Março 28, 2022
Por Vitor Lima*
Nos últimos anos, muitos investimentos realizados no agronegócio, em todo o mundo, têm sido direcionados para o desenvolvimento de ferramentas capazes de prever, quase com exatidão, a produtividade no campo. Com dados específicos em mãos, os produtores rurais têm a chance de aumentar o índice de assertividade em suas tomadas de decisões e obter, assim, os melhores resultados possíveis. Essa relação de confiança digital já conquistou produtores de uvas de vinho, morangos e mirtilos na Austrália e agora, pode atrair também, os viticultores de mesa brasileiros.
Isso porque a startup australiana Bitwise Agronomy, uma das pioneiras em levantar a bandeira da indústria 4.0 no agro na Oceania, está dando os primeiros passos para conquistar também os solos brasileiros, mais especificamente as lavouras de uvas, na área de precisão de produtividade, um setor que hoje, na maioria das propriedades, ainda atua com técnicas custosas e trabalhosas, como o gabarito manual, que tem baixa precisão, principalmente em lavouras de grande escala.
Com a tecnologia australiana, o produtor rural precisa apenas ter acesso a uma câmera de mercado comum (como os modelos da marca GoPro) para analisar a sua lavoura, através de um vídeo. Funciona assim: o produtor grava a sua lavoura e envia as imagens para a Bitwise e, em menos de 24 horas, recebe informações de predição de produtividade, incluindo dados como mapas de calor e registro fotográfico da produção total.
Levi Martins, Gerente de Operações da Bitwise.
A meta da empresa é desenvolver a agricultura de precisão através das lentes da inteligência artificial. “Nosso modelo de negócios é a visão computacional as a service. Quanto maior for o nosso banco de dados, maior será a precisão dos cálculos, independentemente do tipo de cultura”, conta Levi Martins, Gerente de Operações da Bitwise.
Com toda a operação feita através de softwares e trabalho remoto, a escalabilidade é uma das peças-chaves da empresa, que já processou mais de 125 milhões de imagens de fazendas, nos quatro continentes. “Para nós, a localidade do cliente pouco importa. Não há diferença entre atender um agricultor no Chile ou do Reino Unido, pois tudo é feito de modo online”, ressalta Martins.
Além do desafio de conquistar os viticultores brasileiros, a startup tem planos ousados para 2022, entre eles, expandir parcerias para atuar em novas culturas e realizar testes para aprimorar suas tecnologias. A meta é dobrar a carteira de clientes da empresa, que hoje já soma 55 produtores. Em área, a Bitwise já atende pequenas e grandes produções, com propriedades cadastradas que variam de 2 a 600 hectares.
De acordo com Levi Martins, a Bitwise já está em países com forte atuação na produção de uvas viníferas e de framboesa, mas tecnologias voltadas para as lavouras de cereja, mirtilo, pepino, uva de mesa e morango também estão sendo implementadas e a empresa também está em busca de lavouras parceiras para implementar POC’s de novos produtos vegetais. Segundo Martins, um dos pontos positivos é a forte adaptabilidade da tecnologia, de forma geral. Esse processo leva entre seis e oito semanas. “Tudo que conseguimos ver a olho nu, também conseguimos detectar através da visão computacional. Para o algoritmo do computador, uma nova cultura significa apenas um novo padrão a ser reconhecido”, explica.
O cálculo de predição de produtividade faz a contagem de cada bago dos cachos e multiplica pelo seu volume observado (Foto: Bitwise)
O processo de adoção da tecnologia no campo é bem simples. Fugindo dos hardwares, a Bitwise demanda apenas que o produtor rural tenha sua própria câmera para realizar a filmagem das lavouras. Isso, segundo a empresa, pode ser feito após treinamento fornecido pela própria startup, e acoplando o equipamento a qualquer tipo de veículo. Com as imagens gravadas, o produtor as envia em nuvem para a sede da Bitwise, que faz o processamento e retorna as informações no formato de relatório.
A tecnologia se baseia em um programa próprio de análise de imagens, que faz a contagem dos estados fenológicos da cultura, entre gemas, brotos e cachos, por exemplo, no caso da uva. Para cada estado identificado, um diferente algoritmo, mais ou menos complexo, é atribuído e, para cada algoritmo, há uma pontuação que é usada como referência para o cálculo final da produtividade prevista para aquela safra.
No Brasil, os primeiros dados coletados (em lavouras de uva de mesa) mostraram que, com imagens de apenas duas fileiras, a precisão da ferramenta foi de 98%. Em algumas áreas analisadas, a calculadora da Bitwise estimou 409 quilos de uvas e o resultado final da área, após a colheita, foi de 415 quilos.
De acordo com Martins, a Bitwise quer, nos próximos anos, utilizar os vídeos para detectar outros dados importantes para o produtor rural, como a incidência de pragas ou doenças, por exemplo. “Ainda não conseguimos detectar pragas e doenças através das imagens, mas este é um dos próximos objetivos. Se alguma empresa voltada a este tipo de tecnologia tiver interesse em cooperar para isso, será mais do que bem vinda”, relata.
Tendo participado já de duas rodadas de captação de investimentos (de valores não revelados), a Bitwise planeja novo aporte. A ideia será focar o capital entrante para os times comercial e de marketing, visando a expansão da marca e atendimento aos clientes. Com a intensificação da internacionalização, o Brasil é, segundo a empresa, um parceiro “chave”, e o AgTech Garage é o elo que liga as duas partes, através de seu programa de inovação aberta para produtores rurais.
Apesar de ser de origem australiana, a Bitwise Agronomy está assumindo um papel importante para que cada vez mais produtores rurais brasileiros tenham acesso a tecnologias e inovações. A empresa, por exemplo, já faz parte do Programa For Farmers (Frente da Uva), no Vale do São Francisco.
“Estamos muito entusiasmados com o For Farmers. Os dados de produção do Vale do São Francisco são surpreendentes e acreditamos que podemos contribuir muito para o aumento da assertividade nas lavouras”, falou Martins, sobre o envolvimento da startup no programa.
A tecnologia da startup está sendo adaptada para as uvas de mesa. Responsável por 95% da exportação do produto, a região do Vale do São Francisco - que abrange, principalmente, as cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) - gera uma receita de mais de R$2,5 bilhões por ano. Em tamanho, as POCs já estão em andamento para validação das análises em vídeo para os mais de 1,5 mil hectares das fazendas parceiras do For Farmers Uva.
O For Farmers é uma iniciativa de inovação aberta do AgTech Garage que traz o produtor rural para o centro da inovação, dando a ele o protagonismo merecido. O objetivo do programa é identificar os principais desafios tecnológicos do dia a dia do produtor e conectá-lo às melhores soluções do mercado, dando acesso a novas tecnologias e promovendo o relacionamento do produtor com o ecossistema de inovação e empreendedorismo. Atualmente, além dos produtores de uvas, no Vale do São Francisco, o programa conta com grupos focados em cana-de-açúcar, soja, suinocultura e pecuária.
Lucas Wadt, Líder do Programa AgTech Garage For Farmers.
*Com edição de Viviane Taguchi