Maio 19, 2023
A AgroScout celebra dois anos da chegada ao Brasil com 20% da sua receita proveniente de clientes do país (Foto: AgroScout)
Por Marina Salles e Fernanda Cavalcante
Fundada em 2017 e com mais de US$ 10 milhões captados em investimentos, a startup israelense AgroScout celebra dois anos da chegada ao Brasil com 20% da sua receita proveniente de clientes do país. Sem revelar o faturamento do negócio, Simcha Shore, fundador e CEO da AgroScout, afirma que a meta é continuar triplicando o tamanho da startup ano a ano, dada a alta escalabilidade do seu modelo SaaS e o potencial agrícola especialmente da América Latina. Além do Brasil, a startup já atende outros 8 países.
A AgroScout oferece soluções para gerenciamento da lavoura, que vão desde o cálculo do estande de plantas após a semeadura até a identificação de estresses provocados por seca ou doenças. Para isso, usa imagens de satélite, e sobretudo de drones comerciais, que orientam tomadas de decisão graças à análise de inteligência artificial. O objetivo da tecnologia é otimizar a aplicação de insumos ao mesmo tempo em que dá insights para reduzir a pegada de carbono da produção agrícola.
“Se você me perguntasse há 30 anos se todo produtor rural teria um celular, eu diria que não. Mas hoje essa é a realidade e vai ser assim com os drones muito em breve”, diz Shore, que defende que uma revolução na agricultura já está em curso por conta da IA e desses equipamentos voadores.
Um drone, segundo ele, cobre com facilidade de 500 a 1 mil hectares de terra e captura imagens de milhares de plantas a cada voo. Ao passo que um ser humano, no mesmo período, é capaz de percorrer alguns poucos talhões, analisando não mais de meia centena de plantas. “Com a mudança climática precisamos agir rápido e deixar de querer adivinhar o que está acontecendo na lavoura. Já há tecnologia para entender exatamente o que se passa e economizar dinheiro e recursos”, diz.
Confira a entrevista completa com o CEO da AgroScout, em texto e vídeo:
Simcha Shore: Eu cresci no meio da agricultura, ao lado de muitas árvores de citros, e meu pai trabalhou com pesquisa agrícola em Israel. Mas eu não fui para esse setor logo de cara, primeiro trabalhei para as Forças de Defesa de israelenses, onde passei mais de 20 anos atuando com sensoriamento remoto e coleta de dados, utilizando imagens de satélite e inteligência artificial para encontrar dados valiosos.
Seis anos atrás, quando terminei o serviço da defesa, decidi aplicar meu conhecimento à agricultura, pois percebi que o setor está atrasado em relação às tecnologias que utiliza. Além disso, no momento em que vivemos, os agricultores estão tendo que produzir mais no mesmo espaço de forma sustentável. O meu sonho sempre foi impactar algo em grande escala, como a segurança alimentar global. Foi assim que cheguei à agricultura.
Simcha: Na AgroScout, em Israel, temos cerca de 30 funcionários, principalmente na área de P&D e agronomia, que atuam para trazer mais tecnologia para a agricultura. Nosso modelo de negócios é uma plataforma de SaaS (Software as a Service), que pode ser acessada em qualquer lugar do mundo. Atualmente, comercializamos nossos serviços em mais de 20 países, mas eu diria que o Brasil é nosso principal mercado fora de Israel, dada a amplitude da agricultura por aqui.
Simcha: A AgroScout analisa o que acontece no campo, desde o plantio até a colheita. Nós utilizamos drones, satélites e outros sensores para captar dados da lavoura e, através da inteligência artificial, lemos e analisamos essas informações. Com essa tecnologia, conseguimos fornecer insights quase que planta a planta, possibilitando a realização de tratamentos de precisão. O software que oferecemos permite aos usuários coletar dados, principalmente com drones comerciais pequenos. Trabalhamos com a chinesa DJI globalmente e observamos que o uso de drones nas fazendas está se tornando cada vez mais comum.
Simcha: Já estamos vivendo uma nova revolução agrícola, devido à pressão sobre os agricultores para produzir mais de forma sustentável. A única maneira de fazer isso é por meio da adoção de tecnologias e da agricultura de precisão. O uso de drones e inteligência artificial nos proporciona muitos insights sobre a produção, fazendo com que os agricultores tomem decisões antecipadas e assertivas ao longo da safra. Com a utilização dessas soluções é possível analisar tudo o que está acontecendo na propriedade de forma micro, o que antes não era possível, visto que os agrônomos não conseguiam analisar toda a área com precisão.
