Março 21, 2022
Por Vitor Lima*
O uso indevido de insumos, principalmente os químicos, de amplo espectro, e os fertilizantes minerais, nas lavouras, safras após safras, levou muitas áreas agropecuárias à “exaustão” em diversas regiões do país. Baixas produtividades e altas demandas que elevam o custo de produção, devido à limitação de acesso a nutrientes e matéria orgânica no solo, são apenas algumas das consequências dessa prática. Por isso, nos últimos anos, o conceito da agricultura regenerativa vem ganhando mais espaço no agronegócio, não somente como um sistema sustentável de produção, mas também, como uma possibilidade de correção para solos exauridos ao longo de décadas.
De acordo com a definição da Regeneration International, organização sem fins lucrativos que promove a prática da agricultura regenerativa no mundo, o seu princípio básico é a implementação de práticas agrícolas e de pastoreio que revertam os efeitos desse uso indiscriminado de insumos, reconstruindo a matéria orgânica do solo e restaurando a biodiversidade degradada. “Essas técnicas [o uso de químicos e fertilizantes minerais] diminuem a qualidade e diversidade biológica dos solos, bem como a disponibilidade de nutrientes”, explica Gerson Marquesi, Gerente de Marketing da Gênica. “Isso dificulta o combate a patógenos e o sistema fica muito mais suscetível a estresses ambientais”.
Gerson Marquesi, Gerente de Marketing da Gênica.
Em setembro do ano passado, a Gênica, uma indústria de bio e nanotecnologia voltada à produção de bioinsumos, lançou o Regenera, um sistema de manejo que funciona como uma espécie de mapa para auxiliar o produtor rural na implementação da agricultura regenerativa. E em apenas seis meses, a biotech já está colhendo os resultados positivos nos mais de seis mil hectares cultivados com soja e cana-de-açúcar.
Segundo Marquesi, as primeiras avaliações da safra 2021/2022 apontam para um incremento médio de produtividade nas lavouras de soja equivalente a 4,5 sacas por hectare e economia de R$ 80 por hectare em uma aplicação de inseticida para o combate, por exemplo à mosca-branca e percevejo. Nas lavouras de cana, os resultados ainda estão sendo coletados.
O sistema Regenera atua na reconstrução do equilíbrio do microbioma do solo através da associação de ferramentas biológicas benéficas, como bioestimulantes, biodefensivos e bioativadores, associados a produtos químicos, com bons resultados, segundo a empresa, no curto e médio prazo. “A ideia é, literalmente, regenerar e reconstruir o equilíbrio biológico do solo com o uso de bioinsumos”, diz Marquesi. A consolidação desse solo como um sistema rico em nutrientes e biodiversidade, se dá a partir da continuidade da aplicação do modelo de produção.
Os pilares do Regenera são a sanidade de plantas, o equilíbrio do sistema produtivo e a longevidade da lavoura (Foto: Gênica)
Para 2022, as expectativas da empresa são de consolidação do sistema. Em números, isto significa o cumprimento das metas de dobrar o número de clientes, chegando a 40 fazendas e cerca de 20 mil hectares de área de cobertura, além de difundir a aplicação da tecnologia para culturas perenes, como feijão, milho, algodão e café.
A rotação de culturas, uma das técnicas inerentes à agricultura regenerativa, também já mostra dados de ganhos de produtividade que variam de 5 a 10% no curto prazo. No médio prazo, é possível ver a redução nos ataques de patógenos, e a redução das aplicações de inseticidas, por exemplo. “A efetividade do Regenera se consolida no longo prazo. A partir do terceiro ano, é possível observar o estabelecimento de microrganismos no sistema e insetos parasitados sem a aplicação dos produtos”, conta Marquesi.
Para aderir ao Regenera, os agricultores passam por cinco etapas, segundo o gerente. A primeira delas, é realizar um diagnóstico assertivo do sistema produtivo baseado em análises qualitativas e quantitativas dos microorganismos existentes no solo. Essa etapa é realizada em parceria com a Biome4all, outra bio e nanotech que atua na área, e tem mais de 100 indicadores de análise.
Nas etapas seguintes, são definidas as culturas de cobertura e linhas de bioinsumos que serão aplicados. Os momentos, frequência e alvos das aplicações dos produtos são definidos pela Gênica em etapas finais do planejamento, que sempre é feito para, no mínimo, duas safras.
No que depender dessa startup, a crise dos fertilizantes que atinge todo o mundo agrícola devido ao agravamento da guerra entre a Rússia e Ucrânia (maiores produtores globais de fertilizantes minerais) não passará nem perto dos agricultores que apostam no conceito da agricultura regenerativa, já que os bioinsumos não dependem destes fornecedores.
Para a Gênica, as novas soluções partem do entendimento de um tripé de saudabilidade do solo, que se baseia na disponibilidade de nutrientes, raízes abundantes e sadias. Em 2021, a startup cresceu 120%, com a aplicação de bioinsumos em mais de 2 milhões de hectares, em todas as regiões brasileiras. Agora, a meta de crescer 110% neste ano, e inclui o lançamento de novos produtos, principalmente aqueles focados em aumentar o rendimento dos fertilizantes, a partir do mês de maio.
Segundo o gerente Marquesi, as soluções chegarão ao mercado focadas na solubilização e na fixação de nutrientes nas plantas. “Queremos aumentar a eficiência da cultura na absorção e aproveitamento dos nutrientes disponíveis no solo. Para isso, temos explorado mecanismos diretos e indiretos de rendimento”, conta.
Entre os mecanismos diretos, explicou, estão os rizóbios, seres representados, principalmente, pelo gênero Bradyrhizobium. São bactérias que estabelecem relações de simbiose com as plantas e auxiliam na fixação de nitrogênio. Por outro lado, diz Marquesi, o uso de microorganismos de vida livre, sem relação simbiótica com as plantas, também atuam na fixação de nutrientes e podem ser usados em diversas culturas, das leguminosas às gramíneas.
Já os mecanismos indiretos, fazem referência aos microrganismos produtores de fitohormônios, que são moléculas que induzem o crescimento das plantas, já que o aumento do tamanho das estruturas vegetais também é um fator determinante para que os nutrientes sejam bem aproveitados e absorvidos na lavoura.
*Com edição de Viviane Taguchi