Como a agricultura brasileira avança na era da sustentabilidade?

Das salas de aula às lavouras, conceitos e práticas ganham adeptos e preparam o país para uma nova era sustentável no agro

Dezembro 5, 2023

O Brasil tem papel importante na dobradinha de produzir mais (e de maneira menos agressiva). Mas, qual é o nosso protagonismo na discussão global do agro sustentável (Foto Canva)

Por Simone C. Molina Favarão

As ações norteadoras para o desenvolvimento da agricultura no Brasil passaram ao longo dos anos por diversas mudanças. Algumas práticas que há cerca de 30 anos eram comuns — como a monocultura e a aplicação recorrente das mesmas moléculas de agroquímicos — foram substituídas por práticas conservacionistas e menos agressivas ao meio ambiente, graças ao desenvolvimento da ciência e da pesquisa e o esforço dos envolvidos.

Analisando esta linha do tempo, podemos dizer que o Brasil aliou ao ciclo “produtivista” (iniciado com a Revolução Verde), a era da “agricultura ambientalista”, que considera a discussão sobre sustentabilidade no campo e formas de produção que visam o longo prazo — ampliando a atenção para os cuidados com o solo, a microbiota e a saúde e nutrição das plantas, que no fim do dia é reflexo do que está embaixo da terra.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) suprir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades é um dos significados da sustentabilidade. Um termo que está calcado, vale lembrar, nos pilares: ambiental, social e econômico.

Hoje, estima-se que o mundo tenha 8,04 bilhões de pessoas, que, logicamente, precisam se alimentar. O nosso país é o quarto maior produtor de alimentos do mundo e cerca de 27% do seu PIB é proveniente do agronegócio (dados de 2021). Diante deste contexto, nos deparamos com o desafio de produzir mais e de forma mais sustentável.

Não se trata de uma tarefa fácil, pelo contrário. No Brasil há muito a ser feito, ainda mais quando nos deparamos com informações como estas, vindas da Embrapa:

  • O país é o sétimo maior emissor de gases do efeito estufa, sendo que metade vem do desmatamento; 1/4 da agricultura; 2/5 de transportes e energia. O restante da indústria e de resíduos;
  • Estima-se que 16,5% dos solos brasileiros estão degradados;
  • Aproximadamente 70% da água doce no Brasil é utilizada na agricultura
  • E estudos apontam que alguns agroquímicos podem ser possíveis agentes causadores de doenças em humanos. 

No entanto, também há muito o que se comemorar no cenário nacional. 

A legislação ambiental brasileira é considerada, por muitos especialistas, como a mais completa do mundo. O Brasil também é referência mundial na devolução de embalagens plásticas de agrotóxicos vazias para os fabricantes (logística reversa). 

Práticas como manejo conservacionista do solo com a utilização de terraceamento, plantio direto, colheita mecanizada com devolução de palhada, proteção de nascentes e rios com as áreas de preservação permanente, protegem nossos solos evitando a degradação. 

Já o mapeamento da fertilidade do solo e a aplicação de adubos com taxa variável promovem o uso racional de fertilizantes. Temos lugar de destaque mundial na inoculação da semente de soja com bactérias fixadoras de nitrogênio. No país, a tecnologia da fixação biológica do nitrogênio (FBN) é uma das mais impactantes para a sustentabilidade da produção de soja e sua adoção resulta em benefício econômico e ambiental por reduzir a necessidade de uso de fertilizantes nitrogenados no cultivo da soja, segundo a Embrapa

Sobre a utilização de bioinsumos, o Brasil é líder mundial na utilização de microrganismos na agricultura, pesquisas apontam que o mercado de bioinsumos cresceu no último ano mais de 30%. Associado a isso, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) e o Manejo Integrado de Doenças (MID) permitem reduzir a aplicação de produtos químicos na lavoura, evitar a criação de resistência por parte dos inimigos naturais e manter um equilíbrio nos sistemas produtivos. 

Consórcios (como o de milho e braquiária), adubação verde, integração lavoura-pecuária-floresta e o reflorestamento com fins comerciais, também merecem destaque como práticas que miram a recuperação dos ecossistemas produtivos.

E o futuro, o que podemos esperar?

Em tempos em que o ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) vem se consolidando como uma forma de medir o desempenho de sustentabilidade das empresas, o Brasil se apresenta promissoramente, estando bem-posicionado para se tornar o maior produtor de combustível sustentável do mundo.

É o país com o maior potencial para mitigar ou sequestrar carbono da atmosfera usando soluções climáticas naturais, além de projetos de destaque na restauração florestal em áreas de pastagem degradadas, capazes de remover carbono da atmosfera e com potencial de atrair investimentos significativos para o país, segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Especialistas apontam que estas (e outras práticas) permitirão que o Brasil colabore significativamente com o processo de descarbonização da economia global, ganhando mais protagonismo no próximo ciclo evolutivo da agricultura sustentável. 

Simone C. Molina Favarão tem graduação e mestrado  em Agronomia pela Universidade Estadual de Maringá. É professora do curso de Agronomia do Centro Universitário Integrado e Gerente Executiva do Instituto Integrado de Ciência e Tecnologia.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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