Brazil Beef Quality lança tecnologia que automatiza parte do processo de análise industrial de carcaças

Com uso de inteligência artificial, a startup BBQ reduz tempo de avaliação na câmara fria sem perder precisão e qualidade

Agosto 22, 2023

Marcelo Coutinho, fundador e CEO da BBQ (Foto: acervo Brazil Beef Quality)

Por Fernanda Cavalcante*

Marcelo Coutinho, doutorando em produção animal, estabeleceu as bases da startup Brazil Beef Quality (BBQ) em 2017 e, no ano de 2020, seu colega de doutorado, Gregori Rovadoscki, integrou-se à equipe. A sinergia entre a experiência de Coutinho na classificação de carne de qualidade e a expertise de Rovadoscki em inteligência artificial e visão computacional culmina agora no lançamento de uma nova tecnologia, o Meat Image.

Essa tecnologia promete atestar os níveis de maciez, sabor e suculência da carne bovina a partir de uma única foto da carcaça fria dos animais dentro do frigorífico. A fase de testes envolveu importantes parceiros, incluindo a VPJ Alimentos, Vermelho Beef e Beauvallet. Com a colaboração dessas empresas, foram analisadas mais de 3 mil imagens, chegando-se a uma acurácia de 90% no método de classificação automático, quando se compara a precisão do Meat Image à observação visual de um profissional de referência. Hoje, no Brasil, a classificação de carcaças, usando critérios definidos indústria a indústria, é feita a olho nu. 

“Nosso sistema tem como objetivo garantir a qualidade dos produtos cárneos, estabelecendo modelos de classificação e requisitos de excelência padronizados. O Meat Image surge para simplificar a classificação das carcaças”, diz Marcelo Coutinho, fundador da Brazil Beef Quality. 

A régua de qualidade é o Beef Score, sistema de classificação de carcaças desenvolvido pela startup, e inspirado nos sistemas de classificação australiano (MSA) e norte-americano (USDA). O algoritmo do Beef Score é calibrado seguindo 15 parâmetros de avaliação de qualidade da carne e as preferências dos consumidores finais, auferidas em mais de  50 mil análises sensoriais desde a fundação do negócio.

Segundo Coutinho, a introdução da tecnologia Meat Image representa uma virada de página importante, com ganhos de precisão incomensuráveis. A visão computacional automatiza a coleta de dados no sistema do Beef Score, aprimorando a análise da qualidade da carne de forma eficiente e precisa, eliminando erros humanos. 

Anteriormente, a avaliação era manual, utilizando fotografias padronizadas e paletas de cores para analisar características como marmoreio e cor da carne, enquanto a espessura da gordura subcutânea era medida manualmente com uma régua.

Esquema de classificação do Meat Image

A metodologia de análise da Brazil Beef Quality é baseada em 15 parâmetros. Cada um deles associado a uma nota específica que, ao final do processo, determina a qualidade da carne, que pode ser identificada como 3 (nível satisfatório de sabor, maciez e suculência), 4 (nível bom) ou 5 estrelas (nível máximo desses atributos).

Os parâmetros básicos, analisados em qualquer frigorífico, ainda são observados segundo o aspecto visual, o que inclui: sexo, raça, peso de carcaça, acabamento e dentição. Na etapa seguinte, na câmara fria, o técnico também avalia outros três parâmetros: método de suspensão da carcaça, ossificação (indicador de maturidade fisiológica) e altura do cupim (indicativo do grau de sangue zebuíno). E é na etapa subsequente, com a carcaça resfriada, que o profissional pode passar a usar o Meat Image. Antes da introdução dessa tecnologia, a BBQ capacitava técnicos para realizarem as avaliações dos últimos 5 parâmetros manualmente.

Para analisar os critérios de espessura da gordura subcutânea, área do lombo, marmoreio e a coloração da carne e gordura, o técnico agora precisa apenas tirar uma fotografia da carcaça, utilizando uma lanterna especial, e posicionando um objeto de tamanho conhecido ao lado da carcaça.

 A lanterna auxilia o sistema a avaliar com precisão aspectos relacionados à cor, enquanto o objeto de referência estabelece parâmetros de proporção. Assim, a visão computacional consegue extrair com exatidão os dados necessários para determinar a qualidade da carne.

Após o registro de todas as informações, o Beef Score classifica em tempo real a qualidade da carcaça, enquanto o Beef Relatório converte os dados em gráficos. Isso possibilita a avaliação em tempo real dos lotes de cada produtor, fornecendo inteligência e suporte para auditoria, bem como para a tomada de decisões na aquisição de matéria-prima, ressalta Coutinho.

Imagens do aplicativo avaliando a qualidade da carcaça (Foto: acervo Brazil Beef Quality)

Tabela dos parâmetros utilizados pela BBQ para garantir a qualidade da carne

Hall de possibilidades

Coutinho destaca que existem diversas aplicações para a tecnologia, como a possibilidade de os frigoríficos utilizarem os dados para tomar decisões mais informadas na aquisição de matéria-prima. 

“Atualmente, o gasto dos frigoríficos com a aquisição de matéria-prima representa de 80% a 90% dos custos totais. Com os dados fornecidos por nossa plataforma, a indústria pode substituir abordagens subjetivas na avaliação das carcaças e passar a contar com um sistema que gera informações e auxilia nesse processo de compra”, diz. 

Além de atender o mercado de bovinos de corte, a BBQ está trabalhando na cadeia de ovinos e suínos. No momento, a startup está adaptando sua tecnologia para atender às demandas específicas desses segmentos e realizando novas pesquisas científicas e análises sensoriais.

*Com edição de Marina Salles

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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