Citricultura: grande aliada na mitigação das mudanças climáticas

Pesquisadores da Embrapa Territorial destacam oportunidades e estudos que estão sendo desenvolvidos na esteira da produção citrícola sustentável

Maio 11, 2023

A citricultura aponta resultados favoráveis para o estoque de carbono na fitomassa das arvores (Foto: Embrapa)

Por  Lauro Rodrigues Nogueira Junior, Daniela Tatiane de Souza e Carlos Cesar Ronquim

A citricultura aponta resultados favoráveis para o estoque de carbono na fitomassa das arvores (Foto: Embrapa)A cada ano que passa, a agricultura brasileira ganha mais e mais destaque no cenário mundial, superando gargalos sociais, econômicos e ambientais em busca da sustentabilidade. Entretanto, alguns gargalos ainda nos desafiam, como é o caso  da necessidade de  mitigação das mudanças climáticas, visto que, desde o primeiro inventário nacional de gases de efeito estufa (GEE), o setor da “agropecuária” é o segundo maior emissor de GEE, atrás apenas do “uso da terra, mudança do uso da terra e florestas” (LULUCF). Apesar da grande participação sobre a emissão nacional de GEE, o setor agrícola tem potencial de impactar positivamente a mitigação das mudanças climáticas, visto o crescente interesse de empresas e produtores rurais pela adoção de práticas agrícolas sustentáveis ou de baixa emissão de carbono. 

Esse é um tema recorrente que vem ganhando atenção do setor agropecuário, com iniciativas da Embrapa em várias frentes, como a Carne Carbono Neutro e a Soja Baixo Carbono. E agora vamos ter novidades também na área citrícola.

Os citros no combate à mudança climática

Em 2022 a Embrapa Territorial em parceria com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) aprovaram o projeto “Orange growers participation in the carbon stock dynamics and biodiversity preservation” dentro do Farmer Innovation Fund da Innocent Drinks. 

Um dos objetivos do projeto é estimar os estoques de carbono nos pomares citrícolas, que ocupam aproximadamente 400 mil hectares no cinturão citrícola de São Paulo e sudoeste de Minas Gerais. A metodologia para a estimativa da fitomassa e do estoque de carbono utiliza o método destrutivo de amostragem direta.

As plantas são separadas em tronco, galhos, folhas, frutos e raízes e pesados frescos. Em seguida, amostras de cada parte são secas em estufa e por meio de análises químicas é determinado o carbono da planta. Para a determinação da fitomassa das plantas são utilizadas equações alométricas baseadas nas variáveis biométricas (área basal do tronco e de galhos secundários e altura da planta).

Essa estimativa dos estoques de carbono nos pomares citrícolas, que visa determinar uma linha de base dos estoques de carbono na fitomassa, pode apoiar o desenvolvimento de metodologias de monitoramento, relato e verificação (MRV) dentro dos padrões/protocolos do mercado de carbono. Ou seja, isso pode vir a abrir portas para que interessados (empresas e produtores rurais) possam vir a adotar práticas agrícolas de baixa emissão de carbono com o apoio de recursos oriundos do mercado de carbono, e assim contribuir efetivamente para a mitigação das mudanças climáticas. 

Os resultados do referido projeto apontam para um grande potencial de estoque de carbono na fitomassa das árvores citrícolas, acima das 21 toneladas de carbono por hectare (ha) que são usadas como referência no inventário nacional de GEE.

Por dentro do mercado voluntário de carbono

Em nível mundial, o mercado voluntário de créditos de carbono praticamente quadruplicou em 2021 e chegou a quase US$ 2 bilhões, com destaque para os créditos das chamadas “soluções baseadas na natureza” (ECOSYSTEM MARKETPLACE, 2022). Em 2021, foram transacionados quase 500 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2eq), mais que o dobro dos 200 milhões do ano anterior. E o mundo da agricultura ainda tem muito espaço para crescer. Deste total, a agricultura representou menos de 0,25% do CO2eq transacionado no mercado voluntário de carbono entre 2020 e 2021.

Em relação aos créditos de carbono da agricultura, o volume transacionado foi de tímidos 0,5 milhão de toneladas de CO2eq em 2020 e de 1 milhão em 2021. No segmento florestal e de mudança do uso da terra, as transações já atingiram 57,8 milhões de toneladas de CO2eq em 2020 e 227 milhões em 2021.  

O valor do crédito de carbono em projetos voluntários da agricultura no mundo flutuou em torno de US$ 10,38 por tonelada de CO2eq no ano de 2020 para US$ 8,81 por tonelada de CO2eq em 2021. No Brasil, o mercado de carbono ainda está em consolidação. Estima-se que o valor médio do crédito de carbono no país seja de aproximadamente R$ 22 por tonelada de CO2eq (CREDCARBO, 2023). 

Olhando para o mercado brasileiro como um todo, sabemos que predominam os projetos de energia (63%), seguido dos de Agricultura, Floresta e Outros Usos da Terra (25%). Entretanto, apesar de o número de projetos de energia ser maior, observa-se que o volume de créditos gerados pelos projetos relacionados ao setor AFOLU (sigla em inglês para Agricultura, Floresta e Outros Usos da Terra) é significativamente maior. Em 2020 e 2021, a participação dos créditos gerados por esses projetos foi de 81% e 73%, respectivamente, enquanto os créditos gerados por projetos de energia tiveram participação de 18% e 24% (VARGAS, 2021).

