Invaio levanta US$ 88,9 milhões e mira expansão também no mercado brasileiro de citros

Empresa de tecnologias de precisão na aplicação de insumos e de novos defensivos anunciou Série C nos EUA

Junho 2, 2021.

Por Marina Salles

De que uma das peças chave para a agricultura sustentável está na aplicação otimizada de defensivos agrícolas, ninguém duvida. Mas que a aplicação já pode ser feita “na veia das árvores”, mirando somente a praga ou doença-alvo e com compostos encontrados na natureza, é o que a startup americana Invaio tem provado ser possível. 

Fundada em 2018 em Boston, nos EUA, e controlada pelo fundo Flagship Pioneering, a Invaio já captou US$ 142 milhões no mercado, sendo US$ 88,9 milhões na semana passada. Da rodada Série C, recém-anunciada, participaram investidores como a Stage 1 Ventures, Bluwave Capital e Alexandria Venture Investments.

Avram Slovic, Diretor Comercial da Invaio na América Latina, conta que a empresa faz parte de um grupo seleto formado por quatro startups agrícolas de um portfólio de 41 startups da Flagship Pioneering, que ao longo da sua história já criou mais de 109 empresas tão disruptivas quanto a Invaio, das quais 24 já abriram capital.

Mais conhecida no Brasil, a Indigo Agriculture (que oferece soluções que vão desde o tratamento de sementes a um marketplace de commodities agrícolas de baixo carbono) também faz parte da família de “agrícolas” do fundo, ao lado da Inari Agriculture (de melhoramento genético de plantas usando CRISPR) e da CiBo Technology (que usa imagens de satélite e Data Analytics para estimar o potencial regenerativo das lavouras). 

Hoje, com mais uma captação bem-sucedida, a Invaio se prepara para dobrar o time de 80 pessoas nos próximos 12 meses e já mira diferentes mercados, entre eles o Brasil, onde tem um escritório, localizado em São Paulo, e soluções em teste em lavouras de citros.

Avram Slovic, Diretor Comercial da Invaio na América Latina

Pilares de negócios

Para entender o que a Invaio faz, Slovic afirma que é preciso entender o sistema agrícola com um olhar holístico. “Nós sabemos que nos citros e outros cultivos, por exemplo, o cobre é muito utilizado para combater fungos e bactérias. Mas, quando ele cai no solo, mata microrganismos benéficos para o ecossistema. Aí o produtor, que resolveu o problema de uma doença, tem que ir atrás de adubo orgânico para consertar a outra ponta”, ilustra.

Resolver problemas sem criar novos problemas, digamos, é a missão da Invaio, que divide sua atuação em duas frentes: 1) das tecnologias de aplicação e 2) dos novos ingredientes ativos. 

  • No campo das aplicações

Na área de aplicações, a empresa desenvolveu um método que pode ser usado com produtos químicos e biológicos em culturas perenes e que mais parece uma injeção na veia. 

Usando um sistema de injeção miniaturizado e customizado para cada tipo de cultura perene, que o funcionário da fazenda pode inserir na árvore quando realiza algum manejo, a ideia é demandar doses mínimas de fungicidas, inseticidas e biomoléculas novas e aumentar a vida útil desses produtos — driblando não só a resistência das plantas, mas problemas associados à saúde do trabalhador, do meio ambiente e do consumidor. 

Em fase de validação junto a parceiros comerciais, a tecnologia já está sendo usada em pomares de maçã, citros, uva e oliveiras, tanto nas Américas (especialmente EUA, Brasil e México) como na Europa (Itália e Suíça). 

Fazer aplicações de alta precisão pode ser mais difícil do que parece em culturas de escala, como soja e milho, mas esse também é um ponto de ataque da Invaio. Nesses cultivos, para aumentar a eficiência da aplicação de defensivos, o foco está no nível foliar e na semente. Sendo o objetivo garantir que pelo menos 90% dos produtos aplicados cheguem onde deveriam, sem se perder no ambiente ou no solo em razão da deriva. 

Para isso, a Invaio usa uma tecnologia de encapsulamento de moléculas naturais de fungicidas e inseticidas e outra de chave e fechadura, que rege a conexão entre vírus e anticorpos, mas também aparece na botânica. 

“Imagine que as plantas produzem pequenas bolhas, ou pacotes, que as ajudam a carregar substâncias para dentro. Usando essa mesma lógica, encapsulamos as moléculas e criamos mecanismos que ajudam os pacotes a se ligarem somente nas pragas-alvo”, explica Slovic.

 A Invaio simula estruturas da biologia das plantas

  • No campo dos ingredientes ativos

Além de trabalhar em conjunto com grandes empresas químicas para levar sua tecnologia às lavouras, a Invaio desenvolve ainda novos produtos, cujas fórmulas procura na natureza. Esse pipeline de descoberta alavanca um trabalho pesado de "machine learning" (aprendizado de máquina) para encontrar no ambiente moléculas de interesse.

Um exemplo bem-sucedido é o do licenciamento de um peptídeo natural do limão caviar para controle do patógeno que causa o greening no citros e foi descoberto pela professora Hailing Jin, da Universidade da Califórnia Riverside. 

“Nós acreditamos que a natureza tem o suficiente e que a questão é só encontrar as soluções certas e aumentar sua eficácia”, afirma Slovic. 

O peptídeo descoberto na Califórnia, inclusive, é o mesmo que está sendo testado no Brasil, por meio de uma parceria firmada com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), e deve chegar a fazendas comerciais, em caráter experimental, já no primeiro semestre de 2022. Segundo Slovic, na Flórida, nos EUA, os resultados têm sido promissores.

Produção de laranjas e presença do greening no mundo (Fonte: Invaio)

Contatos

Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

Siga-nos