O que redefine o cenário das AgTechs em 2026

Na análise do BR Angels, maturidade do mercado e discussões em torno do acordo Mercosul–UE criam novas oportunidades em investimentos e M&A.

Fevereiro 5, 2025

Por Orlando Cintra

Quem acompanha de perto o ecossistema de inovação — seja investindo, empreendendo ou operando no dia a dia do agronegócio — sentiu o peso dos últimos dois anos. Depois de um ciclo de abundância que marcou o início da década, 2024 e 2025 foram anos de ajuste, aprendizado e, sobretudo, amadurecimento para o venture capital na vertical AgTech, tanto no mundo quanto no Brasil.

Na conjuntura global, os dois últimos anos consolidaram o fim da lógica baseada apenas em crescimento acelerado e narrativas promissoras. O capital ficou mais escasso, os processos de diligência mais rigorosos e a régua de expectativa mais alta. Ainda assim, o agro mostrou resiliência, afinal, os desafios estruturais só aumentaram e a demanda global se mantém constante.

No Brasil, onde a produção não para, vimos menos rodadas, tickets menores e uma preferência quase natural por empresas mais maduras, com receita recorrente e clientes relevantes. Muitas AgTechs precisaram rever estratégias, abandonar discursos genéricos de inovação e provar, na prática, que resolvem dores reais do campo. 

A estratégia de execução do BR Angels

Do ponto de vista de quem investe, esse período também foi marcado por conversas mais francas, valuations mais racionais e uma mudança saudável de mentalidade: menos promessa, mais execução.

Ainda que tenha sido duro para founders, foi um movimento positivo. Tanto é que um ano atrás, o BR Angels lançou seu sétimo batch — nome dado a rodada estruturada de seleção e investimento em startups, que reúne um grupo específico de empresas avaliadas dentro de uma mesma tese —, exclusivamente direcionado ao agronegócio, algo que nunca havíamos feito.

Foi, inclusive, uma ideia que surgiu dentro da comunidade de investidores, que desejavam repetir a experiência que já havíamos tido em 2021 e 2023, respectivamente com iRancho – sistema completo de gestão pecuária para controle de rebanho, finanças, nutrição, manejos e indicadores de desempenho de bovinos de corte – e Inspectral, deep tech, especializada em inteligência geoespacial e monitoramento ambiental utilizando inteligência artificial (IA) e imagens de satélites e drones. 

Uma tese específica foi então estruturada com base em três critérios: a investida precisaria ter tecnologia disruptiva, escalabilidade e um time de gestão interno qualificado e resiliente. Encontramos e investimos na capixaba Olho do Dono, que atua no monitoramento do peso do gado por meio de câmeras 3D portáteis e tecnologia proprietária.

A nossa ideia era encontrar empresas que possuíssem uma tese de saída para os investidores, também de olho num movimento interessante dos anos de ajuste: o fortalecimento do mercado de fusões e aquisições. 

Esse fortalecimento voltou a aparecer em 2025, entre janeiro e novembro, o agronegócio registrou 60 operações de M&A, um avanço de 15 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da PwC Brasil. O movimento foi liderado por investidores nacionais e puxado por segmentos como agropecuária e frigoríficos.

Sinais de um novo ciclo 

Em 2026, esse protagonismo se acentua: empresas fora dos grandes centros, especialmente em segmentos como logística, armazenagem, insumos e serviços ao produtor, têm ganhado maior atratividade em processos de M&A, rompendo antigos estigmas de gestão e reforçando o agro como classe de ativos de alto valor estratégico no Brasil.

No mercado de venture capital, o sentimento começa a mudar talvez com mais cautela. Globalmente, a expectativa é de uma retomada gradual, ainda distante dos excessos do passado, porém baseada em fundamentos mais sólidos.

O apetite por risco deve voltar de forma seletiva, privilegiando AgTechs capazes de endereçar problemas como: adaptação às mudanças climáticas; descarbonização; uso inteligente de dados; automação, robótica agrícola e aplicações práticas de inteligência artificial no campo. O investidor, cada vez mais, buscará negócios escaláveis, integráveis aos ecossistemas existentes e com visão clara de expansão internacional.

Em âmbito nacional, este ano que se inicia pode representar um ponto de inflexão relevante. O mercado está mais maduro, os empreendedores mais experientes e os investidores mais conscientes do tempo necessário para gerar valor no agro. 

O efeito Mercosul–UE

Nesse contexto, o acordo recém-firmado entre Mercosul e União Europeia surge como um possível catalisador. Ao ampliar o acesso a mercados e elevar as exigências de sustentabilidade, rastreabilidade e compliance, o acordo tende a aumentar a demanda por tecnologia.

O acordo criar um dos maiores blocos de livre comércio bilateral do mundo, com cerca de 718 milhões de pessoas e economias somadas em US$ 22 trilhões, e abre espaço para avanços tarifários graduais em produtos agrícolas e insumos estratégicos, conforme previsto no acordo.

Entre os itens contemplados por redução ou cotas progressivas estão frutas tropicais, carnes e commodities como milho e arroz, além de setores industriais importadores de tecnologia e equipamentos. 

Esse avanço regulatório tem potencial para ampliar significativamente os mercados endereçáveis de AgTechs brasileiras, estimulando soluções que se alinhem a padrões técnicos, ambientais e de rastreabilidade exigidos pelos importadores europeus. Para investidores e players atentos, trata‑se de um cenário que pode abrir oportunidades relevantes ao longo dos próximos anos.

Assim, as AgTechs brasileiras têm a chance de se posicionar não apenas como fornecedoras locais, mas como ativos estratégicos em cadeias globais, algo extremamente atraente para fundos internacionais e potenciais compradores europeus.

Mais do que falar em uma simples retomada de investimentos, 2026 aponta para um novo ciclo. Um ciclo com menos euforia, mais critério e mais responsabilidade. Para quem investe, é um cenário positivo: menos ruído, mais qualidade e melhores oportunidades de construir, junto aos empreendedores, negócios realmente relevantes para o futuro do agro.

Alexandre Espinosa

Orlando Cintra é fundador e CEO do BR Angels, uma das principais redes de executivos que apoiam startups no Brasil. Com mais de 20 anos de experiência em liderança e tecnologia, construiu uma sólida carreira em grandes empresas antes de se dedicar ao fortalecimento do ecossistema de inovação. À frente do BR Angels, atua conectando capital, conhecimento estratégico e networking qualificado para impulsionar o crescimento de startups de alto potencial.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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