 Nos padrões voluntários de carbono nota-se que para o Brasil ainda não se tem registro de projetos da agropecuária, tais como manejo de pastagens, metano na pecuária, sistema plantio direto, cultivo e manejo de arroz e gestão sustentável de terras agrícolas.

O decreto nº 11.075, de 19 de maio de 2022 estabeleceu os primeiros parâmetros para a constituição do mercado regulado. Por outro lado, o volume comercializado no mercado voluntário ainda é baixo e realizado de modo informal. Fato é que o país tem grande  potencial de gerar créditos de carbono para neutralizar as emissões de GEE e conta com condições propícias para o desenvolvimento desse mercado. 

Dito isso, a citricultura nacional pode se beneficiar da expansão do mercado voluntário no Brasil, seja por meio do melhor alinhamento de interesses com as empresas e investidores de títulos verdes, quanto pelo desenvolvimento de projetos de redução de emissões e sequestro de carbono. 

Perspectivas para o setor citrícola

Atualmente há algumas empresas citrícolas que buscam estimar a pegada de carbono (carbon footprint) de seus produtos. O objetivo é informar aos consumidores qual o impacto ambiental gerado em termos de CO2eq emitido à atmosfera. 

O conceito de pegada de carbono tem se tornado mais frequente para produtos de exportação como o suco de laranja. Nesse caminho, o Brasil sendo o maior produtor mundial e exportador de suco de laranja necessitará dispor de dados de estoques de carbono, emissões e inventários de GEEs no cultivo de citros. 

A estimativa do quanto de carbono as propriedades citrícolas estocam e o balanço de emissões de GEE do tipo neutro (net zero) em seus pomares poderá ser um fator competitivo importante para manter os produtos cítricos do país em destaque no mercado internacional. Além disso, o estoque de carbono é um indicador básico de qualidade ambiental utilizado em fóruns internacionais, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC).

Adicionalmente, o setor enfrenta crescentes exigências da União Europeia para a redução gradual de ao menos 50% da quantidade de fertilizantes e pesticidas utilizados nos pomares até o ano de 2030. Nesse contexto, destaca-se que práticas agrícolas sustentáveis têm capacidade de reduzir de 20% a 40% as emissões de GEEs e quando aliadas à presença de maciços florestais das propriedades rurais, podem ter efeito positivo de fixação de carbono no solo e na biomassa agrícola e florestal.

Dada a importância dessa cultura para o Brasil e com um mercado globalizado e cada vez mais competitivo, a possibilidade de um balanço positivo ou de diminuição da emissão de GEE nas propriedades citrícolas poderá embasar uma possível comercialização futura de créditos de carbono por parte dos produtores, muitos dos quais estão à  margem do setor financeiro, por meio da criação de  instrumentos  de crédito para financiar atividades sustentáveis, como a Cédula de Produto Rural Verde (CPR Verde) ou o  Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Acreditamos que é questão de tempo para esse mercado virar. 

Referências

CREDCARBO. Créditos de Carbono – Valor por hectare em diversas culturas. São Paulo: CredCarbo, 2023. Disponível em <https://credcarbo.com/carbono/creditos-de-carbono-valor-por-hectare-em-diversas-culturas/>. Acesso em: 10 fev. 2023.

ECOSYSTEM MARKETPLACE. State of the voluntary carbon markets 2022 Q3. Washington: Ecosystem Marketplace, 2023. Disponível em <https://www.ecosystemmarketplace.com/publications/state-of-the-voluntary-carbon-markets-2022/>. Acesso em: 10 jan. 2023.

VARGAS, D. B. et al. Mercado de carbono voluntário no Brasil. Observatório de Bioeconomia. São Paulo: FGV, 2021.  Disponível em <https://eesp.fgv.br/sites/eesp.fgv.br/files/ocbio_mercado_de_carbono_1.pdf>. Acesso em: 12 jan. 2023.

Lauro Rodrigues Nogueira Junior é graduado em Agronomia pela Unitau, com mestrado e doutorado em Ciências Florestais pela USP. Atua na área de gestão ambiental, recuperação de áreas degradadas, conservação de solos, agricultura de baixo carbono e estimativas de carbono em sistemas florestais e agrícolas.

Daniela Tatiane de Souza é graduada em Ciências Econômicas pela Unesp, com mestrado e doutorado em Engenharia de Produção pela UFSCar. Atua na área de socioeconomia, envolvendo economia agrícola e ambiental, como a precificação do carbono, valoração e custos de oportunidade de ativos florestais, análise de viabilidade econômica de mercados agroindustriais e em cenários e modelagem econômica.

Carlos Cesar Ronquim é graduado em Agronomia pela Unesp, com mestrado e doutorado em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar. Atua na área de impactos dos sistemas produtivos sobre mudanças climáticas e emissão de carbono, manejo e fertilidade do solo, mudança de uso e cobertura do solo.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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