Por Izabel Fittipaldi, CEO da Protect Mais
“A qualidade não se conquista retrospectivamente.” A frase parece dura, mas traduz com precisão o momento atual em que vivemos. Basta olhar ao redor: enchentes históricas, animais ilhados em telhados, secas extremas, cidades pressionadas por eventos climáticos sucessivos e a presença crescente de microplásticos no meio ambiente – já classificado como risco à saúde pública. A conta chegou e não há curva de aprendizado que apague o estrago já causado.
Ainda assim, seguimos discutindo o problema como se estivesse fora do nosso alcance resolvê-lo. Como se o trem estivesse desgovernado e nós estivéssemos apenas observando a paisagem. Para que esse cenário mude, é preciso revisar as decisões que estão no nosso dia a dia, especialmente aquelas tomadas ainda na fase de projeto.
Não necessariamente. Mas atribuir a culpa exclusivamente ao plástico, com certeza, é o caminho mais fácil. Como se o polímero fosse capaz de se deslocar sozinho para o meio ambiente, causando diferentes impactos na fauna e na flora. Essa visão ignora um ponto central, que parece óbvio, mas é esquecido de modo geral: o plástico não é o inimigo. O projeto da embalagem é.
À primeira vista, muitas embalagens parecem recicláveis. Elas estão nas prateleiras do supermercado, no café da manhã e na rotina das famílias. A caixa de leite é um exemplo clássico. Embora seja amplamente associada à reciclagem, sua estrutura combina papel, plástico e alumínio em camadas integradas a uma única forma. Essa combinação, eficiente para a conservação do alimento, dificulta e encarece a separação química dos materiais no processo de reciclagem, fazendo com que grande parte dessas embalagens não retorne ao ciclo produtivo com facilidade.
Esse modelo se repete com diversas outras embalagens de alimentos presentes no dia a dia, como filmes flexíveis, sachês, blísteres de medicamentos, entre outras. O ponto é: plástico monocomponente é reciclável. Unido a outros materiais, incompatíveis entre si, ele deixa de ser.
A boa notícia? Existe um caminho capaz de auxiliar na redução de resíduos gerados a partir das embalagens.
Se quisermos transformar embalagem em recurso — não em passivo ambiental — precisamos começar pelo óbvio: simplificar a composição. Reduzir o número de camadas e de química redundante aumentam a compatibilidade com os processos da reciclagem e diminuem custos com a descontaminação. Porém, essa reintegração ao ciclo das embalagens não é apenas uma escolha ambiental. Trata-se de uma decisão estratégica.
É aqui que os aditivos nanotecnológicos entram como protagonistas. Eles conseguem entregar propriedades de barreira equivalentes às de duas ou três camadas químicas distintas, mantendo o mesmo nível de proteção funcional. As camadas desenvolvidas em escala nanométrica conseguem proteger alimentos e outros produtos sensíveis contra agentes degradantes, preservando a qualidade ao longo do ciclo de vida do produto.
Há quase uma década a Protect Mais faz isso. Um exemplo claro é o polietileno (PE), presente na maior parte das embalagens flexíveis. Um material totalmente reciclável, mas que frequentemente é combinado à poliamida, inviabilizando a sua reciclagem.
Ao aprimorar as propriedades de barreira do próprio PE, por meio de aditivos nanotecnológicos, torna-se possível eliminar a necessidade da poliamida, simplificando a estrutura das embalagens multicamadas sem comprometer o desempenho. O resultado é uma solução mais limpa, compatível com a economia circular e alinhada ao compromisso de sustentabilidade.
Menos insumo, mais performance. Trata-se de uma abordagem que combina desempenho técnico, eficiência de materiais e maior circularidade.
Se passássemos a desenhar nossas embalagens considerando todo o seu ciclo — uso, reuso, reciclagem e reprocessamento — estaríamos, em poucos anos, reduzindo drasticamente o volume de lixo gerado. Mais do que isso: transformaríamos o planeta “sem recursos e cheio de resíduos” em um planeta “cheio de recursos e com menos resíduos”.
A qualidade, de fato, não se conquista retrospectivamente. Mas pode — e deve — ser conquistada agora. Essa virada não depende de um único ator. Ela está ao alcance de quem decide projetar melhor, produzir de forma mais inteligente e liderar essa mudança estrutural.
Menos resíduos no ambiente, mais recursos em circulação e um futuro sendo construído no agora.
Izabel Fittipaldi é farmacêutica bioquímica, especializada em embalagens e criadora da Protect Mais. Na empresa, lidera a área de Pesquisa e Desenvolvimento. Com uma sólida trajetória em nanotecnologia aplicada a polímeros, desenvolvimento de produtos e gestão de projetos complexos, também compartilha seu conhecimento como consultora em economia circular, orientando empresas a minimizar seu impacto ambiental e gerar valor por meio da reintrodução estratégica de resíduos e insumos na cadeia produtiva.