Trator autônomo, máquinas elétricas, Big Data, soluções conectadas com startups: como a John Deere vê o futuro da tecnologia no agro?

Em entrevista ao AgTech Garage News, Dan Leibfried, Diretor de Inovação da John Deere para América Latina, compartilha a visão do pipeline estratégico de inovação da empresa

Fevereiro 8, 2023

Por Marina Salles, com apoio à tradução de Rafael Matsubara

Na John Deere, Dan Leibfried, Diretor de Inovação para América Latina, tem uma missão: ajudar a pensar o futuro da companhia. Desde 1997 na empresa e tendo ocupado diferentes cargos, ele entende como uma de suas principais responsabilidades tornar as operações mais eficientes e sustentáveis ​​para os agricultores ao redor do mundo.

Em entrevista exclusiva para o AgTech Garage News, ele compartilha sua visão para o pipeline estratégico da John Deere, revela como encara a adoção da tecnologia associada ao fator humano e conta o que o mantém acordado à noite.

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AgTech Garage News: Quais são as prioridades no pipeline de inovação da John Deere?

Dan: Se resume a duas coisas: máquinas inteligentes e máquinas que ficam mais inteligentes com o tempo, permitindo melhores tomadas de decisão. Quando pensamos no pipeline de tecnologia em torno de máquinas inteligentes temos por trás a aplicação em sensores, com computação de alto desempenho e algoritmos de aprendizado de máquina para identificar situações adversas no campo e agir em relação a elas. Por exemplo, na pulverização agrícola usamos câmeras para detectar a diferença entre erva daninha e cultura. O objetivo é aplicar herbicidas apenas nas ervas daninhas, o que abre a possibilidade de reduzir as aplicações em até 90%. Isso não é bom só para o meio ambiente, mas também para a rentabilidade na agricultura. Essa é a primeira peça.

A segunda peça para tomar melhores decisões… bom, você sabe, nosso Centro de Operações John Deere é uma plataforma aberta e conectada a mais de 200 empresas em todo o mundo, incluindo empresas aqui no Brasil. E, ainda mais daqui para frente, conforme nossa parceria com o AgTech Garage avança, a plataforma de dados vem para ajudar os agricultores a tomar decisões em tempo real e gerenciar suas operações, bem como aumentar a eficiência na cadeia de valor, em geral.

AgTech Garage News: E você pode nos dar exemplos, destacar os principais projetos? Noticiamos o anúncio do trator autônomo que vocês lançaram. Quais os outros destaques no pipeline?

Dan: Posso destacar produtos que já estão no mercado, colhedoras de cana-de-açúcar, por exemplo. Essas máquinas têm tecnologia com câmeras no próprio elevador, para detectar o rendimento da lavoura e traçar o mapa geoespacial da colheita, além de entender se há outras coisas passando além da cana, e ajustar as configurações gerais da máquina para otimizar isso. Em colheitadeiras de grãos, também temos câmeras no sistema para detectar a qualidade do grão que entra na máquina e fazer ajustes ao longo do dia conforme as condições mudam.

Tecnologias como o Exact Merge, que estão no mercado há vários anos, permitem que os clientes obtenham um plantio muito preciso de soja, algodão ou milho. Em última análise, você não apenas dirige com altos níveis de precisão, mas também pode aumentar sua velocidade como resultado dos acionamentos elétricos do sistema para aumentar sua produtividade. Esses são grandes exemplos de utilização de tecnologias para impulsionar a produtividade agrícola sustentável.

AgTech Garage News: Sobre o Centro de Operações John Deere, qual a importância da integração com outras máquinas e soluções do mercado?

Dan: Quando você pensa na agricultura, não são apenas máquinas John Deere, há outras marcas, implementos e veículos de serviço que estão transportando sementes e fertilizantes até as máquinas agrícolas, ou levando os grãos provenientes delas. Ter toda essa frota conectada ao Centro de Operações da John Deere é essencial para impulsionar a produtividade, principalmente em um país como o Brasil. Com as duas safras que ocorrem em muitas áreas, a capacidade de gerenciar a operação, quando você está colhendo e plantando na mesma época mais ou menos, é absolutamente necessária.

AgTech Garage News: Aprofundando no assunto do trator autônomo, o que levou à sua priorização? Pode fazer a conexão com a demanda dos clientes?

Dan: Com certeza, você sabe, há algumas razões pelas quais acreditamos que a autonomia é uma peça-chave do futuro. A realidade é que, à medida que a população cresce e a demanda por alimentos cresce, fazer mais com menos se torna um fator crítico, e isso será necessário não apenas para gerenciar os insumos, mas garantir que você tenha a quantidade certa de mão de obra e qualifique essa mão de obra para realizar as tarefas mais importantes na operação.

Não há mais e mais pessoas se mudando para áreas rurais em todo o mundo. Na verdade eles estão indo na direção contrária. Então, ter tecnologia autônoma em nosso pipeline será essencial, tanto para impulsionar o desempenho da execução do trabalho no campo, bem como para mitigar o desafio de mão de obra que persiste em diversas áreas do globo.

Ainda temos muitas oportunidades pela frente na autonomia, estamos apenas no começo. Temos a forte visão de que haverá um sistema de produção totalmente autônomo para soja ou milho, ou a combinação dos dois, ou para outras cadeias de valor, até o final desta década, então estamos realmente nos esforçando não apenas para ir, mas para ir rápido.

AgTech Garage News: E quando essa tecnologia da John Deere chega ao Brasil?

