Gerações no campo: quem vai liderar o agro nos próximos 20 anos?

Em um setor em constante transformação, a trabalhabilidade e os novos formatos de trabalho são essenciais para atrair, valorizar e integrar talentos de diferentes gerações

Agosto 29, 2025

Por Cris Sabbag, Sócia e Pesquisadora na Talento Sênior

O agronegócio brasileiro responde por cerca de um quarto do PIB nacional e tem se modernizado com o uso crescente de tecnologias como biotecnologia, agricultura de precisão e automação. Esses avanços têm impulsionado a produtividade, reduzido custos e ampliado o acesso a mercados internacionais. Mas, por trás da adoção de tecnologias de ponta, permanece uma questão central: quem são as pessoas que farão o agro prosperar nos próximos 20 anos?

Responder a essa pergunta exige um novo olhar sobre a força de trabalho. É nesse ponto que entra o conceito de trabalhabilidade — a capacidade de um profissional gerar valor, propósito e renda de forma contínua ao longo da vida, independentemente da forma de contrato. Mais do que “ter emprego”, trata-se de manter-se relevante em um mercado em transformação permanente, seja como empregado formal, consultor, empreendedor ou talento sob demanda.

Diferente da empregabilidade, focada no acesso a um posto específico, a trabalhabilidade é dinâmica. Ela considera a evolução da carreira, a adaptação às novas tecnologias e a integração de múltiplas formas de atuação. No contexto do agro, isso é vital. O setor já opera em um regime híbrido: engenheiros agrônomos contratados via CLT, especialistas em drones como prestadores de serviço, consultores de ESG assessorando exportações, profissionais 50+ reposicionados como talentos sob demanda. A força de trabalho já é um mosaico de formatos — e só se tornará vantagem competitiva se houver uma gestão que reconheça e valorize essa diversidade.

Essa necessidade remete à construção de ecossistemas de pessoas. Assim como o agro há muito tempo integra cadeias produtivas complexas — da semente ao mercado internacional —, também precisa aprender a integrar cadeias de talentos. Ecossistemas que conectam trabalhadores internos, consultores externos, startups, universidades, cooperativas e fornecedores em torno de objetivos comuns. O diferencial não está apenas em atrair bons profissionais, mas em orquestrar essa rede, transformando-a em fonte de inovação, resiliência e competitividade.

O contraste internacional: o que o Brasil pode aprender

O Brasil não está sozinho nesse desafio. Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura (USDA) já alerta há anos para a escassez de jovens interessados em permanecer no campo, estimulando programas de aprendizagem contínua em comunidades rurais. Na União Europeia, a Política Agrícola Comum (PAC) financia projetos que unem digitalização agrícola a capacitação de trabalhadores mais velhos, reconhecendo que a sustentabilidade das fazendas depende tanto da tecnologia quanto da longevidade produtiva de quem as opera. Na Austrália, programas governamentais de “workforce planning” buscam atrair migrantes qualificados e integrar diferentes gerações em atividades agropecuárias.

Em todos esses exemplos, nota-se uma lógica clara: não basta modernizar o maquinário se não houver modernização da gestão de talentos. O Brasil, potência agrícola e país em transição demográfica acelerada, precisa colocar essa agenda no centro.

ESG e longevidade: as novas fronteiras

O debate sobre sustentabilidade no agro costuma enfatizar certificações ambientais, carbono zero e rastreabilidade. São pontos cruciais, mas incompletos se não incluirmos a dimensão humana. A agenda ESG pede também uma visão social de longo prazo: como valorizar trabalhadores seniores, integrar jovens, reduzir desigualdades regionais e criar condições dignas para que a vida no campo seja sustentável não só para a terra, mas também para quem a cultiva.

A longevidade populacional torna esse tema urgente. Em menos de duas décadas, o Brasil terá mais pessoas acima de 60 anos do que jovens abaixo de 14 (IBGE, Projeções 2023). Isso significa que o agro, setor com grande proporção de trabalhadores maduros, será vitrine dessa transição. Se não houver políticas de longevidade produtiva, corremos o risco de perder conhecimento acumulado e enfrentar gargalos de mão de obra. Por outro lado, se transformarmos maturidade em diferencial, o agro brasileiro pode se tornar referência mundial em como lidar com a intergeracionalidade de forma produtiva e inovadora.

Revisitar modelos de contratação

No campo, há funções que exigem estabilidade e vínculos de longo prazo, mas também existem demandas sazonais e de alta especialização que podem ser atendidas por consultores, freelancers ou profissionais sob demanda. Em países como Holanda e Canadá, consórcios agrícolas já praticam modelos flexíveis que permitem a circulação de talentos entre fazendas, empresas e centros de pesquisa. Essa lógica poderia inspirar cooperativas brasileiras a evoluírem de associações produtivas para plataformas de talentos regionais.

A trabalhabilidade conecta esses formatos ao garantir que cada indivíduo, independentemente do regime contratual, mantenha-se em constante atualização e atue como parte ativa do ecossistema.

Um novo contrato social no campo

O futuro do agronegócio brasileiro será fortalecido pela combinação entre produtividade por hectare, recordes de exportação e a capacidade de cultivar talentos e inovação. A arquitetura de talentos passa a ser o verdadeiro insumo estratégico: integrar diferentes gerações, formatos de trabalho e competências em uma rede colaborativa.

Trabalhabilidade e ecossistemas de pessoas não são conceitos periféricos. Eles constituem a base de um novo contrato social no campo: um pacto que assegura dignidade e protagonismo aos trabalhadores, flexibilidade e resiliência às empresas e sustentabilidade às cadeias produtivas.

A provocação é clara: se o agro brasileiro se orgulha de ser celeiro do mundo, está pronto para ser também celeiro de talentos?

No agro, cultivar talentos é tão essencial quanto cultivar grãos. É essa lógica que definirá quem liderará a próxima fronteira da inovação agrícola.

Alexandre Espinosa

Cristina Sabbag, Sócia e COO da Talento Sênior, ecossistema de Talent as a Service que promove a trabalhabilidade de profissionais 45+ sob demanda. Mestre em Gestão para Competitividade pela FGV, com pesquisa sobre envelhecimento e diversidade etária nas organizações, tem mais de 20 anos de experiência executiva em empresas como Grupo Pão de Açúcar e Banco Original. É pesquisadora, consultora e palestrante, referência em trabalhabilidade, etarismo e gestão multigeracional.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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