Onde está o capital para investir nas ag&food tech latino-americanas?

Especialistas do setor levantam suas hipóteses, e mantêm tom otimista quanto ao crescimento dos aportes no médio e longo prazos

Julho 5, 2023

Apesar da relevância da América Latina para o agronegócio, os investimentos no setor na região ainda são incipientes se comparados à realidade de outras geografias (Imagem: Canva)

Por Marina Salles

Apesar da relevância para a produção global de alimentos, a América Latina respondeu por apenas 5% dos US$ 29,6 bilhões investidos por Venture Capitals em ag&food techs em 2022, de acordo com levantamento realizado pelo AgFunder em parceria com a gestora brasileira SP Ventures.

A cifra de US$ 1,7 bilhão mostra que ainda há espaço de sobra para a região fazer jus a seu protagonismo na cadeia que vai do campo à mesa do consumidor, apesar da crise e da dificuldade de captação das startups no mundo todo. Os investidores estão otimistas (pelo menos boa parte deles), primeiro pelo fato de o agro ser resiliente e, segundo, porque os valuations das ag&food techs Latam são mais “pé no chão”, leia-se realistas ou fidedignos, do que os das big techs no Vale do Silício. Mas, se é assim, por que o dinheiro não chega? Ou onde está indo parar? 

Segundo Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures, que compartilhou sua visão com o AgTech Garage News durante o World AgriTech South America Summit, tudo é muito recente no mundo das agtechs na América Latina. Muito embora para quem está imerso nesse mercado (como eu, que cubro ag&food tech há uma década), a espera pela curva de crescimento pareça infindável. Fato é que transformações levam tempo e a água está passando embaixo da ponte das startups do agro Latam na visão de Jardim, ainda que em ritmo lento, puxada por três fatores principais: 

  1. Os corporate venture capitals das multinacionais estão chegando, embarcando nos fundos de VC locais, como o da SP Ventures, para fazer um reconhecimento de mercado e, quem sabe, no futuro, direcionar novos cheques por conta própria;
  2. Os fundos estrangeiros generalistas também estão chegando, com capital para investir em mercados de alta escalabilidade, como é o caso dos ag marketplaces e das agfintechs (e ele arriscou dizer que também dos biológicos, com suas agbiotechs);
  3. As rodadas maiores estão chegando, porque as fintechs que captaram US$ 10 milhões no passado, vão triplicar esse volume conforme se tornam mais maduras, levando a curva dos investimentos Latam bem mais para cima. E tem mais, segundo Chico.

"O Brasil também está ganhando fama como CEP de inovação. Não se fala mais só de Israel no mercado de agtech".

Enquanto isso, entre os fundos gringos, os argumentos se repetem.

Antes mesmo de ir ao World AgriTech, conheci no evento da gestora The Yield Lab o investidor Andrew McColm, da Closed Loop Partners, meio que por acaso. Eu estava encostada na mesa da startup ucrop.it (agtech paraguaia que visa rentabilizar a adoção de práticas sustentáveis no campo), conversando com colegas da comunidade AgTech Garage, quando ele se aproximou. Queria conhecer os possíveis empreendedores da sua primeira startup investida na América Latina. Mas, na hora, eles não estavam ali e a conversa tomou outro rumo. 

Falamos da tese da gestora Closed Loop, versada principalmente em economia circular e com um pilar de investimento em agtechs. Papo vai, papo vem, e eu quis entender melhor porque com essa tese, e um português digno de nota (dado o histórico de 10 anos morando no Brasil, no início dos anos 2000), McColm ainda não tinha uma investida brasileira no portfólio.

"Primeiro a gente precisa entender melhor o mercado, como estamos fazendo com ajuda do The Yield Lab, e aproveitar esse tipo de visita presencial para conhecer os empreendedores locais".

(— o que só reforça os pontos de Jardim).

No World AgriTech Summit, reencontrei outra fonte, o Mark Brooks, ótima referência para falar de CVCs. O entrevistei pela primeira vez quando ele estava no Syngenta Group Ventures e, agora, ele é FMC Ventures. Brooks não levou nem 5 minutos para ir direito ao ponto de que a tese agtech, como categoria de investimento de capital de risco, ainda é bastante nova.

"Simplesmente não existia esse mercado há 10 ou 15 anos. Então, historicamente, não há tantos fundos com profundo conhecimento em ag, o que está mudando com os CVCs, gestoras como a SP Ventures e outros fundos sendo criados em torno do clima, agricultura e tecnologia de alimentos".

Brooks trouxe, mais uma vez, o elemento da língua e do CEP. O Brasil é “far away” e “we don’t speak Portuguese”. A barreira da língua dificulta a aproximação dele com empreendedores locais, segundo me contou, e a recíproca às vezes é verdadeira. O inglês dos empreendedores nem sempre é suficiente para fazer um bom pitch e avançar no deal flow. Por enquanto, os gestores locais, como a SP, Barn Investimentos e a Glocal, são seus “olhos e ouvidos na América Latina”, para facilitar o acesso a boas oportunidades e direcionar aportes regionais.

Capital nacional

Mas levamos toda essa conversa em dólar porque falta $$ em R$? Silvio Passos, Presidente do Conselho do clube de investimentos AgroVen, discorda em todos os graus. Ainda que considere que muito do capital do empresário do agro brasileiro está empossado, ele vê com bons olhos a expansão dos aportes para além das terras agricultáveis.

"Assim como nas cidades, onde as pessoas comuns colocavam seu dinheiro na poupança e migraram para corretoras com vários tipos de ativos, no campo também está acontecendo um movimento de sofisticação das carteiras".

( — com o produtor considerando, cada vez mais, investir nas startups do agro).

Em pouco mais de três anos desde a fundação do AgroVen, o grupo ganhou 250 membros. Destes, 30% são corporativos e outra grande parte é de empresários agro, com envolvimento na produção agrícola e pecuária, além de ex-produtores que diversificaram seu portfólio e abriram revendas ou usinas. O clube já investiu em sete agtechs, com cheques variando de R$ 1 mi a R$ 4 mi. 

Então dinheiro tem, só não chegou aos montes. E para as startups que querem aproveitar a onda de investimentos no futuro, uma leitura imperdível é a do relatório da PwC Brasil sobre Governança nas agtechs. O levantamento cruza o que já está sendo feito pelas startups do agro e a expectativa dos investidores, considerando quatro diferentes estágios de maturidade para os investimentos. Se você quer colocar sua startup no cômputo dos próximos aportes, corre lá e baixa. Não tem como ficar sem essa informação depois de tudo que leu aqui.

Marina Salles é Editora-chefe de conteúdo do AgTech Garage, que integra o network PwC. Há 10 anos, cobre o mercado de tecnologia no agronegócio, tendo passagem por grandes veículos de imprensa, como PEGN, Globo Rural, Revista DBO e a editoria de Agronegócios do jornal Valor Econômico. Formada em Comunicação Social – Jornalismo pela ECA-USP em 2015, atualmente cursa MBA em Marketing na Esalq-USP.

 

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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