapa: sua história e posicionamento atual no ecossistema de inovação brasileiro

Atualmente, ações de inovação aberta são desenvolvidas pela Embrapa tanto para gerar conhecimentos em âmbito científico, como para co-criar com a iniciativa privada

Abril 10, 2023

Por Martha Delphino Bambini e Vitor Henrique Vaz Mondo

A partir da década de 1970, o setor agropecuário brasileiro passou a estabelecer uma trajetória de crescimento fundamentado principalmente na geração de novos conhecimentos e tecnologias, sua disseminação e adoção pelo setor produtivo. A organização de um sistema institucionalizado favorável à inovação, pesquisa e extensão agropecuária estruturou essa trajetória, tendo como destaque a criação de organizações privadas e públicas atuando em ciências agrárias, já a partir dos anos 1960.

É neste contexto que surge também a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), fundada em 1973 e que comemora 50 anos de existência no próximo dia 26 de abril. A Plataforma “Visão do Futuro do Agro Brasileiro” mantida pela Embrapa, apresenta uma descrição deste processo, na seção “Trajetória do Agro”.

O processo de inovação no campo, que estimulou o aumento da produção e da competitividade do setor, também foi beneficiado pelas transformações macroeconômicas pelas quais passou o Brasil e a estabilização monetária propiciada pelo Plano Real, na década de 1990, que permitiram a adoção de políticas de preços, crédito e seguro rural. 

Foi nesta época, em 1992, que foi constituída uma importante figura institucional: o Sistema Nacional de Pesquisa Agrícola (SNPA), formado pela Embrapa, pelas Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária (Oepas), por universidades e institutos de pesquisa de âmbito federal ou estadual, além de outras organizações públicas e privadas, direta ou indiretamente vinculadas à atividade de pesquisa agropecuária. 

O objetivo da criação do SNPA foi justamente compatibilizar as diretrizes e estratégias de pesquisa agropecuária com as políticas de desenvolvimento, definidas para o Brasil, considerando também as prioridades regionais, de forma a organizar, coordenar e otimizar os esforços de pesquisa agrícola do país. À Embrapa coube assumir um papel de coordenação deste sistema.

Em março deste ano, foi estabelecida uma iniciativa para aprimoramento do SNPA. Por intermédio de iniciativa do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), foi criado um grupo de trabalho composto por pessoas com comprovada experiência profissional e notório conhecimento na área de pesquisa agropecuária, como o ex-presidente da Embrapa Silvio Crestana; Ana Célia Castro, economista e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Roberto Rodrigues e Luís Carlos Guedes Pinto, ambos ex-ministros da Agricultura; e Pedro Camargo Neto, PhD em engenharia, produtor, consultor, ex-secretário de Produção e Comércio do Mapa e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira. 

A missão deste grupo é justamente pensar qual será o papel e a atuação do SNPA nos próximos 20 anos, considerando o contexto que vivenciamos hoje, com a busca de mais sustentabilidade e da mitigação e da adaptação da agropecuária brasileira aos efeitos de mudanças climáticas, baseada no uso intensivo de tecnologias digitais e biotecnológicas cada vez mais convergentes. O grupo de trabalho deverá apresentar um relatório ao ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, num prazo de 90 dias.

O documento terá, provavelmente, desdobramentos estratégicos para a atuação da Embrapa no sentido de modernizar sua atuação de forma a que continue tendo o papel de vanguarda no sentido de inovar e direcionar iniciativas científicas e tecnológicas no contexto da agropecuária, contribuindo para a liderança do país neste setor. Tendo em vista que estamos a poucos dias do aniversário de 50 anos da Empresa, há um certo simbolismo nesta iniciativa, a fim de que a Embrapa possa garantir mais 50 anos de sucesso no contexto da agropecuária no Brasil e no mundo.

A estratégia recente

Em seu VII Plano Diretor (2020 – 2030), a Embrapa estabeleceu um direcionamento estratégico no sentido de estabelecer processos de inovação aberta para interagir, de forma complementar e sinérgica, com os atores do ecossistema de inovação agrícola brasileiro, conectando a pesquisa básica e exploratória às demandas do setor produtivo. A empresa entende um ecossistema de inovação agrícola como um conjunto de indivíduos, comunidades, organizações, recursos materiais e aspectos institucionais que se relacionam entre si com o objetivo de viabilizar a geração colaborativa de conhecimentos, e tecnologias e de inovação tecnológica. 

Um ecossistema de inovação possui três dimensões principais: conhecimento, do qual fazem parte universidades, institutos de pesquisa, e outros centros de excelência tecnológica; setor privado, formado por vários tipos de empresas desde corporações fornecedoras de insumos e equipamentos, processadores, cooperativas e associações; pequenas e médias empresas diversas e startups; e o governo, tanto pelas leis e normas, como por políticas públicas e outras iniciativas de fomento a setores econômicos. Uma quarta dimensão pode ser apresentada como organizações que fomentam novos negócios, sejam elas de caráter público ou privado, como organizações de apoio ao desenvolvimento econômico em vários níveis e setores; agências de fomento à pesquisa; mecanismos geradores de novos negócios como incubadoras, aceleradoras, parques tecnológicos e hubs de inovação, investidores de venture capital, entre outros.

A atual dinâmica da agropecuária, caracterizada por vários desafios globais e por um ambiente tecnológico estruturado por inovações agrícolas digitais, vem transformando também o papel dos institutos de pesquisa e das universidades atuando em ciências agrárias. Dois movimentos importantes neste sentido envolvem uma melhor organização dos dados e informações obtidas em atividades de pesquisa científica, assim como tornar as atividades e processos dos centros de pesquisa mais propícios à condução de projetos colaborativos, seja internamente ou com outras instituições. 

