Thomas Gent, da Gentle Farming: “O momento é dos mais emocionantes para ser agricultor, porque as oportunidades que surgem são extraordinárias”

Produtor do Reino Unido conta experiência de integrar programa de sequestro de carbono no solo para geração de créditos no mercado voluntário

Novembro 17, 2022

O jovem agricultor Thomas Gent vive e trabalha na fazenda da família no condado de South Lincolnshire, no Reino Unido, onde há 13 anos começaram a ser adotadas práticas de agricultura regenerativa. Durante a pandemia de covid-19, o produtor, de 24 anos, passou a analisar, com atenção, o crescente interesse por técnicas agrícolas mais sustentáveis no mercado, aderiu a um programa de geração de créditos de carbono e avançou no posicionamento da marca da família, a Gentle Farming

Em entrevista ao Crop Health and Protection (CHAP) — catalisador independente para a inovação no Reino Unido e parceiro do AgTech Garage na América Latina — Gent conta sua visão, agora compartilhada também com os leitores do AgTech Garage News, de como os agricultores podem aproveitar ao máximo o mercado de carbono. 

Thomas Gent, da Gentle Farming

CHAP: Como é, para você, ser agricultor nos tempos de hoje? 

Acredito, firmemente, que este é dos momentos mais emocionantes para ser um agricultor, porque as oportunidades que surgem são extraordinárias. Vivemos também um momento perfeito para mostrar o trabalho que fazemos e obter a recompensa que isso merece. Investir em nossas próprias marcas e em marketing é um dos caminhos para fazer esse reconhecimento acontecer. Na Gentle Farming, eu trabalhei durante a pandemia para explorar novas oportunidades, especialmente os programas de carbono. 

CHAP: Como você descreveria o funcionamento dos programas de carbono? 

Os programas de carbono incentivam e fornecem financiamento para que os agricultores façam a transição para técnicas agrícolas mais sustentáveis. O comércio de carbono existe há décadas, geralmente em função do sequestro florestal, realizado pelas árvores. Mais recentemente, o armazenamento nos solos veio como um novo produto nesta prateleira, que beneficia outros elos da cadeia, incluindo os agricultores.

Todos os programas têm uma maneira central de operar. Em geral, primeiro é feita uma avaliação básica para entender as características da fazenda, do solo e das operações. Uma vez com esse diagnóstico em mãos, é traçado o planejamento de uma nova estratégia de adoção de práticas sustentáveis, como, por exemplo, o cultivo de culturas de cobertura. Implementadas essas práticas, ocorre o processo de verificação e acompanhamento do que foi, de fato, posto em prática.

O relatório das práticas executadas é então comparado com a avaliação da linha de base e a diferença entre esses dois cálculos aponta os resultados do trabalho que foi feito e mensura o potencial de remuneração. Esses cálculos são realizados usando modelagem de computador ou amostragem de solo. Ambos os métodos têm prós e contras. Pessoalmente, acredito que os melhores programas usam uma combinação de ambos.

CHAP: Quais questões chave você recomendaria a um agricultor esclarecer antes de aderir a um programa de carbono?

  • Quais são os níveis de comprometimento que ele (a) deve ter em termos de práticas e tempo de dedicação?
  • Quais são (todos) os custos de participar do programa e os retornos financeiros esperados?
  • Quem tem o controle da certificação dos créditos de carbono?
  • Como o programa escolhe as empresas para as quais vende os créditos?
  • O programa recebe uma porcentagem pela venda do crédito? (Tendo em mente que, na maioria dos casos, essa taxa fica na casa de 20% a 30%).

Há muitas outras considerações a serem levadas em conta, mas esses cinco pontos devem fornecer uma boa base para comparar as diferentes propostas. 

CHAP: Os créditos de carbono são uma oportunidade dentro de um cenário maior? Como vê?

Os programas de carbono são, sem dúvida, uma grande oportunidade para os agricultores participarem agora. Mas o crédito é uma pequena parte do benefício da agricultura regenerativa, que pode fornecer inúmeras outras vantagens para as fazendas, como a redução de custos com insumos e custos associados à aplicação.

Se fosse para eu resumir, a comercialização de créditos de carbono é uma oportunidade interessante, mas complexa, lembre-se disso. Antes de aderir, vale buscar recomendações e entender o que está assinando antes de tomar qualquer decisão.

CHAP: Em termos de reconhecimento de marca, também estamos diante de uma oportunidade interessante para a agricultura e o agricultor? 

Se você pensar de uma perspectiva prática, todos os programas de carbono operam hoje no mercado voluntário, em que as empresas estão fazendo a escolha pela compra. Há, portanto, um motivo para a compra e uma dessas motivações é aprimorar as credenciais ecológicas das empresas, sua reputação perante o mercado.

A pergunta que todo agricultor deveria se fazer é: como faço para tornar meus produtos verdes mais valiosos para clientes em potencial? Acredito que a melhor maneira de fazer isso é fornecer a eles uma história que eles possam usar em seu próprio marketing. Eu fiz isso quando criei a Gentle Farming para ser a marca da fazenda da minha família.

Nós estamos entre as primeiras fazendas no Reino Unido a aderir a um programa de carbono, e a nossa marca ajuda a promover essa ação, além das outras práticas regenerativas que, há muito tempo, adotamos. Contar as histórias de seus projetos, negócios e operações é fundamental para gerar valor e não correr o risco de transformar esse “novo produto” em mais uma commodity.

O CHAP (Crop Health and Protection) é um catalisador independente para a inovação no Reino Unido, que reúne pesquisadores, indústria e governo. Com investimentos da ordem de £18 milhões, o CHAP e seus parceiros construíram instalações de última geração em centros de excelência no Reino Unido. O objetivo é acelerar a identificação, desenvolvimento e adoção de soluções agro tecnológicas para transformar os sistemas agrícolas locais e globais de forma sustentável. Como parceiro institucional do AgTech Garage, o CHAP busca novas oportunidades de colaboração, inovação, troca de conhecimento e negócios na América Latina.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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