Setembro 27, 2023
Os resultados da análise das amostras de solo específicas coletadas em cada uma das propriedades traz sinais que explicam seu desempenho (Foto: Biome4All)
Por Marina Salles
Em parceria com o Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), a Biome4All – startup que analisa informações genéticas do solo para melhorar a eficiência produtiva – identificou micro-organismos e indicadores microbiológicos que ajudam a explicar o alto desempenho das áreas campeãs em produtividade na 15ª edição do Desafio Nacional de Máxima Produtividade da Soja do CESB, referente à safra 22/23.
Dentro de cada uma das seis propriedades vencedoras foram analisadas as áreas de destaque produtivo e aquelas de menor produção, a fim de comparar os contrastes de maior e menor produtividade. “Para chegar aos resultados, utilizamos tecnologias avançadas para fazer o sequenciamento genético das amostras de solo coletadas e, em seguida, processamos e calibramos os dados obtidos”, diz Camilla Castellar, engenheira agrônoma e líder de produto da Biome4all.
A presença de diferentes grupos de microorganismos foi definida por meio de um índice criado pela Biome4all, que vai de 0 a 100, considerando seu banco de referência. Para não haver distorções, o banco de referência usado em cada caso é relativo ao sistema de cultivo e região em que a amostra foi coletada.
“No CESB, nós sempre incentivamos e divulgamos a importância da qualidade física e química dos solos para que as áreas de cultivo entregassem produtividades maiores a cada safra. Mas nos faltavam análises que comprovassem a qualidade biológica destes solos” – o que a parceria com a Biome4All ajudou a endereçar, conta Lorena Moura, Coordenadora Técnica e de Pesquisa do CESB.
Abaixo, os resultados do que a startup encontrou nas amostras de solo específicas coletadas em cada uma das propriedades:
Campeã no Sudeste, e também nacional no Desafio CESB, a propriedade vencedora de Nepomuceno (MG) registrou a maior produtividade entre os competidores, de 134,46 sacas/ha. Ali, foi encontrada a maior frequência, dentro do grupo analisado, de microrganismos que podem executar funções benéficas para a soja, como a produção da enzima ACC-deaminase, que proporciona maior tolerância ao estresse e disponibilidade de fósforo e enxofre (que contribuem com a fertilidade do solo).
Na área de menor produtividade da propriedade, de 85,84 sacas/ha, a frequência de microrganismos patogênicos foi muito maior, com destaque para o gênero Fusarium, que tem espécies causadoras (como Fusarium solani) de uma doença radicular que afeta bastante a soja . “Com essa informação, o produtor pode traçar estratégias de manejo que ajudem a reduzir as condições favoráveis para esses microrganismos, além de investir em produtos biológicos que possam fortalecer seu controle”, diz Camilla.
O campeão da região Sul, de Clevelândia (PR), teve produtividade de 132,83 sacas/ha, e alta frequência de nove grupos que favorecem a produtividade de soja: com produção de ACC-deaminase, produção de compostos voláteis, amenização de metais pesados e degradação de agroquímicos, que proporcionam tolerância ao estresse; controle de bactérias fitopatogênicas e controle de insetos-praga, o que representa alto controle biológico; e disponibilidade de fósforo e enxofre, contribuindo para a fertilidade do solo.
Na comparação com a área de menor produtividade, 70 sacas/ha, houve diferença sobretudo no controle de fungos e nematóides fitopatogênicos. A partir dessa informação, percebe-se que a área de menor produtividade pode ser tratada com foco na melhoria do controle biológico do solo.
Na região Centro-Oeste, a maior produtividade foi encontrada em Itiquira (MT) e atingiu a marca de 106,01 sacas/ha. Nesta área, foram identificadas características importantes para a produtividade: produção de ACC-deaminase (maior tolerância ao estresse), disponibilidade de fósforo, enxofre e Zn, Mn, Mg,Cu e Ca (maior fertilidade do solo) e controle de bactérias fitopatogênicas, bem como de insetos-praga.
Quando comparada à área com menor produtividade, de 77,2 sacas/ha, a análise da área campeã revelou alto índice de biodiversidade de fungos, o que indica maior quantidade de espécies e equilíbrio. Essas informações podem nortear decisões de manejo para melhorar a área de menor produtividade, como a adoção de práticas que visem o aumento de matéria orgânica no solo, segundo Camila.