A obra The Fourth Paradigm: Data-Intensive Scientific Discovery, de autoria de Tony Hey, Stewart Tansley, Kristin Tolle e Jim Gray, publicada em 2009, apresenta em mais detalhes aspectos sobre a digitalização dos processos de pesquisa científica.

A Embrapa, como instituição de pesquisa agrícola, se posiciona de forma mais intensa – ainda que não exclusiva – no sentido de gerar tecnologias em estágios intermediários de maturidade tecnológica que constituem as etapas de maior risco da pesquisa aplicada. Existe um direcionamento no sentido de buscar mais eficácia em atender as demandas do mercado, seja prospectando as necessidades existentes e/ou fazendo parcerias com empresas mais próximas ao contexto produtivo.

Ações de inovação aberta são desenvolvidas pela Embrapa tanto para gerar conhecimentos em âmbito científico, junto a universidades e outros centros de pesquisas, quanto para inovar no sentido de co-criar, juntamente à iniciativa privada, produtos e serviços tecnológicos a serem oferecidos ao setor produtivo e à extensão rural, no sentido de atender às demandas e dores das diferentes cadeias produtivas e diversas categorias de produtores agropecuários.

No contexto do fomento ao empreendedorismo agrícola, com vistas à geração e disseminação de novos produtos e serviços tecnológicos para a agropecuária, a Embrapa vem interagindo regularmente com startups que atuam com tecnologia agrícola, chamadas Agtechs, Agritechs, Agrifoodtechs e Foodtechs. Diversas ações de fortalecimento de startups vêm sendo promovidas pela Embrapa na última década, em várias regiões do país. Foram várias modalidades como hackathons, programas de incentivo, aceleração de startups, criação de games, laboratório vivo de validação tecnológica, entre outros.

Entre os exemplos estão:

  • AgNest: hub de inovação do tipo laboratório vivo (farm lab), que visa catalisar o empreendedorismo aliado ao conhecimento científico.
  • Avança Café: soluções tecnológicas de vanguarda que incrementem a competitividade dos Cafés do Brasil.
  • Colmeia Up: programa de inovação aberta que visa estimular empreendedores a transformar ideias em soluções tecnológicas sustentáveis para o agronegócio. 
  • Horta & Escola: concurso para estudantes do ensino fundamental, médio e técnico do Distrito Federal de fomento à cultura empreendedora.
  • Ideas for Farm: desafio para empreendedores que querem agregar soluções para uma agropecuária sustentável nas áreas de apicultura e avicultura em escala regional ou nacional.
  • Ideas for Milk: Desafio de startups do agronegócio do leite.
  • ILPF Conecta: soluções para sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), em suas diferentes modalidades. 
  • InovaAvi: desafio de ideias na avicultura para fomentar a inovação de impacto, colaborando para que se tornem negócios e soluções para a cadeia produtiva de aves.
  • InovaPork: desafio para fomentar a inovação na cadeia de suínos.
  • InoveAqua: fomento à inovação para o desenvolvimento da aquicultura brasileira.
  • Open Innovation Soja: iniciativa para empreendedores em soluções sustentáveis para o sistema de produção de soja.
  • Pontes para Inovação: iniciativa colaborativa para conectar agritechs com investidores, visando permitir que estas tenham acesso a recursos para acelerar seus negócios.
  • Pitch Deck AgTech: chamada para startups e empreendedores orientados à inovação com propostas de desenvolvimento de tecnologias.
  • SoilsPlay: criação de games para sistemas integrados, serviços ecossistêmicos, mercado de carbono, recuperação e conservação de solos e experiência do consumidor.
  • TechStart Agro Digital: Programa de aceleração de startups, criado pela Embrapa e Venture Hub ®, com foco em agricultura digital.

A página com todos os desafios pode ser acessada clicando aqui.

Além de estabelecer parcerias com vários atores, a Embrapa passa também a exercer um papel de orquestração, envolvendo os diferentes atores do ecossistema de inovação agrícola, estimulando e articulando relacionamentos em todas as dimensões (conhecimento, empresarial, governo e empreendedorismo) e, muitas vezes, também apoiando a governança das ações no contexto deste ecossistema.

Ainda que sua principal atribuição esteja na capacidade de gerar, direcionar e absorver fluxos permanentes de conhecimento relacionados ao setor agropecuário, a Embrapa, ao longo de cinco décadas de existência, vem estabelecendo vários espaços e papéis no ecossistema de inovação agrícola brasileiro, participando de toda a evolução tecnológica que tem movido a agricultura, tanto nacional quanto internacionalmente.

O fortalecimento da Embrapa e o aprimoramento do SNPA para os próximos 50 anos será fundamental para que a empresa continue oferecendo soluções tecnológicas para o País enfrentar os desafios futuros de segurança alimentar e promoção da sustentabilidade, contribuindo para estruturar políticas públicas agroambientais assim como iniciativas de fomento ao empreendedorismo e inovação agropecuária.

Martha Delphino Bambini é Analista da área de inovação na Embrapa Agricultura Digital, é Mestre e Doutora em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp, especialista em Administração de Empresas pela FGV-SP. Atua na área de Inovação Aberta, no relacionamento com startups Agtech e hubs de inovação.

Vitor Henrique Vaz Mondo é Pesquisador é Chefe-Adjunto de Transferência de Tecnologia na Embrapa Agricultura Digital e Engenheiro Agrônomo e Doutor em Ciências na área de Produção Vegetal pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. Na Embrapa, vem liderando diversas iniciativas estratégicas voltadas para a inovação aberta no agronegócio brasileiro.

Contatos

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

Siga-nos