Oritain chega ao Brasil com tecnologia que desvenda origem de cafés a carnes e algodão

Aplicando ciência forense e análise estatística, a startup é capaz de identificar a origem de alimentos e insumos de mais de 20 indústrias

Junho 14, 2023

Katherine Jones, responsável pela área científica da Oritain em laboratório na cidade de Dunedin, na Nova Zelândia (Foto: Agência Galo/Oritain)

Por Marina Salles

“Um grão de café pode ter história, e como pode”, já diria a Nestlé, dona da marca Nescafé Origens do Brasil, que é a primeira a estampar no país um QR code da startup neozelandesa Oritain nas suas embalagens. A startup usa ciência forense para comprovar a origem de uma série de produtos agrícolas e pecuários e planeja crescer no Brasil não apenas na cadeia do café, mas de outros grãos, como a soja; de fibras, como o algodão; e carnes, como a bovina. 

Responsável pela área científica da agtech, a pesquisadora Katherine Jones explica que a partir de uma amostra de café da Chapada Diamantina, por exemplo, é possível obter a “impressão digital” do grão dessa região, e até da fazenda específica de onde ele veio. Para tanto, a Oritain verifica mais de 40 parâmetros relacionados a elementos geológicos (advindos da Terra) e do solo, como zinco, potássio, sódio etc. Além disso, realiza análises de isótopos estáveis do carbono, nitrogênio, oxigênio e hidrogênio, que dão pistas das condições climáticas a que o produto ficou sujeito. 

“Nosso time é formado por químicos, mas também muitos estatísticos e cientistas de dados, que nos ajudam a entender quantas amostras precisamos para capturar a linha de base de uma origem”, diz a cientista. Ela explica que as variáveis analisadas mudam conforme a cultura e que isso acontece porque as plantas e animais absorvem, naturalmente, diferentes níveis de elementos químicos e isótopos presentes no solo, que passam a fazer parte da sua composição. 

Combinando essas análises com uma base de dados que associa a matéria-prima à sua localização geográfica, a startup tem obtido na casa de 95% de acurácia positiva na determinação da origem de diferentes produtos. Para subir a régua da identificação de origem, a Oritain rodou,  desde sua fundação em 2008, milhões de análises de milhares de amostras de diferentes itens produzidos em todo o mundo. No caso do algodão, por exemplo, Katherine conta que a startup tem mapeada 90% da área produtiva global. A inteligência sobre o café, ela revela, está sendo apenas construída. 

A Nestlé é o primeiro cliente da empresa no Brasil e pioneira no mapeamento do grão. Taissara Martins, gerente de ESG de Cafés e Bebidas da Nestlé, conta que a jornada da companhia em busca de um café mais sustentável começou em 2011, quando criou o Programa Cultivado com Respeito, para produção de cafés de origens respeitando os direitos das pessoas e o meio ambiente. “Hoje temos mais de 1.500 famílias dentro desse programa fornecendo grãos para a Nescafé. A parceria com a Oritain é reflexo do nosso amadurecimento na garantia de origem dessa cadeia”, afirma.

De café a carnes e fibras

Nos últimos anos, a Oritain investiu fortemente no mercado de algodão e também de carnes. Nos Estados Unidos, um de seus clientes é a Cotton USA, uma associação sem fins lucrativos que promove o algodão americano. Na Austrália, um dos destaques fica com a MLA (Meat & Livestock Australia, em inglês), prestadora de serviços de marketing e P&D para criadores. Tanto a Cotton USA como a MLA são reconhecidas internacionalmente por promover a qualidade e origem de seus produtos, sempre associadas ao país, no caso, os EUA e a Austrália, respectivamente. 

No Brasil, além de atestar a origem desse tipo de produto de forma científica para promoção de marca, Katherine acredita que a tecnologia da Oritain possa vir a ser testada para aferir se uma matéria-prima é oriunda de áreas com desmatamento ilegal ou não. Ela explica que a movimentação do gado (no caso brasileiro, de uma fazenda com produção ilegal para uma fazenda legal) pode aparecer na “identidade” verificada pela Oritain. 

“Um cliente pode nos dizer que não quer matérias-primas de uma certa origem e isso facilitaria o processo. De qualquer forma, se o gado transitou de uma área para outra, não vai ter uma ‘impressão digital pura’”, diz. Segundo ela, a tecnologia é versátil e o ideal seria avaliar os padrões demandados pelo cliente para, em seguida, obter dados suficientes para garantir a origem dentro dos protocolos. “Precisaríamos fazer um piloto nesse sentido, para entender melhor o caso de uso. Mas trata-se de obter amostras suficientes e representativas para dizer: o que há em uma origem que é aceitável versus em outra que não é?”, diz.

Modelo de negócios

Em 2022, a Oritain faturou US$ 15 milhões atendendo diversos mercados e a expectativa é acelerar o crescimento a partir da chegada à América Latina. Hoje, suas análises são realizadas sobretudo em laboratórios próprios na Nova Zelândia, Aústria e Austrália, mas a empresa está aberta a realizar parcerias com laboratórios locais que sigam seus padrões de qualidade, caso haja demanda no futuro. 

No exterior, hoje, uma análise de elementos químicos leva em torno de 10 dias para ficar pronta e custa cerca de 100 kiwis (US$ 60). A de isótopos leva, em média, três semanas e custa de 300 a 500 kiwis (US$ 185 a US$ 310). Para o algodão especificamente, ambas podem custar um pouco mais, segundo a pesquisadora, porque a Oritain usa um método próprio para extrair a fibra pura de tecidos feitos também de poliéster e elastano. 

Independentemente dos custos unitários, o modelo de negócios da Oritain é baseado em assinaturas, que dão aos clientes acesso a determinada quantidade de análises mensais e aos resultados de garantia de origem de suas amostras de matéria-prima.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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