A área campeã da região Norte, em Riachão das Neves (BA), registrou a produtividade de 119,71 sacas/ha e se destacou em três grupos de micro-organismos que podem executar funções que contribuem para a produtividade de soja, como produção de ACC-deaminase, que proporciona maior tolerância ao estresse; e disponibilidade de fósforo e enxofre (que contribuem com a fertilidade do solo).
Já o talhão de menor produtividade demonstrou um rendimento de 95 sacas/ha. De acordo com a especialista, a propriedade apresentou um bom nível de produtividade, de modo geral, mas o trecho campeão também mostrou menores índices de grupos de microrganismos que podem executar funções desfavoráveis quando em alta frequência, como produção de gás carbônico e oxidação do ferro.
A produção vencedora na região Norte é do município de Mateiro (TO) e apresentou produtividade de 108,6 sacas/ha. Na área auditada foi identificada uma alta frequência de três grupos que favorecem a produtividade: produção de ACC-deaminase, que proporciona maior tolerância ao estresse; e disponibilidade de fósforo e enxofre, que contribuem com a fertilidade do solo.
A área da propriedade com menor produtividade apresentou 82 sacas/ha. Comparando a microbiologia das duas, as principais diferenças encontradas foram a produção de ácido abscísico e o controle de fungos fitopatogênicos. Além de maior atividade metabólica, a área campeã também demonstrou maior ocorrência de microrganismos benéficos, em especial do gênero Trichoderma, o que ajuda a explicar um maior potencial de controle de fungos patogênicos. “Práticas de utilização de produtos biológicos específicos podem ajudar a resolver essas deficiências na área com menor produtividade”, afirma Camilla. Na plataforma da Biome4All, de acordo com ela, é possível ter acesso a uma lista de produtos que auxiliam nesse processo
O campeão da categoria de cultivo irrigado, de Itapeva (SP), apresentou uma produtividade de 111,75 sacas/ha. A área auditada se destacou, em relação a outras da mesma região, em quatro aspectos: produção de ACC-deaminase (maior tolerância ao estresse) e disponibilidade de fósforo, enxofre e Zn, Mn, Mg, Cu e Ca (maior fertilidade do solo).
Quando comparada à área de menor produtividade da propriedade, de 82 sacas/ha, foi observado que a área campeã tem maior frequência de espécies de microrganismos distribuídas de forma equilibrada e maior ocorrência daqueles que são benéficos, em especial, do gênero Trichoderma.
A análise revela que a biodiversidade de fungos e a ocorrência de gêneros benéficos no solo pode ser melhorada. Algumas práticas de agricultura regenerativa, que visam o acúmulo de matéria orgânica no solo, e o uso de diferentes plantas durante os ciclos de cultivos são bons caminhos para isso, bem como o uso de produtos biológicos para acelerar o estabelecimento de microrganismos benéficos.
Essas informações reforçam que as características químicas e físicas do solo, cultivares utilizadas e práticas de manejo impactam em muitas diferenças na microbiologia. Observar os micro-organismos que vivem no solo é mais um pilar a ser considerado na escolha de práticas de manejo, uma vez que a microbiologia tem um papel importante para um melhor aproveitamento do uso de insumos e na sustentabilidade dos cultivos, de acordo com Camilla Castellar.
Os resultados mostraram que, de modo geral, as áreas que apresentaram maior produtividade lançam mão de práticas que contribuem para um solo com alto potencial de diferentes funções microbianas. Entre elas estão, por exemplo, o uso de plantas de cobertura, sistema de integração lavoura-pecuária ou rotação; uso de produtos biológicos; nutrição equilibrada na primeira camada de solo (0-10 cm) e ausência de revolvimento do solo.
A adoção desse tipo de prática tem impacto positivo na microbiologia do solo e, consequentemente, na produtividade. De acordo com um estudo da B4A que comparou outras áreas que adotam práticas de agricultura regenerativa apresentam: 19% de aumento no número de espécies; 12% de redução de patógenos; 28% de aumento de gêneros benéficos para as plantas; 11% de aumento da resiliência do solo; 18% de aumento da supressividade e 35% de aumento na sustentabilidade.