Outubro 26, 2022
Por Marina Salles
Uma das gigantes do agronegócio no mundo, a múlti americana Cargill tem uma cara diferente no Brasil em comparação a outras partes do globo. No país, além de ser reconhecida pela originação de commodities (como soja, milho e trigo) e processamento destas matérias-primas para produzir ração e até combustível, a empresa também conta com marcas conhecidas do consumidor. O óleo Liza e a Pomarola, além do molho Elefante e o óleo composto Maria, são algumas das marcas facilmente encontradas na cozinha dos brasileiros.
Carlos Prax, Líder de P&D da Cargill para América Latina, lembra que a companhia atua há 65 anos no Brasil, de uma história que já soma mais de 155 anos. Nesse tempo, a aproximação com o mercado consumidor se deu por meio da instalação de fábricas de óleo de soja ainda nos anos 1970 em São Paulo e, já em 2010, pela compra de marcas que eram da Unilever e que reforçaram a presença da Cargill no varejo.
Há pouco mais de uma década, a presença se consolidou também por meio da construção de um centro de inovação especializado no desenvolvimento de novos alimentos e bebidas, localizado em Campinas (SP). E a tendência é continuar investindo forte em terras tupiniquins, seja pelo potencial do seu mercado consumidor, da sua biodiversidade ou pela urgência de ajudar a garantir a alimentação sustentável das próximas gerações.
Em visita ao centro na cidade paulista, o Agtech Innovation News teve acesso às instalações onde a empresa desenvolve produtos próprios e para terceiros e ouviu do líder de P&D para a América Latina que: "Ter velocidade é fundamental para resolvermos problemas [da cadeia de agronegócios] de forma sustentável". O centro de inovação (como você confere no vídeo abaixo) está todo equipado com tecnologia e uma série de laboratórios, cozinha experimental e uma área para realização de dinâmicas de grupo e análises sensoriais que permitem testar novos ingredientes. Tudo para atender às demandas do consumidor, cada vez mais exigente.
Em breve, além deste centro de inovação, a empresa contará com outra estrutura em Campinas, esta em parceria com diversos stakeholders, seguindo a premissa de que a inovação aberta, em rede e colaborativa veio para ficar e promover mudanças duradouras.
Acompanhe a entrevista que fizemos com Carlos Prax, direto do Centro de Inovação da Cargill em Campinas.
AgTech Garage News: O Centro de Inovação da Cargill em Campinas (SP) é um em 14 para a companhia no mundo todo, e está dedicado à pesquisa em novos alimentos e bebidas. O que levou à construção da unidade no Brasil em 2011? E o que o centro representa hoje para a Cargill?
Naquele momento, se percebia a necessidade de empresas globais, como a Cargill, que tem profundo comprometimento com a sociedade de diversos países, se aproximarem dos consumidores, clientes e demais atores regionais da cadeia de alimentos. Tanto para aprender como para trazer o conhecimento adquirido no mundo e adaptá-lo à realidade do mercado brasileiro e da América Latina.
Por isso mesmo, escolhemos especificamente a cidade de Campinas para instalar o centro, onde a atividade do agronegócio é muito relevante e há outros atores do ecossistema de inovação. A gente decidiu inaugurar esse centro de forma bastante pioneira, para poder trazer os clientes para trabalharem junto com a gente, para estar perto das universidades onde se gera conhecimento e perto de parte dos produtores rurais, que nos permitiram olhar mais profundamente para novas soluções.
A Cargill já tinha centros de pesquisa ao redor do mundo, mas a experiência de trazer esse centro de inovação para Campinas fez com que novas tecnologias pudessem estar disponíveis mais rápido para a sociedade local e o ecossistema de alimentos. Estar perto foi fundamental para entender as necessidades e poder implementá-las.
De 2011 para cá, tem sido uma jornada fantástica, em que nós crescemos com nossos parceiros, evoluímos nosso relacionamento e hoje, olhando para o futuro, isso se traduz num grande potencial de fazer parte das soluções desafiadores da indústria de alimentos e trabalhar em rede para chegar a mais e mais soluções de longo prazo para a sociedade.