Simcha: Trabalhamos em muitos hectares ao redor do mundo, com diferentes culturas. Começamos com batatas lá fora, e aqui no Brasil aplicamos a tecnologia na soja e na cana-de-açúcar. Quanto mais dados coletamos dessas culturas, mais insights podemos fornecer. Os resultados dependem da região, cultura e até mesmo do próprio agricultor, mas observamos uma redução de 5 a 10% no uso dos insumos utilizados, com incremento no rendimento das lavouras.
Simcha: Aqui no Brasil o mercado já entende a necessidade da adoção de novas tecnologias no campo. Agora, é preciso convencê-los de como a tecnologia da AgroScout pode ajudá-los. Atualmente, trabalhamos com empresas que oferecem nossa tecnologia ao agricultor. O produtor é o nosso usuário, mas não necessariamente o nosso cliente direto.
Em nossa abordagem, trazemos o ROI (retorno sobre o investimento). Qualquer redução nos insumos afeta diretamente os custos de produção. Nossos usuários, sejam agricultores ou agrônomos, veem com clareza que identificamos situações que não seriam perceptíveis de outra forma. Visualizando problemas precocemente, eles podem melhorar o tratamento e obter um ROI imediato.
Abordamos também como estamos mensurando o efeito do clima e do carbono na agricultura. Qual é a pegada de carbono de uma tonelada de batatas ou de uma tonelada de cana-de-açúcar? Isso depende dos insumos e de quanto você está produzindo por hectare. Começar a medir essas coisas está se tornando cada vez mais importante para os processadores, que estão observando muitos hectares e buscando a redução líquida para o carbono zero e a melhoria da sustentabilidade.
Simcha: No Brasil percebe-se um aumento na adoção de tecnologias. Não consigo comparar com o restante do mundo, mas posso afirmar que dos 20 países em que atuamos — alguns dos principais países agrícolas —, o mercado brasileiro é um dos mais abertos a novas tecnologias e com melhor compreensão de como essas soluções podem trazer eficiência e tornar a produção mais sustentável.
Simcha: No início não pensávamos no Brasil. Peço desculpas por isso, mas as startups israelenses são treinadas a acreditar que precisam entrar primeiro no mercado norte-americano. Agora, posso dizer que o mercado brasileiro é, na verdade, um mercado melhor para nós.
Em 2021, participamos do programa Scaleup in Brazil, realizado pela ApexBrasil, a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) e o Israel Trade & Investment. Esse programa traz startups israelenses para o Brasil. Participamos desse programa durante a pandemia, por meio do Zoom, portanto não tivemos a oportunidade de visitar o país para entender sobre o mercado brasileiro. No entanto, abrimos a nossa empresa aqui no início de 2022. O Brasil é o único país fora de Israel em que nos estabelecemos fisicamente.
Também estamos no AgTech Garage porque queremos fazer parte da comunidade e conhecer as grandes empresas agrícolas, para enfrentar os desafios que a agricultura no Brasil apresenta.
Simcha: Não cultivamos cana-de-açúcar ou soja em Israel, e essas são duas culturas importantes no Brasil e no mundo. O nosso foco é nos aproximar ainda mais dessas grandes culturas nos próximos anos. Fora isso, gostaríamos de trabalhar com várias empresas corporativas, agroindústrias e agricultores em todo o país.
Simcha: Sim, temos uma equipe no México, devido à necessidade de também falarmos em espanhol. Eles dão suporte a toda a América Latina, onde atendemos hoje 8 países. Mas, novamente, o Brasil, devido ao seu tamanho, tem um potencial muito maior para nós.
Simcha: A Agrishow foi incrível, já participei de eventos semelhantes ao redor do mundo, mas aqui é simplesmente maior, e foi incrível conhecer os agricultores, as empresas do setor, as corporações no AgTech Garage, e as pessoas com quem minha equipe trabalha. É divertido estar aqui, pois existem muitas semelhanças entre a cultura israelense e a cultura brasileira.
Existem algumas diferenças como o próprio idioma, mas há vários pontos que nos aproximam, como a paixão pela agricultura e pela tecnologia e também a vontade e abertura para fazer as coisas acontecerem. Isso nem sempre é algo que se vê quando se visita outros países.
Simcha: Nos próximos anos, aumentaremos nossa equipe aqui no Brasil. Expandiremos para além da soja e cana-de-açúcar, incluindo também o cultivo de milho e talvez citros. O objetivo é levar nossos serviços para todas as lavouras existentes no Brasil.
Também estamos estabelecendo novas parcerias com a DJI para utilizar seu drone pneumático multiespectral, para coletar dados em conjunto com a AgroScout.
Simcha: Estamos buscando parcerias com empresas, startups e qualquer pessoa que possa nos ajudar a levar nossa solução e nosso valor para cada hectare no Brasil. Buscamos pessoas talentosas para trabalhar na AgroScout. Conforme crescemos, buscamos engenheiros de software, técnicos de campo e agrônomos para compor uma equipe maior aqui no Brasil.