HummingBird, startup termômetro-da-sustentabilidade no campo, levanta bandeira da IA na COP 26

Presente em 10 países e 54,8 milhões de hectares, a agtech enxerga na tecnologia uma ferramenta para disseminar a agricultura regenerativa 

Novembro 10, 2021.

Por Marina Salles

“Nós já vimos os governos se comprometerem a frear o aumento da temperatura em 1,5 ºC, ser carbono-neutro até 2050, cortar as emissões de gases de efeito estufa até 2030. E os governos são, sim, muito bons em diagnosticar problemas, mas do que nós precisamos agora é da tecnologia em ação”, afirma Will Wells, CEO da HummingBird, que foi convidada a participar da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU em Glasgow, na Escócia.

Por meio do sensoriamento remoto, aprendizado de máquina e visão computacional, a agtech se tornou uma das referências mundiais em medir o grau de sustentabilidade de diferentes áreas agrícolas. 

Presente em 10 países, 54,8 milhões de hectares e mais de 100 grandes clientes (como Cargill e Rabobank) a agtech britânica Hummingbird já ajudou a evitar as emissões de mais de 45 mil toneladas de gás carbônico na atmosfera desde a sua fundação, há cinco anos. De lá para cá, também levantou US$ 20 milhões em investimentos, em rodadas com participantes como a Agência Espacial Europeia e a gigante química alemã Basf. 

Pronto para mudar o mundo

“Eu me comprometi, profundamente, em fazer da Hummingbird uma grande história de sucesso e, na COP 26, minha agenda é a da inteligência artificial como forma de promover a agricultura regenerativa”, diz Wells.

Muito falada nos últimos tempos, a agricultura regenerativa chega para criar um novo patamar de sustentabilidade no campo. Isto porque, mais do que reduzir os impactos da atividade agrícola no meio ambiente, busca transformá-la em geradora de impactos positivos. 

Com carreira na área financeira, Wells decidiu empreender num ramo que o apaixona desde a infância: a agricultura (Foto: Hummingbird)

Wells entende, melhor do que ninguém, o senso de urgência pelo qual o planeta passa. Foi dentro de um quarto de hospital, entre 2013 e 2014, quando estava internado tratando um câncer, que ele teve a ideia de criar a HummingBird, agora integrante das discussões na COP 26 no âmbito do Programa #TechForOurPlanet promovido pelo governo britânico.

Até então, a carreira do empreendedor tinha sido no mercado financeiro e Wells resgatou as memórias da infância, de quando vivia com os pais, obcecados por plantas, no interior do Reino Unido, para fundar um negócio que fizesse a diferença para as futuras gerações. Hoje, além da Hummingbird, ele se dedica ao fundo de investimentos Beetle Labs (laboratório do besouro, em português). Os dois nomes são uma homenagem aos polinizadores, guardiões da biodiversidade. 

Medindo o grau de sustentabilidade das lavouras

Traduzindo em uma imagem o que a empresa faz, Wells diz: “Nós nos vemos como um grande equipamento de ressonância magnética que, por meio do sensoriamento remoto, ou seja, de dados de satélites e radares, consegue olhar minuciosamente para a saúde do solo. 

A partir daí, é possível medir a biomassa, distinguir diferentes culturas, identificar desmatamentos, práticas de rotação, predizer a produtividade e a disseminação de doenças — como um verdadeiro “termômetro” que, direto do espaço, sem tocar a Terra, diz quão sustentável uma área é. 

Nossa missão é permitir que nossos clientes possam medir a sustentabilidade da cadeia da qual fazem parte. A gente é uma ferramenta de medição de boas práticas e dos resultados dessas mesmas boas práticas"

Dando um exemplo prático, se há dois anos um produtor mudou do manejo convencional para o conservacionista, a startup consegue identificar essa situação via análise remota do solo e ainda emitir um relatório com suas constatações. O objetivo é dar transparência ao processo de transformação das propriedades, enquanto elas se tornam mais sustentáveis.

A Hummingbird também fornece suas análises traduzidas em mapas, que dão insights, para otimização de aplicações de defensivos, e provê, em média, uma redução de 30% no uso desses produtos.

No Brasil, o beija-flor aterrissou no mesmo ano da fundação e a expectativa é que continue a voar alto principalmente entre os médios e grandes players da cadeia de insumos, alimentos e crédito para o agronegócio. Dos 60 funcionários da empresa, cerca de cinco operam a parte comercial no país.

“O Brasil é um lugar fantástico para fazer negócios, mas também um lugar difícil, seja pelo tamanho ou questões de digitalização que ainda precisam acontecer. Mas há muita tecnologia aplicada também, grandes companhias trabalhando e querendo engajar milhares de produtores”, afirma Wells. Do ponto de vista da sustentabilidade, ele vê com bons olhos o potencial que a solução da Hummingbird pode ter no país, já que, pessoalmente, acredita em uma economia carbono-negativa (que sequestra mais do que emite) em vez de apenas carbono-neutro.

No momento, a gente está consertando, revertendo, construindo um amortecedor para o futuro. E o que é animador para a agricultura brasileira é que sua produção pode ser carbono-negativa"
IA, transparência e privacidade

Convicto do potencial da IA para ajudar a clarear o grau de sustentabilidade das fazendas e mitigar os efeitos do aquecimento global, Wells tem destaca a necessidade de falar também de privacidade na Era Digital.

“Pense sobre as fazendas verticais e o sensoriamento que existe lá. Pense na edição genética para melhoramento de plantas. Pense na IA que a Hummingbird usa para analisar terabytes de dados em tempo real. Nós já avançamos muito, mas eu me sinto seguro em dizer que não tocamos nem na superfície do que a inteligência artificial pode fazer, o que abre um potencial enorme, mas também inspira cuidados”, alerta o empreendedor.

Segundo ele, na Europa, o acesso aos subsídios para a agricultura já exige dos produtores um alto grau de transparência e o que a Hummingbird propõe é dar celeridade na hora de reportar essas informações — seja na Europa, no Brasil ou no mundo.

Hoje, quem está reportando cada dado? Quando? Para quem? Como? Em qual formato? Difícil dizer… e a proposta da startup é clarear esse cenário recorrendo à tecnologia no espaço. “Na Europa os produtores já estão reportando muitos dados, mas à mão e em papel. Nesse contexto, a IA não vem para promover uma revolução, mas um jogo de eficiência”, diz, categoricamente.

No caso da própria Hummingbird, a ideia é que os produtores não precisem mais reportar uma dezena de vezes centenas de pontos de dados para o governo, o que poderia ser feito num envio único e definitivo em pelo menos 50% dos casos, segundo estimativa do empreendedor.

É tudo uma questão de aliar tecnologia, eficiência e transparência, na visão dele: “Ninguém vai ganhar um prêmio por substituir a mudança climática por um desastre com a inteligência artificial. Sem transparência, nos dois casos, nós estaríamos em um filme de Steven Spielberg”, afirma o CEO da Hummingbird.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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