Setembro 26, 2023
Participação do ecossistema de inovação no Programa Soja Sustentável do Cerrado (Foto: AgTech Garage)
Por Fernanda Cavalcante*
O ano era 2021 e começava o primeiro ciclo do Programa Soja Sustentável do Cerrado, uma das iniciativas de conservação dos biomas brasileiros promovida pelo Land Innovation Fund (LIF). Em parceria com o AgTech Garage e com apoio da Cargill e Embrapii, o programa nasceu com a meta ambiciosa de fomentar o empreendedorismo e a inovação em prol da produção de soja livre de desmatamento. De lá para cá, a Embrapa e o CPQD também se juntaram à iniciativa que, ao longo de quase três anos, selecionou 28 startups. Em colaboração, 22 delas implementaram 18 projetos. Parte fundamental da cadeia, 20 produtores rurais do Programa For Farmers e 29 pesquisadores do Programa Fellowship também participaram ativamente dessa construção.
“Quando recebemos o desafio de construir o PSSC junto com o LIF, tínhamos o sonho grande de reunir as startups, produtores rurais, pesquisadores e empresas nos ambientes em que a inovação acontece, e este tour imersivo se concretizou agora na edição 2023”, conta Aline Amorim, Gestora de Comunidade do AgTech Garage – parte do network PwC. Ao lado de Henrique Provenzzano, Coordenador de Programas de Inovação Aberta do hub, ela participou das primeiras reuniões de ideação que culminaram nos três dias de evento do PSSC em Campinas (SP) e Piracicaba (SP) neste mês de setembro.
Na programação, uma agenda repleta de cases sobre as experiências dos anos anteriores e a oportunidade única de visitar tanto o laboratório do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicação (CPQD) como o Centro de Inovação da Cargill. Nesses ambientes, o palco foi montado para uma jornada produtiva, trazendo diversos insights para os empreendedores darem start nos projetos do PSSC. As atividades terminaram no AgTech Garage, já amplamente frequentado pelos empreendedores.
A fim de conhecer a atuação das empresas que fazem o programa acontecer, e poder observar a sinergia entre os negócios delas e das startups participantes do PSSC, o segundo dia de imersão começou no CPQD e terminou no Centro de Inovação da Cargill.
Visita ao CPQD
No CPQD, onde faixas de pedestres coloridas e as artes nas paredes refletiam as cores da marca, o ambiente externo era mais do que convidativo a uma exploração dos prédios. O CPQD é reconhecido como uma das principais instituições de pesquisa e desenvolvimento da América Latina, sobressaindo-se na criação de soluções de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) em diversos setores, como telecomunicações, agronegócio, serviços financeiros, utilities, indústrias, cidades, varejo e segurança. A organização desempenha um papel fundamental na vida dos brasileiros, oferecendo desde sistemas de suporte à operação de redes de telecomunicação e maquininhas de pagamento até soluções que contribuem para a prevenção de fraudes, riscos e perdas.
Ambiente externo do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicação (Foto: Isabella Cirello/AgTech Garage)
No Complexo Laboratorial de Conectividade, os empreendedores conheceram uma estrutura ampla, composta por diversos ambientes destinados a ensaios e testes laboratoriais. Este complexo tem como objetivo a certificação, avaliação e qualificação de equipamentos e soluções provenientes de vários fabricantes. Lá são feitas análises de desempenho e performance de softwares e aplicações, é avaliada a conformidade de produtos e sistemas de telecomunicação, bem como de outras soluções personalizadas. Segundo uma das startups selecionadas do programa, visitar esse ambiente foi crucial para entender o potencial que o CPQD tem de contribuir com a validação do seu produto antes de ir a mercado.
Parte externa do Complexo Laboratorial de Conectividade do CPQD e sala de testes laboratoriais (Foto: AgTech Garage)
Câmaras blindadas medem a taxa de energia eletromagnética emitida por aparelhos de conexão sem fio, no ambiente (imagem 1) e no corpo humano (imagem 2) (Foto: AgTech Garage)
A segunda parada do grupo foi no Centro de Inovação da Cargill, onde a porta de entrada já chama a atenção, ao sinalizar num mapa mundi a localização de todos os Centros de Inovação da companhia — sendo o de Campinas o único da América Latina.
