Outubro 19, 2023
Corredor agroecológico com culturas variadas (Fonte: Embrapa)
Por Cynthia Machador e Altair Machado
A viabilização de sistemas agroecológicos em regiões caracterizadas por: áreas planas e extensas, solos com baixo teor de matéria orgânica e sujeitas frequentemente a estresses bióticos e abióticos, representam um desafio significativo e muito comum no Estado de Goiás e em todo o Cerrado brasileiro.
Nessas regiões têm ocorrido grandes alterações nos sistemas tradicionais de produção, devido às limitações edafoclimáticas e os efeitos da agricultura empresarial predominante. O resultado? Uma perda considerável da biodiversidade e impactos nos aspectos culturais, sociais e antropológicos dos agricultores locais.
Essas particularidades impulsionaram a busca por uma agricultura familiar sustentável, fundamentada em princípios agroecológicos. O objetivo não é transplantar diretamente práticas modernizadas para regiões tradicionais. Em vez disso, a ideia é aproveitar os agroecossistemas e os princípios da produção agroecológica para planejar sistemas sustentáveis.
Até recentemente, não havia uma proposta de sistema agroecológico focado na produção de alimentos e sementes para os agricultores familiares de Goiás, que se baseasse em seus principais cultivos, aproveitando as aptidões, o conhecimento e as práticas locais, além de valorizar e conservar tanto a biodiversidade silvestre quanto a domesticada. Ou mesmo que levasse em consideração os recursos das propriedades, substituindo os insumos externos pela reciclagem de nutrientes e promovendo a conservação e uso eficiente de insumos locais.
Um modelo de sistema agroecológico – baseado em consórcio de milho, feijão e guandu, de uma fazenda cujos proprietários são pioneiros da agroecologia em Goiás – inspirou a criação dos corredores agroecológicos.
A estratégia dos corredores sintetiza o manejo da agrobiodiversidade (Foto: Embrapa)
Este modelo foi adaptado para criar faixas contínuas e intercaladas, nas quais diferentes tipos de culturas alimentares são plantadas juntamente com espécies sinérgicas e de cobertura. Essas culturas, pensadas para serem rotacionadas e manejadas conforme os princípios da produção agroecológica, têm o propósito de produzir alimentos e sementes, promover a diversificação de cultivos e a melhoria das condições de fertilidade dos solos e do manejo de pragas e doenças.
Os corredores agroecológicos buscam combinar cuidadosamente espécies/variedades de plantas previamente avaliadas em ensaios de competição ou unidades demonstrativas. A composição das faixas alterna cultivos alimentares com espécies de plantas de cobertura, aromáticas e condimentares sinérgicas, aproveitando a diversidade funcional. Essa estrutura é alterada nos plantios subsequentes, com a inversão das faixas: as de cultivos alimentares são substituídas por faixas de plantas recuperadoras da fertilidade, como os adubos verdes.
Além disso, os corredores são projetados para serem próximos ou cercados por áreas de vegetação natural, que servem como refúgio para a fauna benéfica, contribuindo para um ambiente equilibrado e sustentável na agricultura agroecológica.
A estratégia dos corredores sintetiza o manejo da agrobiodiversidade, combinando consórcios e sucessões de espécies de interesse dos agricultores. É dizer que eles são policultivos, que se fundamentam na premissa de que o melhoramento agroecológico deve acontecer simultaneamente à melhoria dos sistemas do entorno, incrementando o desempenho produtivo, econômico e ambiental das áreas.
Ao contrário do melhoramento convencional – que preconiza a uniformidade da produção a partir de materiais genéticos obtidos em ambiente controlado, com o objetivo de isolar os efeitos ambientais e reduzir a interação genótipo versus ambiente – o melhoramento para sistemas agroecológicos traz uma proposta diferente.
Nele, não existe uniformidade, o que é reflexo da diversidade de espécies cultivadas, dos manejos diferenciados de solo adotados, da escolha de diferentes espécies, entre outras peculiaridades locais. Daí a importância do desenvolvimento de variedades nos próprios sistemas agroecológicos, para que elas tenham maior potencial de adaptação do que aquelas obtidas nos ambientes controlados dos centros de pesquisa.
