TrueAlgae planeja entrada no Brasil com biofertilizante carbono-zero, e busca parcerias

Insumo orgânico e líquido produzido à base de algas Chlorella já é comercializado pela startup nos EUA e no México

Outubro 6, 2021.

Por Marina Salles

Imagine grandes tubos de ensaio enfileirados em uma espécie de estufa com teto móvel que permite ver o céu. É num ambiente assim que a americana TrueAlgae cultiva suas algas verdes unicelulares do gênero Chlorella, capazes de reduzir em até 75% a dependência dos produtores rurais de fertilizantes químicos. 

Em cultivos de morango, framboesa, melancia, melão, pimentão, abacate, uvas de mesa, tomates e até cannabis, o TrueSolum, produto comercial da startup, gerou ainda aumento médio de 10% na produtividade em comparação a tratamentos convencionais, e o dobro da longevidade dos produtos na prateleira. A tecnologia está sendo aplicada também em lavouras de soja e milho.

Maria Paula Oliveira, líder de desenvolvimento de negócios da startup na América Latina, conta que a empresa, que já captou US$ 5 milhões no mercado desde a fundação, tem atualmente duas plantas produtoras de algas  — uma própria, nos EUA, e outra, de parceiros, no México. 

“Começamos em 2017 com apenas alguns tubos e logo construímos uma planta de 2,4 toneladas na Flórida, nos EUA. Em 2018, expandimos a produção dela para 3,6 toneladas e, em março de 2020, aumentamos a capacidade em 10 vezes, para 36 toneladas por ano. No México, a planta dos nossos parceiros é de 3,7 toneladas”, diz.

Planta da TrueAlgae na Flórida, nos EUA (Foto: TrueAlgae)

Seguindo o mesmo modelo de parceria, a ideia agora é se estabelecer no Brasil e atender outros países da América Latina, como o Uruguai, onde a TrueAlgae já realiza testes avançados. Detentora de uma patente para produzir a Chlorella em escala em estruturas modulares, a TrueAlgae trabalha com acordos de licenciamento da sua tecnologia e busca parceiros com capacidade de produção e conhecimento do mercado latino-americano. A expansão internacional passa ainda pela União Europeia e a Ásia, no Japão e nas Filipinas.

“A alga é um insumo que tem histórico comprovado de benefício para as plantas e o ser humano. Hoje, nosso foco está no agronegócio, embora a gente também esteja desenvolvendo outras verticais, nas áreas de nutracêuticos, farmacêuticos e cosméticos, especialmente no Japão”, afirma Maria Paula. 

Atualmente, o mercado de biofertilizantes agrícolas obtidos a partir de algas gira na casa de US$ 10 bilhões no mundo. Em franca expansão, o setor tem se desenvolvido de forma gradual, mais baseado em reduzir do que substituir o uso de fertilizantes químicos. “A maioria dos produtores olha nosso produto como um aditivo”, diz Maria Paula, e a expectativa é de crescimento do mercado à medida que aumenta a confiança nos insumos biológicos.

Rico em nutrientes, o produto extraído dos tubos é o próprio caldo que faz as algas crescerem e se desenvolverem, e que ajuda a recompor a microbiota do solo e facilitar a absorção de outros nutrientes.

Tecnologia escalável e modular

“Quando chegamos a um novo país, buscamos sempre usar a cepa local de Chlorella, que é uma alga de ambientes de água doce e que pode ser encontrada até mesmo na biomassa do solo”, explica Maria Paula. 

Até hoje, uma técnica utilizada na produção dessas algas é o cultivo em lagoas, na presença de luz natural, gás carbônico e alguns nutrientes disponíveis no meio. No entanto, esse método rudimentar é suscetível à contaminação e, muitas vezes, obriga que se descarte tudo aquilo que foi produzido.

O diferencial da TrueAlgae é a patente de um modelo de multiplicação de algas em sistema fechado, livre de contaminantes e mais eficiente. “Nós multiplicamos nossas algas em fotobiorreatores, dando um empurrãozinho para fazerem a fotossíntese da melhor maneira possível”, diz Maria Paula.

Formada em Relações Internacionais pela ESPM e com mestrado na Universidade Johns Hopkins, Maria Paula faz parte do time da TrueAlgae desde 2018. Sua atuação na agricultura teve início com projetos realizados junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

A estrutura das biofábricas se assemelha à de estufas

Custo-benefício

Como a cada 24 horas a biomassa produzida pelas algas dentro dos fotobiorreatores dobra, a“colheita” nos tubos é realizada todos os dias. Segundo Nathaniel Jackson, CEO da TrueAlgae, a tecnologia tem um alto custo benefício. 

Enquanto a margem bruta da startup é de 70% na multiplicação de algas, o retorno do investimento do produtor tem sido de cinco a oito vezes o valor investido para adubar cultivos de morango na Flórida, onde se produz uma safra por ano. Na Califórnia, Estado americano em que o clima permite ter até duas safras anuais, o retorno do investimento já chegou a 20 vezes. O produto, orgânico e líquido, é diluído em água e pode ser aplicado por meio da fertirrigação ou por via foliar.

Da última rodada de investimentos na startup, recém concluída em setembro, participaram o Alumni Angels of Greater New York da Harvard Business School, que congrega mais de 350 investidores anjos; a Caygan Capital e os fundos Crimson Investment Fund e Propel.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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