Abril 25, 2022
Por Vitor Lima*
Quando abordamos as tantas inovações tecnológicas que surgem nas agroindústrias e no setor de alimentos — como as bebidas vegetais, proteínas plant-based e fermentadas, passando pela conservação e estética dos hortifrútis — muitas vezes estamos falando da satisfação de consumidores de nicho, que já alçaram um patamar mais elevado de renda e podem fazer escolhas que vão além da garantia da sua nutrição.
Mas a sociedade está produzindo e distribuindo comida em quantidade suficiente para alimentar a sua população? A resposta é não (segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas passaram fome em todo o mundo em 2020), e isso diz respeito à “segurança alimentar”, que nada tem a ver com a “segurança dos alimentos”. (No segundo caso, a avaliação é sobre os riscos da comida à saúde do consumidor, o que também requer atenção, mas é conversa para outro momento).
As discrepâncias no poder de compra da população são claras (ver quadro abaixo) e, ao categorizar os diferentes grupos da sociedade, é possível traçar estratégias para evitar a fome e atender à demanda por alimentos em todos os níveis. Dados da FAO, de 2019, compilados pela consultoria Céleres, ajudam a pintar este quadro:
Em torno de 1 bilhão de pessoas vive com cerca de US$ 1,23 por semana para gastar com alimentação (Fonte: Céleres/FAO)
Enquanto a grande massa da população mundial vive em condições intermediárias de acesso à renda para compra de alimentos (3,9 bilhões de pessoas), cerca de 1 bilhão estão sujeitas a enfrentar a insegurança alimentar.
Os principais fatores que explicam essa dinâmica são: a falta de infraestrutura em regiões mais pobres, dificuldades de distribuição e o próprio desperdício de alimentos.
Os dados acima foram apresentados por Giampaolo Buso, CEO da PariPassu, durante a Jornada de Aprendizagem do AgTech Garage, uma iniciativa da área da de Learning Experience. A PariPassu oferece soluções de tecnologia de rastreabilidade e controle de qualidade em todos os elos da cadeia de alimentos.
A seguir, com base nas informações trazidas por Buso, convidamos o leitor a refletir sobre como o setor de agronegócios pode atuar tanto para reduzir as dificuldades de acesso aos alimentos para as duas camadas mais carentes da população, como contribuir para a melhor nutrição dos grupos mais privilegiados.
O primeiro grupo, dos que vivem com orçamento para alimentação de US$ 1,23 (ou US$ 0,18 por dia, cerca de R$ 0,88) , está no centro das discussões sobre segurança alimentar. E, segundo Buso, rever o caminho dos alimentos na cadeia produtiva seria uma das medidas de maior impacto para eles, a fim de combater o desperdício e zelar pela responsabilidade de ponta a ponta, da produção à entrega da comida.
Dos produtores rurais às associações e cooperativas, passando por consultores e auditores até chegar nas indústrias de alimentos e bebidas, depois no food service, restaurantes e supermercados, cada elo tem a sua responsabilidade e, no fim das contas, todas as pessoas, individualmente, são consumidores e podem fazer a sua parte.
“Eu, por exemplo, sou diretor de uma empresa de soluções para o setor agrícola e cuido de operações com clientes que vão de produtores a varejistas e indústrias de insumos. Por outro lado, no meu papel de consumidor, quando vou ao supermercado, posso escolher de qual fornecedor comprar”, diz. São duas responsabilidades: ajudar a evitar o desperdício usando a tecnologia de rastreabilidade e, depois, consumindo de forma consciente.
A Paripassu atua com a rastreabilidade dos alimento para ajudar a evitar a insegurança alimentar (Foto: Paripassu)
Olhando para o segundo grupo, com orçamento que pode ficar apertado (principalmente pela inflação recente sobre os alimentos), a principal demanda é por preços competitivos na gôndola, para manter o equilíbrio financeiro e nutricional. Esse grupo geralmente busca promoções, está disposto a pesquisar preços e adquirir itens com desconto mais perto do prazo de validade.
Para eles, tecnologias como a da startup SuperOpa e WhyWaste podem fazer a diferença. A SuperOpa corta caminho na cadeia e liga a indústria ao consumidor final, gerenciando promoções baseadas ou não em prazos de validade. Nos últimos dois anos, seus clientes finais economizaram R$ 2,6 milhões. Já os fornecedores evitaram o descarte de R$ 3,2 milhões em alimentos apenas em 2021.
Já a WhyWaste aumenta a eficiência logística de redes de varejo, alertando para a proximidade do vencimento dos produtos e oportunidade de evitar o desperdício abaixando preços. No Brasil, o uso da tecnologia rendeu à Serra Azul o prêmio de um dos cinco melhores cases de prevenção a perdas do Brasil em 2021, concedido pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe).
Com a WhyWaste, desperdício de alimentos pelo monitoramento dos prazos de validade é reduzido em até 90% (Foto: WhyWaste)
Entre o terceiro grupo de consumidores, com até US$ 155 por dia para se alimentar, as tecnologias com mais apelo já têm enfoque no valor nutricional dos alimentos, principalmente aqueles ricos em proteínas. A dieta do brasileiro de classe média aparece por aqui.
Startups como a Foodz, que produz refeições de consumo rápido na forma de bebidas, com forte olhar para a saúde do consumidor, já chamam a atenção desse público.
Refeições engarrafadas da Foodz unem praticidade e alto valor nutricional (Foto: Foodz)
Em outra frente, a Liv Up, que faz entregas em domicílio de alimentos saudáveis e congelados, também já se encaixa melhor na proposta de valor e preço que essa população consegue bancar.
Entrando no campo dos consumidores com alto poder de consumo, as exigências continuam subindo e a questão da sustentabilidade, responsabilidade ambiental das marcas e do bem-estar animal tendem a ser mais relevantes para a decisão de compra.
A Yamo usa o inhame para produzir alimentos plant-based (Foto: Yamo)
As brasileiras Nude, de bebidas vegetais feitas à base de castanha-de-caju, e Yamo, de substitutos lácteos como queijos, sorvetes e iogurtes à base de inhame, são exemplos de empresas que atendem a um público mais específico. Seja pelo olhar para a sustentabilidade ou simplesmente pela busca por uma alimentação flexível.
Para o grupo 5, que tem US$ 500 para gastar com comida por semana (US$ 71 por dia, ou R$ 358), o consumo de alimentos pode passar por experiências gastronômicas exclusivas ou mesmo pela fronteira da inovação.
Mas uma das preocupações é com a saúde da população que tem recursos para comer bem, mas não o faz. Números da Escola de Saúde Pública de Harvard mostram que, até 2030, 48,9% dos norte-americanos podem chegar a apresentar quadro de obesidade, o que acende um alerta sobre os desafios que precisam ser tratados ao mesmo tempo em que se olha para a segurança alimentar.
*Com edição de Marina Salles