Novembro 24, 2021.
Por Marina Salles
Um em cada mil, isso mesmo que você leu… 1 em cada 1.000 pesquisadores e cientistas sociais terminam sendo altamente citados a ponto de entrar para a lista Higly Cited Research produzida pela Web of Sicience (WoS), uma das maiores bases de dados globais de citações, pertencente à Clarivate Analytics.
Em 2021, o pesquisador brasileiro Luiz Henrique Capparelli Mattoso, da Embrapa Instrumentação, sediada em São Carlos (SP), — que foi citado mais de 14 mil vezes por seus pares — entrou para a lista. Um feito alcançado somente pelos cientistas mais influentes do mundo.
Em 2021, menos de 6.700, ou cerca de 0,1%, dos pesquisadores a nível global, de 21 campos de pesquisa, tiveram esta oportunidade. Mattoso é destaque na área de Ciências Agrárias e seu estudo mais citado trata dos nanocristais de celulose obtidos a partir de fibras de casca de coco. O material, de altíssima resistência, comparável à do aço, pode ser incorporado a outros insumos, como o plástico, para aumentar sua rigidez.
O estudo, publicado pelo jornal Carbohydrate Polymers da editora Elsevier e citado 920 vezes, envolve pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical (Fortaleza-CE), do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Ainda em 2006, a linha de pesquisa em nanocristais conduzida por Mattoso ganhou o reforço da doutoranda Ana Carolina Bibbo, engenheira de materiais, que fundou em 2017 a startup BioNano, especializada na obtenção de nanocristais de celulose.
Os nanocristais, conforme explica Ana Carolina, são a parte mais resistente dos vegetais e de tudo que contém celulose, desde árvores até fibras e resíduos de dendê e coco. Normalmente, para maior rendimento, se trabalha ou com a polpa do eucalipto, um produto commodity, ou com a fibra do algodão, fácil de encontrar e riquíssima em celulose.
Para obter os nanocristais, a pesquisadora afirma que é necessário recorrer a um processo químico chamado hidrólise ácida, que remove a parte amorfa do material e mantém apenas o cristal nanométrico.
Em escala laboratorial, porém, é possível obter apenas 50 gramas de nanocristais a cada 10 dias. Graças a um reator instalado no Centro de Desenvolvimento de Indústrias Nascentes (CEDIN), pertencente à prefeitura de São Carlos (SP), onde a startup está incubada, a expectativa é passar a produzir, no futuro, 5 quilos de nanocristais por dia.
Atualmente, a produção da BioNano se dá em escala piloto industrial. Para comercializar seu produto, a BioNano tem um acordo de transferência de tecnologia com a Embrapa.
Com relação às aplicações dos nanocristais, o céu é o limite, segundo Ana Carolina. De aspecto agulhado e circular, o nanocristal pode ser usado para reforçar polímeros e plásticos, além de cosméticos e pomadas. Outra possibilidade é servir de reforço para tintas, deixando sua superfície mais resistente a rachaduras. No caso do papel, também o deixa mais liso e brilhante.
Ao longo dos últimos anos, a BioNano atendeu clientes do ramo de plásticos, filmes biodegradáveis e até da construção civil, da área de telhas e chapas. “O material tem várias aplicações e continua sendo celulose, então é biodegradável e fonte renovável, com alta capacidade de aumentar as propriedades mecânicas de diversos outros insumos”, diz a pesquisadora. Seu aspecto final é de um produto em pó, bem fino. Ainda em suspensão, o material pode ser colocado em meio líquido.
Em 2016, a consultoria norte-americana Market Research Store calculou que o mercado de nanocelulose foi de US$ 65 milhões em 2015 e que chegaria a US$ 530 milhões em 2021, com um crescimento anual de 30% no período.