AgTech Garage News: Quais são os pilares da inovação da Cargill? O que vocês consideram fundamental nessa área?
A inovação tem que fazer sentido para a nossa missão, que é nutrir o mundo de forma sustentável, segura e responsável. E isso significa ter foco total em quais são as necessidades dos nossos consumidores. Os desafios dos consumidores no mundo estavam, estão e sempre estarão relacionados à necessidade de se alimentar melhor e ter produtos acessíveis do ponto de vista financeiro. Ainda mais na América Latina, onde a questão do poder de compra é tão relevante.
AgTech Garage News: Recentemente, o que a Cargill desenvolveu na fronteira da inovação em termos de alimentos e bebidas?
Foi nesse centro de inovação, por exemplo, que desenvolvemos um conjunto de lipídeos que permite substituir gorduras com alto conteúdo de ácidos graxos trans e saturados por um produto saudável, que reduz significativamente a presença de gorduras nocivas para a saúde nos alimentos. Esse movimento gerou uma patente que foi feita em conjunto com a Unicamp e representa um grande avanço para o nosso portfólio.
Além disso, no mundo que estamos vivendo hoje, com uma responsabilidade maior sobre diversidade na originação de matérias-primas, estamos comprometidos com o movimento de encontrar novas proteínas. Temos desenvolvido um portfólio bem abrangente para atender os variados gostos das pessoas, com produtos, mais uma vez, acessíveis. Outra preocupação nossa também é dar opção para quem tem preferências diferenciadas no seu consumo diário.
AgTech Garage News: Quais os principais desafios da cadeia agroalimentar hoje na sua visão?
Os desafios estão muito relacionados com as demandas do consumidor, incluindo as regionais. Os consumidores da América Latina querem que as soluções oferecidas sejam acessíveis economicamente e que possam realmente atender às suas necessidades nutricionais e também de indulgência. Isto porque, no fim do dia, as pessoas querem comer e precisam desfrutar da comida.
Mas para poder resolver todos esses problemas, você não pode olhar só para produto, para ingrediente, você tem que trabalhar para toda a cadeia de valor do agronegócio — começando pela originação das matérias-primas, pelo cuidado sanitário com os animais e esse acaba sendo um desafio grande também, porque requer trabalhar com cada peça da cadeia.
A gente não consegue fazer isso sozinho, então tem ainda o desafio de aprender a trabalhar em rede, aprender a se conectar e ter diversidade na atuação. E já está claro que não são apenas as empresas grandes e globais que encontram soluções.
AgTech Garage News: Quais novos projetos vocês estão conduzindo de olho no futuro?
Com a Givaudan e Bühler, a Cargill formou um consórcio em colaboração também com o Food Tech Hub e o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), para construir um novo centro de inovação em Campinas, o Tropical Food Innovation Lab.
A gente quer explorar novas formas de colaboração nesse centro, atraindo novos clientes e novos membros para encontrar soluções e dar rapidez e agilidade para novas transformações acontecerem. A gente fala, na Cargill, que as transformações serão cada vez mais aceleradas e, nesse contexto, trabalhar em colaboração é fundamental.
Esperamos que, com essa parceria específica, a gente consiga trazer novos atores, seja startups ou pequenos empreendimentos, que nos permitam estar mais perto de novas soluções e que, como empresas de escala global, possamos acelerar as transformações de uma forma conveniente com essas necessidades do consumidor.
AgTech Garage News: Como surgiu o projeto desse novo centro? Quais serão as principais áreas de interesse?
Esse projeto surgiu de um edital do Governo do Estado de São Paulo em que fomos ganhadores. Ele contará com uma área física dentro do Ital, que terá um laboratório, ambiente de coworking e uma cozinha experimental, onde a gente vai testar alimentos e soluções do futuro. É uma parceria de longo prazo, sendo que esperamos estar juntos na próxima década e trazer novos parceiros que queiram trabalhar com a gente.
