Setembro 19,, 2025
Por Chau Kuo Hue
A relação entre o ser humano e a natureza é ancestral e profundamente simbólica, manifestando-se cotidianamente em expressões culturais, artísticas ou filosóficas. A frase “uma flor é um mundo, uma folha é iluminação”, inspirada na filosofia budista, por exemplo, revela como até os menores elementos naturais carregam significados vastos.
No entanto, essa conexão que gerou, ao longo dos tempos, inúmeras reflexões e indeléveis poemas, está gradativamente esmorecendo. O desmatamento, a extinção de espécies de animais e a poluição do ar são alguns dos passivos com os quais convivemos há mais tempo. Mas, neste artigo, chamamos a atenção para outro problema crescente: o descarte de produtos não degradáveis no meio ambiente.
De acordo com o Programa Ambiental das Nações Unidas (Unep), em 2023, a geração de resíduos sólidos urbanos foi de 2,3 bilhões de toneladas. Para se ter uma dimensãol, na safra 2025/26 estima-se que a produção global de milho e trigo chegue a 2 bilhões de toneladas. Ou seja, o que a sociedade lança em resíduos no meio ambiente é equivalente à produção das duas culturas mais consumidas mundialmente a cada ano.
Tão preocupante quanto o volume de resíduos descartados anualmente é a composição desses materiais. Grande parte dos descartes é formada por plásticos, que, além de serem derivados de fontes fósseis, apresentam baixa capacidade de degradação no meio ambiente.
Em 2014, por exemplo, foram produzidas 311 milhões de toneladas de plástico; atualmente, esse número já chega a 410 milhões de toneladas. Desse total, aproximadamente 57 milhões de toneladas acabam sendo lançadas diretamente no meio ambiente como resíduos plásticos não degradáveis, segundo dados do The Guardian.
Embora se acredite que os maiores impactos ambientais afetem principalmente os animais e a vegetação, essa premissa precisa ser repensada. Assim como uma bactéria — invisível, silenciosa e discreta — o lixo plástico também age de forma sutil, mas perigosa.
Estima-se que o ser humano consuma, em média, cerca de 50 mil partículas de microplásticos por ano, seja por meio dos alimentos, da água ou até mesmo pela respiração. Estudos já identificaram essas partículas nos pulmões e até na região cerebral, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).
Em locais remotos e pouco habitados, como o Rio Solimões, na Amazônia, foram encontradas 5.725 partículas de microplásticos por litro de água do rio. Entre os possíveis efeitos à saúde estão inflamações respiratórias crônicas e o agravamento de sintomas de asma.
Diante desta situação, as startups desempenham um importante papel na tentativa de desacelerar essa tendência e reverter essa situação delicada a qual nos encontramos. Já existem, no mercado, tecnologias que cumprem essa premissa.
A produção de embalagens biodegradáveis a partir de resíduos orgânicos, como frutas, são exemplos disso. A Embrapa, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), desenvolveu filmes plásticos utilizando casca de banana.
Outra inovação é o uso de micélios — estruturas radiculares presentes em fungos — para a fabricação de plásticos biodegradáveis, aproveitando resíduos ricos em lignina. A utilização de materiais à base de micélio tem surgido como uma solução promissora, oferecendo uma abordagem inovadora e sustentável para a produção de uma ampla variedade de produtos. A necessidade deste novo grupo de biomateriais tenta atender novas demandas no campo da economia circular.
Entre os benefícios dos biocompósitos de micélio estão: a possibilidade de uso agrícola, por conterem matéria orgânica que enriquece o solo; a possibilidade de reintegração na produção de outros compósitos, já que os materiais utilizados são naturalmente compostáveis; e a maior segurança ambiental em comparação aos plásticos convencionais.
Porém, a substituição dos materiais plásticos por outros feitos à base de produtos orgânicos, ainda faz parte de um processo recente e que necessita de uma nova configuração logística para conectar a origem dos insumos com a localização da demanda.
Para que isso aconteça, será necessário redesenhar os sistemas de coletas de resíduos nas áreas urbanas, a fim de garantir escalabilidade aos projetos, além de reduzir os preços dos bioprodutos, a fim de que se tornem competitivos em relação aos preços que já existem no mercado.
Isso se torna especialmente relevante diante do fato de que muitas empresas ainda não estão preparadas para pagar um valor adicional por soluções sustentáveis em um ambiente altamente competitivo.
Esses e outros fatores são essenciais para viabilizar a comercialização e o uso efetivo de itens que possam reverter a atual tendência de acúmulo de plásticos não degradáveis e seus impactos progressivos sobre a saúde humana e o meio ambiente.
Chau Kuo Hue é Country Manager da Ethikabio. Trabalhou no setor financeiro e na indústria de alimentos, tendo experiência também como consultor econômico.