Agosto 24, 2023
Controlar a temperatura nos aviários é crucial para o bom desempenho das aves, evitando redução no consumo de alimentos, baixa produtividade e maior suscetibilidade a doenças
Por Camila Mottin
A cadeia avícola é de extrema relevância para o agronegócio brasileiro, sendo que o país ocupa a segunda posição na produção mundial de carne de frango e lidera as exportações. No Brasil, o Estado do Paraná é, por sua vez, o responsável por 1/3 da produção e foi ali, no Centro Universitário Integrado, que uma pesquisa foi conduzida, embora não reinvente a roda da avicultura, pode ajudar o setor a avançar com ainda mais fluidez.
Para que as aves atinjam bons resultados é sabido que o controle da temperatura dentro dos aviários de produção é fundamental. Isto porque animais com frio diminuem o consumo de ração e água, afetando os resultados produtivos, além de ficarem mais suscetíveis a doenças.
Mas aquecer o ambiente nem sempre é tarefa fácil, mesmo que por tempo limitado, como é o caso do início do desenvolvimentos dos pintinhos. Nos primeiros dias de vida, a temperatura de conforto térmico desses animais fica na casa de 32oC, porque nessa etapa as aves ainda têm um sistema termorregulador imaturo e penas em formação, o que dificulta a manutenção da sua própria temperatura corporal.
Para tentar driblar os efeitos negativos principalmente desta fase, o aquecimento ambiental dentro dos aviários têm sido realizado de diversas formas, com fornos a lenha, energia elétrica e gás. A questão é que, muitas vezes, esses sistemas permitem atingir uma temperatura ambiental ideal, que não garante que a cama – material que cobre o piso dentro da instalação avícola – seja aquecida. O mais comum, na verdade, é que ela continue fria, o que favorece a perda de calor das aves por condução (contato).
Além disso, as formas de aquecimento citadas anteriormente se tornam onerosas para os avicultores, por englobar uma parcela importante do custo de produção da atividade, o que reforça a necessidade de investir em novas tecnologias. Ou tecnologias não tão novas assim, mas mais eficientes.
Se por um lado o incremento de temperatura pode beneficiar os animais, por outro, também é preciso considerar a qualidade da cama de frango na garantia da sanidade nas granjas. Nos sistemas em que os animais são criados soltos em galpões sob uma cama, ela tem a função de absorver a umidade, fornecer isolamento térmico e proporcionar uma superfície macia, gerando conforto, o que evita a formação de dermatoses e de lesões no coxim plantar, no joelho e no peito das aves.
A cama, geralmente composta por uma camada de 10 cm de altura de maravalha ou outro material, tem capacidade absorvente e o contínuo contato da ave com a cama, durante cerca de 42 dias (tempo do ciclo de produção até o abate) exige que o material utilizado apresente qualidade adequada.
Estima-se que o estresse térmico possa diminuir em até 10% o ganho de peso da ave nos seus primeiros dias de vida, o que dificilmente pode ser recuperado ao longo da criação. Isto acontece pois o estresse influencia na absorção do saco vitelínico, gerando deficiência nutricional no animal devido ao desenvolvimento aquém do esperado do trato gastrointestinal.
Após o abate das aves, inicia-se o período de vazio sanitário, de realização obrigatória e que tem duração média de 14 dias. Nesse período, a cama do aviário é enleirada (ou seja, passa por sobreposição de palhas) e é coberta por lona plástica, favorecendo o processo de fermentação. A fermentação é um método biológico, natural, de decomposição da matéria orgânica em ambiente anaeróbico, em que a intensa atividade microbiana contribui para o aumento da temperatura e a aumento do pH, inviabilizando, dessa forma, o desenvolvimento de alguns microrganismos patogênicos presentes na cama. Esse processo faz com que a cama mantenha sua qualidade microbiológica.
Com o objetivo de diminuir as perdas produtivas nas primeiras semanas de vida de frangos de corte e diminuir a carga microbiana ao longo do ciclo produtivo, a proposta é associar aos sistemas de aquecimento dos aviários à instalação de pisos térmicos. Em conjunto, a conclusão é que a dupla evita a perda de calor por condução e favorece o desempenho produtivo. O piso térmico é um sistema de cabos calefatores instalados sob o piso específico, que permite a propagação do calor.
Embora amplamente utilizada em residências, a instalação de pisos térmicos ainda é pouco relatada na avicultura comercial. Com custo de implantação considerado baixo, na comparação com outros equipamentos normalmente instalados nas plantas avícolas, esta pode ser uma alternativa viável para evitar perdas produtivas.
O aquecimento da cama durante o período de vazio sanitário também é benéfico ao sistema, pois as altas temperaturas podem melhorar a capacidade da cama de perder água, controlando a sua população microbiana. Além disso, também favorece o processo de fermentação no período de vazio sanitário da granja, pensando principalmente no controle de Salmonella sp, causadora de grandes prejuízos na qualidade da carcaça, saúde e desempenho das aves.
A Salmonella sp constitui também um problema de saúde pública, sendo uma das principais causas de doenças transmitidas por alimentos e amplamente reconhecida como importante fonte de contaminação e infecção, seja por meio de carne de aves ou ovos contaminados. Para se precaver desse tipo de situação, é necessário submeter o alimento a temperaturas de, no mínimo, 70oC, o que garante sua eliminação.
O Núcleo Integrado de Pesquisa Avícola (NIPAV), em parceria com as empresas Avegroup e a Álamo Pisos Térmicos, realizou um protocolo experimental com a instalação de cabos calefatores em uma granja na região Noroeste do Paraná (Figura 1) e o relato segue abaixo.
Instalação de piso térmico em aviário sob piso concretado com cinco estágios de cabos calefatores (Foto: Arquivo pessoal 2023)
Os cabos calefatores foram instalados em uma área que ocupa 1/3 do aviário (Figura 2), denominada “pinteira”, porque abriga as aves nos seus primeiros dias de vida.
Modelo do aviário com a instalação do piso térmico na área da pinteira para protocolo experimental testando a qualidade da cama e desempenho das aves (Imagem: Camila Mottin)
Nesse primeiro momento, o sistema foi testado durante o período de vazio sanitário com objetivo de melhorar a qualidade da cama, atingindo uma temperatura média de 59,8ºC, e uma temperatura máxima de 64ºC. Neste cenário, foi constatado menor teor de umidade (17,5% MS), pH mais alto (8,05) e menor número de contagem bacteriana total de mesófilos aeróbicos, além de alguns pontos ausência de Salmonella sp. O pH da cama, quando se encontra alcalino, reduz a multiplicação da maioria das bactérias patogênicas.
Em suma, o tratamento térmico tem se mostrado uma alternativa eficiente para melhorar a qualidade química e microbiológica da cama utilizada no experimento. Ainda em curso, o estudo prevê adequações na infraestrutura da granja para melhoria da viabilidade técnica do projeto, com o objetivo de chegar a temperaturas superiores e eficazes no controle de microrganismos patogênicos. Em breve, também serão realizadas provas de desempenho na criação das aves.
Camila Mottin é professora dos cursos de Medicina Veterinária e Agronomia do Centro Universitário Integrado desde 2018. Também atua como coordenadora do curso de Medicina Veterinária e do Núcleo Integrado de Pesquisa Avícola. É graduada em Medicina Veterinária e tem doutorado em zootecnia.