Porque o futuro é brilhante, mas também é muito desafiador. A gente vai precisar se desenvolver nos processos, gerar novos conhecimentos, trazer para o Brasil oportunidades de criar ingredientes que agreguem valor à cadeia dos alimentos e que possam ser exportados para o mundo. Uma das grandes vantagens que temos na região é o poder da nossa biodiversidade. A gente está no Brasil, um dos países que contam com a maior biodiversidade do planeta, e temos a responsabilidade de agregar valor sustentável através da nossa atuação.
Vamos trabalhar muito focados em soluções em que faça sentido agregar valor à biodiversidade brasileira e com proteínas alternativas (teremos tecnologias de extrusão úmida e seca para encontrar novas espécies vegetais, que possam atender tanto a necessidade por novos alimentos como por novas proteínas), mas não vamos nos limitar a isso. Queremos abarcar desafios ligados a como alimentar o mundo de forma sustentável, segura e fundamentalmente acessível. Esse projeto é um exemplo. Para além dele, esperamos fazer parte de um ecossistema cada vez mais robusto, que conversa com tudo que está acontecendo na cidade de Campinas e na região.
AgTech Garage News: Qual o potencial do Polo Tecnológico de Campinas?
Estar em Campinas significa valorizar tudo que está ao redor, as universidades e os institutos relacionados ao agronegócio, que foram um fator de peso para termos escolhido estar aqui. Com o passar dos anos, estreitamos nossos laços e o lugar onde nos encontramos hoje em Campinas faz parte de um Polo de Tecnológico.
Esse território, em si, é parte de um projeto muito ambicioso que reúne as universidades da região - como a PUC, Unicamp e Facamp -, a prefeitura da cidade e o Governo do Estado de São Paulo, que junto com a colaboração do Banco Interamericano de Desenvolvimento, estão avançando sem pausas em um projeto de longo prazo que pretende instalar neste distrito uma cidade do futuro. Uma cidade de desenvolvimento sustentável. O projeto se chama Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS) e está balizado pelas prioridades das Nações Unidas para o futuro do planeta, tendo uma raiz muito importante na sustentabilidade também do agronegócio, mas sobretudo na saúde da população.
A gente vê nos próximos anos que aqui ocorrerá uma expansão e uma organização desta nova cidade que associamos com o conceito de Silicon Valley, porque pretendemos ser o equivalente ao Silicon Valley para o desenvolvimento sustentável. É uma visão muito ambiciosa, mas acreditamos profundamente na possibilidade de realizá-la, gerando uma influência para a região e, porque não, para o mundo.
A gente se inspira em empreendimentos semelhantes em outras regiões do mundo e acreditamos ter os elementos necessários para fazer funcionar esse conceito. Vamos trabalhar de forma colaborativa, com parcerias público-privadas, com universidades e agências de fomento que permitam desenvolver os talentos do Brasil.
AgTech Garage News: Como profissional que pensa o futuro e precisa estar sempre à frente do seu tempo, o que te tira o sono à noite?
O que me tira o sono é não poder fazer tudo que a gente imagina acontecer de forma ainda mais rápida. Acredito que o momento que estamos vivendo no mundo nos traz esse senso de urgência. Os problemas que a sociedade e o planeta enfrentam estão aí para serem resolvidos.
Por outro lado, o que mais me inspira hoje é desenvolver dentro da Cargill as capacidades para nos conectarmos com todos os atores do bem para que essas soluções aconteçam mais rápido e, assim, poder implementá-las de uma forma que sirvam para as gerações futuras. Eu acredito que essa é a nossa missão. A Cargill é uma empresa de quase 160 anos e que quer ter sucesso nos próximos 100 anos. E a gente sabe que a Cargill do futuro tem raízes no passado, mas precisa enfrentar novos problemas logo à frente. Ter velocidade é fundamental para resolvermos problemas de forma sustentável.