Julho 7, 2021
Quanto a atividade pecuária emite de gases de estufa (GEE)? E quanto o sistema em torno dela é capaz de sequestrar? A Embrapa conseguiu responder a essas perguntas por meio de experimentos realizados 100% a campo durante os últimos dois anos no bioma Mata Atlântica, e que estão entre os primeiros do gênero nesses moldes no Brasil.
Patrícia Perondi Anchão Oliveira, pesquisadora da Embrapa, afirma que tem sido comum na pecuária registrar as emissões de GEE, mas que nem sempre o balanço entre o que a atividade emite e o que ela sequestra é considerado. Nos experimentos da Embrapa, essa “contabilidade do carbono”, considerou não apenas os gases emitidos pelos animais, mas também o efeito do crescimento das plantas do entorno, seja das pastagens ou do caule das árvores, como o eucalipto.
Conforme a pesquisa, o sistema de média lotação — com 3,3 unidades animais (UA) por hectare e em que se recuperou a pastagem degradada — teve o melhor saldo. Esse sistema foi capaz de neutralizar as emissões de gases de efeito estufa dos bovinos e ainda gerar créditos de carbono, correspondentes ao que seria produzido por 6 árvores de eucalipto.
Os resultados podem ser usados para parametrizar modelos que medem o sequestro de carbono, subsidiar políticas públicas, embasar alternativas de mitigação e fomentar novas análises por empresas governamentais, privadas e a comunidade a científica, em um mercado de créditos de carbono crescente no mundo todo. O projeto também gerou informações passíveis de serem aplicadas no aprimoramento de normas e mecanismos de garantia da qualidade, segurança e rastreabilidade dos produtos pecuários.
O objetivo principal da pesquisa foi contribuir para a competitividade e sustentabilidade da pecuária brasileira por meio do planejamento, desenvolvimento e organização de dados que estimaram a participação dos sistemas de produção agropecuários na dinâmica de gases de efeito estufa em quatro níveis de intensificação (desde as pastagens degradadas até as pastagens altamente intensificadas e irrigadas).
Mas, se por um lado a pesquisa apontou que existem sistemas que podem gerar produtos pecuários com emissões neutralizadas ou com créditos de carbono, por outro também identificou as desvantagens de se manter as pastagens degradadas e a necessidade de recuperá-las. Nas pastagens degradadas, ficou provado que chegam a ser necessárias 63,9 árvores para abater as emissões de um único bovino jovem.
No sistema irrigado com alta lotação, que demanda energia elétrica para funcionar, o número de árvores requeridas para abater as emissões foi de 29,11 por garrote. Já no sistema de sequeiro de alta lotação o número foi de 1,08 árvore por garrote.
Assim, quando computado o impacto dos insumos no balanço de carbono, somente o sistema com média lotação em sequeiro gerou créditos de carbono.
Os resultados foram publicados na revista britânica Animal, da Universidade de Cambridge, Inglaterra. O trabalho é assinado por oito pesquisadores, cinco deles da Embrapa Pecuária Sudeste.
De acordo com a pesquisadora Patrícia Oliveira, a recuperação de pastagens e a intensificação da produção de bovinos melhoram o sequestro de carbono e mitigam as emissões de gases de efeito estufa, além de ter um efeito poupa-terra.