Toda intervenção ou prática de manejo impacta o sistema e o ambiente onde são aplicadas, levando à melhoria da qualidade e desempenho ou à degradação. Desse modo, é essencial realizar estudos sobre o efeito das práticas agroecológicas, para a compreensão do funcionamento da estratégia produtiva, dos caminhos para seu aprimoramento e validação em um contexto sistêmico.
Nesse sentido, o desempenho dos corredores implantados em uma sequência de projetos liderados pela Embrapa Cerrados tem mostrado o potencial da estratégia pela melhoria na qualidade do solo e no rendimento das variedades de milho e feijão selecionadas localmente.
Baseados atualmente no Portfólio de Agroecologia e Produção Orgânica, esses projetos também buscam contribuir com os compromissos assumidos pela Embrapa com o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo ), desde as suas primeiras edições.
Neste contínuo de projetos, conduzidos de forma participativa e descentralizada em pólos de irradiação nas propriedades ou comunidades rurais, com o apoio de redes sócio-técnicas das associações de agricultores parceiras, a diversidade genética dos cultivos alimentares já foi recomposta consideravelmente.
Foram identificadas, por exemplo, variedades de milho, feijão, mandioca e espécies de plantas de cobertura adaptadas aos diferentes locais, que agora são recomendadas para a composição de sistemas como os corredores. Em paralelo, continua a análise do rendimento dos cultivos alimentares principais (milho e feijão), da incidência de pragas, doenças e invasoras e de atributos químicos e biológicos de fertilidade dos solos das áreas.
A expectativa é que a validação do sistema de produção seja concluída nos próximos anos, com a complementação das avaliações sócio-econômicas e caracterização dos serviços ecossistêmicos decorrentes da implantação dos corredores nas propriedades agrícolas.
Cynthia Torres de Toledo Machado possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Viçosa (1989), mestrado em Agronomia (Ciências do Solo) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1995) e doutorado em Agronomia (Ciências do Solo – Nutrição de Plantas) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2000). Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária desde 2002, lotada na Embrapa Cerrados. Atua em agroecologia, na área de manejo ecológico de solos, plantas de cobertura e métodos participativos de avaliação de agroecossistemas, coordenando diversos projetos na temática. É membro do Comitê Gestor do Portfólio de Agroecologia e Produção Orgânica, do Sistema Embrapa de Gestão (SEG) e membro suplente da Embrapa na Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO). Na área de nutrição de plantas, possui experiência e atua em projetos envolvendo os seguintes temas: fungos micorrízicos arbusculares, variabilidade genética vegetal, eficiência nutricional, absorção e utilização de fósforo e nitrogênio, variedades locais de milho. Foi supervisora técnica do Núcleo de Produção Vegetal da Embrapa Cerrados entre 2011 e 2020. Possui cursos de curta duração em gestão de projetos, gestão de equipes, administração pública e trabalho remoto e desenvolvimento sustentável.
Altair Toledo Machado possui graduação em Engenharia agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1981), mestrado em Agronomia (Genética e Melhoramento de Plantas) pela Universidade de São Paulo (1987) e doutorado em Ciências Biológicas (Genética) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997). É pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária desde 1988, lotado na Embrapa Cerrados desde 2002. Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Melhoramento Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: agricultura familiar, eficiência no uso de nitrogênio, melhoramento participativo, agrobiodiversidade, agroecologia e germoplasma de milho. Participou de vários fóruns internacionais como a Convenção da Diversidade Biológica e do Tratado Internacional dos Recursos fitogenéticos para Alimentação e Agricultura. Foi Assessor do Community Biodiversity Development and Conservation Programme (CBDB) patrocinado pela Noruega, Suíça, Holanda e Canadá com ações na África, Ásia e América Latina. Foi assessor da AS-PTA no desenvolvimento de programas com sementes crioulas em diferentes regiões do Brasil. Coordenou vários projetos com destaque para os Programas Biodiversidade Brasil e Itália patrocinado pelo governo italiano e do programa InovaSocial com apoio do BNDES com ações junto ao Movimento Camponês Popular. Assessorou diferentes organizações da França sobre o manejo da agrobiodiversidade e melhoramento participativo. Foi gestor do Macroprograma de Agricultura Familiar (MP6) da Embrapa. Possui mais de 100 publicações e 6 livros.