Março 23, 2023
Será que os empreendedores e as grandes empresas do agro estão mais comprometidos com o futuro ou com o passado? (Imagem: Canva/ Pexels/ Kaboompics)
Por Santiago Murtagh
Eu sei que fiz uma pergunta provocativa no título, e já proponho outra para os leitores que nos acompanham… Será que os empreendedores e as grandes empresas do agro estão mais comprometidos em alimentar um mundo de 10 bilhões de pessoas até 2050 de forma sustentável ou em resolver os problemas da agricultura que surgiram há 12 mil anos, quando a atividade foi criada?
O investimento de impacto é um tema atual e certamente não apenas uma tendência, que merece nosso tempo para reflexão. Primeiramente, precisamos entender que investimento de impacto é aquele que busca resultado socioambiental mensurável, além de retorno financeiro.
A pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia e a varíola dos macacos elevaram o nível de exigência do consumidor e, ao mesmo tempo, representam um grande desafio e uma oportunidade para as indústrias de alimentos em geral, principalmente aquelas que investem em tecnologia. Afinal, a agricultura traz fortes externalidades positivas para a discussão da sustentabilidade. Mas com que cabeça estamos olhando para isso? Com a cabeça do presente ou do passado?
Vejo uma necessidade enorme de pensar sobre isso, uma vez que temos um futuro com diversas oportunidades, ainda mais no Brasil, cujo papel é fundamental na garantia da segurança alimentar global.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já alertaram o mundo sobre a necessidade de aumentar em 20% a produção alimentar na próxima década. Nesse contexto, o Brasil precisará elevar a produção em 40% com eficiência, tecnologia e sustentabilidade.
Mas quais os caminhos? Nós temos pensado bastante sobre isso na The Yield Lab Latam e tentamos responder alguns desses questionamentos com três “insiders” de impacto do mundo de venture capital em evento recente interno nosso.
Referências no assunto participaram de uma roda de conversa conosco, como Ana Laura Fernández Campillo (chefe de investimento de impacto da gestora Fondo de Fondos México), Julia Maggion (CEO do Ateha ClimateHub argentino) e Jairo Trad (co-fundador e CEO da Kilimo). A Kilimo é uma startup de tecnologia climática pioneira na compensação do uso de água na América Latina, que recebeu investimento da The Yield Lab Latam.
Então, como nós quatro concordamos em evitar a dinâmica usual do painel “você diz isso, eu digo aquilo”, usamos o “formato mental 6W”, em que cada um dos painelistas fez o exercício de tentar responder em um “tweet” perguntas sobre investimentos de impacto com base nos pilares: o quê (what), como (how), por que (why), quando (when), quem (who) e onde (where).
Esse é um hábito que nós, da The Yield Lab Latam, sempre praticamos e incentivamos os empreendedores a praticarem. Responder essas seis perguntas sobre o projeto em que estão trabalhando. O resultado foi um painel de discussão incrível, divertido e rico, com insights poderosos, que achamos que valia a pena passar adiante.
Ana Laura Fernández Campillo trouxe uma visão interessante e simples. Segundo ela, um investimento de impacto é aquele que tem a intenção desde o início de gerar um impacto social e/ou ambiental positivo, que deve ser mensurável e deve buscar gerar pelo menos um dos cinco resultados: acesso, acessibilidade, oportunidade, empoderamento e sustentabilidade.
Aí vem o como fazer isso e muitas pessoas, treinadas no velho estilo corporativo do século 20, vivem no paradigma da escassez, o jogo de soma zero, o vencedor leva tudo, que não permite chegar lá.
Aqui o debate ganha mais musculatura, com a participação de outra painelista: Julia Maggion, uma das co-fundadoras do movimento Empresa B no Brasil. Pessoas como ela já estão respondendo à lógica non sequitur das práticas de negócios existentes, ou seja, indo na contramão de premissas usuais, e explorando novos modelos sustentáveis nos quais passamos de acionistas a stakeholders, de modelos centralizados para modelo web3.
Depois de ouví-la, fica claro que o ponto cerne para mudarmos a forma de aproveitar as oportunidades e garantir eficiência na produção de alimentos é mudando a narrativa da economia, não tentando “consertar nada”. A ideia é evoluir o bem-estar das pessoas e proteger e regenerar a natureza.
No debate, também falamos sobre atração de talentos para este novo mercado. O Jairo Trad, da Kilimo, climatech que não só está fornecendo serviços de otimização de irrigação no agro latinoamericano, mas agora está vendendo essas “poupanças” a grandes corporações, para que eles compensem seu consumo adicional, trouxe a visão de que, se queremos atrair bons profissionais, precisamos estar engajados. Não temos tempo a perder.
Precisamos ter claro o que queremos como companhia, manter o propósito de criar um bom time e, então, construir uma boa empresa. No fim do dia, a mensagem dos painelistas é “que o investimento de impacto é um bom negócio, mas que precisa ser bem feito. As empresas mais resilientes são aquelas que têm propósito, reafirmaram.
É cada vez maior a preocupação dos consumidores com sustentabilidade, mudanças climáticas, fontes alternativas de energia, gestão da água, segurança alimentar e emissões de gases de efeito estufa. As agtechs, portanto, necessitam criar soluções para alguns dos problemas mais críticos que o planeta enfrenta.
Neste sentido, lembro de uma citação de Jairo, que durante a nossa roda de conversas foi enfático em evidenciar algo de suma importância: a sobrevivência da raça humana, como espécie, está em risco. Então, é por isso que precisamos focar nos investimentos de impacto. Porque precisamos equilibrar nossa relação com o ecossistema para ontem.
Termino esse artigo provocativo com uma última questão que foi levantada durante o encontro e sobre a qual eu pedi para vocês pensarem no início do artigo. A nossa hora é agora? Ou já foi há 20 anos?
Na minha opinião, é fato que o setor precisa de investimento significativo na indústria agroalimentar e que esse investimento deve ser direcionado a ações de impacto social e ambiental positivo.. E o lugar para isso acontecer é aqui, na América Latina em geral, e no Brasil em particular. Produzimos dois terços do superávit mundial de alimentos. Nossas possibilidades estão à altura de nossas responsabilidades para alimentar um mundo de 10 bilhões de pessoas até 2050… Vamos juntos começar?
Santiago Murtagh é Managing Partner da gestora The Yield Lab Latam, parte da rede global do The Yield Lab, fundo pioneiro de investimento de risco especializado em tecnologia para a agricultura. Desde 2017, com escritórios na Argentina, Brasil e Chile, a gestora The Yield Lab Latam investe em ag&food techs da região que visam tornar o sistema global de produção mais sustentável e eficiente.