Julho 18, 2022
Por Marina Salles
Já dizia o ditado, o bom filho à casa torna. Passados quatro anos da fundação da Traive, a startup traz de volta sua co-fundadora. Com um currículo que salta aos olhos, pela expertise técnica e corporativa, Aline Pezente passa a ocupar a cadeira de Diretora de Inteligência Artificial e Estratégia de Produtos na agfintech.
“As pessoas têm uma visão romântica do empreendedorismo e, na verdade, é muito trabalho e sacrifício pessoal envolvido em construir um negócio exponencial do zero. Exige tempo e muito investimento e, lá atrás, eu e o Fabrício precisamos tomar a decisão sobre quem iria tocar a empresa. Os dois empreendedores éramos nós e não conseguiríamos receber salário pelo menos nos primeiros anos da Traive. Eventualmente, seria hora de um dos dois sair da linha de frente”, conta Aline.
Ainda empregados, ele no Credit Suisse Brasil (como VP de Produtos Estruturados) e ela na Louis Dreyfus Company (como Head de Desenvolvimento de Negócios na América Latina da Louis Dreyfus e CEO da Calyx Agro, braço da LDC de aquisição e venda de propriedades agrícolas), eles postularam para o Programa Sloan Fellows do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
No programa, a inteligência artificial era um dos pontos altos e Aline viu ali um caminho para ajudar a resolver os problemas de acesso a crédito pelos produtores rurais, um entrave com que ela vinha se deparando há anos na carreira trilhada, desde 2004, em diversos players da cadeia do agro. Naquela época, ela começou a desenvolver a inteligência artificial por trás dos sistemas de análise de risco da Traive, até que recebeu um convite para assumir o posto de Líder de Estratégia de Economia Digital Global na Cargill.
Enquanto Aline foi para a gigante mundial de alimentos, Fabrício conduziu a Traive nos seus próximos passos, com a aprovação no Techstars Farm to Fork em Mineápolis, nos Estados Unidos. Desde então, permanece na startup como CEO. Depois dessa fase inicial, Aline ainda ocuparia a cadeira de Head Global do Marketplace de Commodities da Indigo. No hiato entre a ida e a volta, sempre manteve uma cadeira no conselho da agfintech.
Em uma conversa com Fabrício, no World Agri-Tech Summit em São Paulo, ele não escondeu a empolgação com a nova fase: “É um orgulho ter uma executiva como a Aline no nosso time. Não é porque é minha esposa, mas você já viu o currículo dessa mulher?”, disse ao AgTech Garage News.
Formada em Administração pelo Mackenzie, Aline conquistou o título de mestre em finanças corporativas pela FIA (Fundação Instituto de Administração), depois de mestre em Tecnologia e especialista em Análise de Dados pelo MIT. O desempenho profissional a levou à lista anual do MIT Tech Review de inovadores “35 Under 35”, além disso, foi considerada pela Forbes uma das mulheres mais influentes do agronegócio brasileiro.
Quando Aline deixou a Traive, em 2018, estavam na operação Fabrício, ela e no máximo mais duas pessoas. Hoje, a equipe é composta por 110 membros, dos quais cerca de 40 estão no time de desenvolvimento de algoritmos e modelos de inteligência artificial agora comandado por Aline. “Muito da tecnologia de base da Traive foi criada por mim e me inspira trabalhar com o time que construímos até aqui. Cada pessoa ali foi escolhida a dedo”, diz.
A Traive, ela lembra, é uma empresa de tech, que fornece infraestrutura de tecnologia financeira para cooperativas, revendas e indústrias de insumos poderem avaliar de forma consistente o risco da oferta de crédito ao pequeno e médio produtor rural, a fim de prover melhores condições de acesso a capital.
Por meio de sua plataforma ou interface de aplicações (API), é possível consultar escores, insights, processos de concessão de crédito, análise financeira e de portfólio. De 2018 a 2022, a Traive recebeu US$ 20 milhões em investimentos, atraindo como sócios a SP Ventures, Astella Investimentos, Syngenta Group Ventures, Serasa Experian VC e CSN Inova Ventures, além da Tiger Global.
“A falta de dados no agro é um dos grandes desafios para a oferta de crédito. Com dados ideais, perfeitos e completos, você precisaria de modelos de inteligência artificial muito mais simples para fazer análise de risco. Mas a realidade é outra. Às vezes sabemos a cor do quebra-cabeças, mas não sua forma”, diz Aline. O problema vai desde o espalhamento dos dados até a estruturação díspar nas diferentes fontes e os buracos de informação.
Parte do trabalho do time de IA, segundo Aline, é lidar com a deficiência dos dados e extrair deles sinais fundamentais. Assim, a Traive vem construindo seus cases no mercado, de incremento de 60% na detecção de eventos de risco nos clientes; de diminuição de meses para horas no processo de análise de crédito; de melhor calibração em renegociações de dívidas e redução no atraso de pagamentos, para citar alguns exemplos.
“Se a gente for muito bem-sucedido, vamos ajudar a levar a indústria do agro para outro patamar. Várias plataformas de tecnologia mudaram o mundo e podemos seguir o mesmo caminho”, afirma Aline. A missão da Traive é nada menos que usar algoritmos proprietários para oferecer soluções de inclusão financeira e análise de dados para o agronegócio. Em teoria, a inteligência artificial tem todo o poder para isso.