O que Israel nos ensina sobre a simplicidade necessária para inovar

Renata Morelli conta a experiência de visitar o país que se declara uma “nação empreendedora”

Março 3, 2023

Em viagem a Israel, Renata teve a oportunidade de visitar a sede de diferentes startups e conhecer a história por trás do desenvolvimento da região (Foto: Arquivo pessoal)

Por Renata Morelli

Sou engenheira agrônoma, me formei na Esalq-USP em 2005 e não imaginava o mundo de tecnologia que se abriria à minha frente desde então. Drones, telemetria, agricultura de precisão, Big Data, aplicativos, inteligência artificial, machine learning, entre várias outras oportunidades, que permitem ao empresário rural avançar em suas análises e tomar a melhor decisão no momento da compra de insumos, do manejo, da venda de sua produção. Porém, também me deparei com algo que muitas vezes me inquieta: o excesso de complexidade do ecossistema de inovação. 

Desde 2016, estou inserida neste cenário. Foi quando decidi abrir minha startup de educação e enveredar pelas comunidades de inovação do país. Um pouco depois, conheci o AgTech Garage — hub do agro, referência mundial no ecossistema — ambiente que me permitiu evoluir em conceitos e na prática da inovação aberta. 

Em 2022, decidi que era o momento de expandir o meu conhecimento e fazer uma imersão na comunidade de inovação de Israel e essa inquietude ficou ainda mais concreta. Me inscrevi em um programa composto por um curso online e a visita in loco em um dos países mais inovadores do mundo. E o que encontrei lá não foi excesso de complexidade, ao contrário. 

Por que Israel se tornou uma referência em tecnologia?

Afinal, porque Israel se declara como “startup nation”? Lá, eu percebi que a expressão nasceu pautada na superação, diante de muitas dificuldades e de muita escassez. Um país ainda muito jovem, pequeno, desértico, com um histórico de guerras e conflitos religiosos. No livro Israel Nação Empreendedora, de 2009, os autores Dan Senor e Saul Singer contam a história de como o empreendedorismo produziu um milagre na economia israelense. 

Há cinco décadas, Israel iniciou o desenvolvimento de tecnologias de irrigação dentro do deserto de Negev, e um nome interessante para conhecer nesse contexto é o do pesquisador israelense Daniel Hillel. Ele desenvolveu uma versão moderna de um sistema para coletar água e usá-la para irrigar lavouras em áreas muito secas, usado primeiro no Oriente Médio e, depois, no mundo todo. 

O sistema, que vocês já devem ter ouvido falar muito, é o de gotejamento ou “micro irrigação”. Estamos falando de uma irrigação de baixo volume e alta frequência, que vem mudando o padrão de inundação e aspersão de alto volume que vigorou em todo o século XX. Em 2012, Daniel Hillel recebeu o prêmio Prêmio Mundial de Alimentação (em inglês, World Food Prize).

A ideia de Hillel, falecido em 2021, era que o solo mantivesse a umidade ideal necessária ao longo do dia. Graças ao seu importante trabalho, Hillel viajou para dezenas de países para demonstrar e promover essa tecnologia de economia de água. Em Israel, também nasceu uma grande empresa de irrigação por gotejamento, a Netafim, hoje sinônimo de tecnologia e eficiência no uso desse precioso recurso hídrico.

Outro ponto importante que ajudou a construir a fama de Israel no mundo da tecnologia está relacionada ao seu poderio militar. Por conta das constantes guerras no território, o país conta hoje com um escudo antimísseis. 

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Todo o sistema é formado por três elementos essenciais para garantir a eficácia do escudo protetor. Um radar para detectar e rastrear, um centro de controle de armas e uma unidade de disparo dos mísseis, pronta para agir ao menor sinal de alerta. Essa tecnologia permitiu o avanço de novas soluções, como sensores para drones. 

Inovação em Israel nos dias de hoje

Em Israel, pude conhecer presencialmente 12 startups, de Tel Aviv e Jerusalém, e mais de 25 de forma online. Uma das que mais me chamou a atenção foi a Watergen, que chegou a uma tecnologia que consegue converter a água do ar em água potável de altíssima qualidade.

O propósito é dar acesso à água potável para todos os seres humanos do mundo. Experimentando a água, realmente de qualidade, pude perceber o que é o empreendedorismo associado a um propósito de transformação humana. 

Israel é uma nação que, apesar dos desafios, decidiu investir em agregar valor para as pessoas. Resolver problemas de forma prática mostrou ser o grande diferencial de Israel. Às vezes a gente se pega achando que inovação tem que ser algo grande e disruptivo, quando na verdade é conseguir entender um problema e desenhar uma solução que otimize recursos e pessoas.

Pude perceber também que a conexão entre universidades, centros de pesquisa, startups, empresas e o governo ocorre de forma bem articulada no país, permitindo que a solução chegue ao mercado de forma estruturada. 

Para quem quiser conhecer mais sobre a estratégia de inovação de Israel e como os programas ocorrem entre governo, empresas, universidade, centros de pesquisa e startups, recomendo acessar o site Israel Innovation Authority, agência que catalisa as pesquisas e as pulveriza no ecossistema de inovação.

Minha mensagem aos produtores rurais e profissionais do agro referente a essa experiência em Israel é que não adianta querermos trazer soluções muito avançadas quando ainda não entendemos o problema real. Também não adianta pensarmos em tecnologias e inovações que são muito complexas e de difícil implementação no dia a dia. A simplicidade, sem ser simplista, é ainda a forma mais eficaz de implementar a inovação no campo e isso Israel mostra que sabe fazer muito bem!

Renata Morelli é engenheira agrônoma, tem MBA em gestão de negócios e mais de 16 anos de experiência no agro. Tendo se envolvido com o campo da inovação a partir de 2009, trabalhou em multinacionais de proteção de cultivos, cooperativas, startups e na indústria de nutrição de plantas nas áreas de P&D, inovação, marketing e comercial.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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