Não muito longe dali, ao alcance da vista dos participantes do tour, estava uma prateleira com uma série de produtos fabricados pela Cargill. É o caso do óleo Liza, da Pomarola, do molho de tomate Elefante e do óleo composto Maria, comumente encontrados nas cozinhas das casas dos brasileiros. A Cargill é uma das maiores empresas no setor de agronegócios em escala global, contando com divisões de soluções em alimentos, nutrição animal e suprimentos agrícolas.
Ambiente externo e interno do Centro de Inovação da Cargill em Campinas (SP) (Foto: AgTech Garage)
Na visita ao Centro de Inovação, os convidados puderam explorar as instalações onde a empresa desenvolve produtos tanto para uso próprio quanto de terceiros. O local é totalmente equipado com tecnologias avançadas, incluindo diversos laboratórios, uma cozinha experimental e uma área destinada à realização de dinâmicas de grupo e análises sensoriais, permitindo assim a experimentação de novos ingredientes e testes de produtos alimentícios.
Para a Grão Direto, startup que tem uma plataforma de comercialização de commodities, a visita à Cargill foi uma oportunidade de testemunhar a transformação do produto que eles comercializam em sua forma bruta, bem como de acompanhar o processo de como esse produto pode chegar ao consumidor final.
Outro destaque do evento foi a troca de experiências com startups que participaram de edições anteriores do programa. Cada empreendedor apresentou seu case, como a iniciativa Green Pixel — plataforma para negociação de contratos futuros a partir de pixels verdes, coletados por satélite e armazenados em sistema blockchain, desenvolvido no PSSC pela startup SciCrop.
E também o HyperT (HyperTransparency), fruto da união da expertise de quatro startups (AgTrace, BrCarbon, BrainAg e Um grau e meio), que criaram uma solução integrada de rastreabilidade, monitoramento e balanço de carbono. A plataforma online em formato blockchain é capaz de traçar uma análise completa da propriedade rural, do levantamento da documentação necessária para regularização socioambiental à análise de prevenção de danos ambientais; do potencial de retorno econômico através de créditos de carbono para áreas com excedente de vegetação nativa e restauração ecológica ao estudo de risco de conversão para agricultura de áreas de reserva legal.
Além disso, os participantes assistiram a apresentações sobre a expansão da soja no cerrado, os desafios enfrentados pelos produtores rurais e conferiram os detalhes da pesquisa sobre a Mudança de Uso do Solo no MATOPIBA. Ao final de cada apresentação, todos os envolvidos eram convidados a dividir sua visão sobre o tema, discutindo os principais obstáculos relacionados ao assunto apresentado.
Por fim, o evento promoveu dinâmicas em grupo sobre o tema central do encontro: a soja sustentável no Cerrado. Essas interações foram fundamentais para compreender os principais desafios e oportunidades que afetam o campo, bem como pensar soluções colaborativas para construir um futuro melhor.
Interação do ecossistema durante as dinâmicas (Foto AgTech Garage)
Com o primeiro sonho grande conquistado, o time AgTech Garage e seus parceiros já vislumbram voos mais altos. Para Aline Amorim, responsável pelo programa no AgTech Garage, o futuro está na expansão do impacto da iniciativa. “Daqui em diante, buscaremos alcançar mais produtores e ampliar o horizonte do PSSC, quem sabe, chegando até a mesa do consumidor. Nesse sentido, nosso compromisso continua a ser com a diversidade de soluções, para enfrentarmos desafios já conhecidos e aqueles que ainda descobriremos”, diz. Ela também enfatiza que chegou a hora de colher os frutos, e ver a cadeia adotar as tecnologias já desenvolvidas.
*Com edição de Marina Salles