Dan: Essa é uma pergunta muito importante e que recebo com bastante frequência. Trabalhamos para trazer algumas unidades para o Brasil em 2022, para começar a experimentar, que é realmente como estamos desenvolvendo mais de nossa tecnologia: experimentando e inovando com os clientes. Conforme obtemos alguns aprendizados, poderemos responder melhor à questão da linha do tempo do lançamento no Brasil. Depois que tivermos alguma experiência no mundo real no mercado brasileiro com os veículos autônomos.

AgTech Garage News: Como vocês estão trabalhando com as startups aqui no Brasil para desenvolver soluções conjuntas e integrar a gestão das máquinas?

Dan: Essa é uma ótima pergunta. Foi há cerca de 5 anos que começamos a nos integrar mais com startups, o que incluiu até mesmo a aquisição de uma empresa no Vale do Silício, chamada Blue River Technology, com quem temos trilhado uma incrível jornada. A tecnologia das máquinas John Deere com a experiência da Blue River, em segmentos como aplicação de sementes, defensivos e autonomia, realmente acelerou nossas capacidades como organização para agregar valor.

Em 2018, iniciamos um programa de colaboração chamado Startup Collaborator Program, que é baseado nos EUA, mas tem abrangência maior em termos geográficos. Nele, colaboramos com startups como a Data Farm, agtech brasileira de monitoramento do solo, de dados agronômicos. Foi aí que iniciamos o contato também com a Bear Flag Robotics, que adquirimos em 2021, novamente, outra peça para nos ajudar a impulsionar a autonomia em um ritmo ainda mais rápido.

Depois, anunciamos a evolução da nossa parceria com o AgTech Garage. Somos um Innovation Partner no AgTech Garage em Piracicaba (SP) e esta parceria está realmente abrindo nossos olhos para as oportunidades de cooperação com startups e de trabalhar com a inovação aberta. Porque, é fato, o produtor não cultiva sozinho e não produz apenas com a John Deere. Por mais que quiséssemos poder dizer que somos o único parceiro que ele tem, sabemos que existem outras opções no ecossistema e ter uma plataforma de dados aberta como o Centro de Operações da John Deere nos permite fazer parcerias com startups.

AgTech Garage News: Quais são suas expectativas para desenvolver tecnologias no Brasil com a ajuda do AgTech Garage?

Dan: A indústria como um todo vê o Brasil como uma grande oportunidade. Os clientes, os players globais de sementes, produtos químicos, fertilizantes, bem como equipamentos. O Brasil é um componente crítico para alimentar o mundo daqui para frente e o ritmo de mudança da agricultura brasileira, não apenas ao longo dos últimos 40 anos, mas ao longo dos últimos 5 anos, tem sido impressionante.

Vemos que estamos em um grande ponto de inflexão como empresa e as oportunidades no Brasil só vão aumentar ao longo da próxima década. Portanto, estamos vendo quais investimentos precisamos fazer, quais investimentos precisamos acelerar e com quem precisamos estabelecer parcerias para nos consolidarmos como grandes parceiros de nossos clientes aqui no mercado brasileiro ao longo do próximo ano.

AgTech Garage News: Dan, a sustentabilidade é algo fundamental para nós do AgTech Garage e também para a John Deere. Quais os projetos em torno desse tema? Vocês já têm uma parceria com uma startup de veículos elétricos, sim?

Dan: Direi algumas coisas sobre isso. Número um, em fevereiro de 2022, a John Deere divulgou um relatório de sustentabilidade onde definimos o que chamamos de nossas ambições, metas entre agora e 2026, além das metas entre agora e 2030. E uma quantidade significativa desses objetivos gira em torno da sustentabilidade. Levamos isso muito a sério e nossos clientes também. Nossos clientes são, em última análise, “administradores da terra”, e isso é importante lembrar, são agricultores há gerações e querem cuidar de suas terras tanto quanto aqueles que não plantam e colhem, mas também querem cuidar da terra.

No que diz respeito aos projetos em que estamos trabalhando, em torno da eletrificação, fizemos investimentos em uma empresa sediada na Áustria chamada Kreisel Electric, para acelerar nosso aprendizado em relação aos veículos elétricos. É provável que haja algumas áreas onde a adaptação acontecerá primeiro, e é aí que estamos focando, e há algumas outras em que a tecnologia não está totalmente pronta para atender às necessidades e à intensidade das operações em grandíssima escala. Então, estamos fazendo experimentos nessa área e fizemos o investimento na Kreisel.

Em áreas como combustíveis alternativos, fizemos investimentos na Clear Flame Technology, baseada nos EUA, para experimentar e entender quais combustíveis alternativos poderiam ser viáveis, tanto do ponto de vista da infraestrutura quanto do desempenho, então esses são dois exemplos. Tenho outro no Estado de São Paulo, que é com a startup Data Farm. A Data Farm e a John Deere têm trabalhado em pilotos e experimentos no mercado para entender como medir o carbono no solo, desenvolver uma linha de base, entender quais práticas podem impactar ainda mais positivamente no futuro e, finalmente, encontrar soluções que possam promover avanços para a sustentabilidade na agricultura. O céu é o limite e, novamente, estamos nos estágios iniciais de muitas dessas tecnologias, e ter o suporte do cliente para fazer tudo isso acontecer é absolutamente entusiasmante.

AgTech Garage News: Quais os principais desafios em relação ao biometano e aos veículos elétricos?

Dan: Não quero me aprofundar muito nisso, pois poderíamos passar horas nesse assunto e obter insights ainda mais profundos com especialistas, mas acho que há alguns desafios relevantes. Em primeiro lugar, a infraestrutura. Quando pensamos em veículos elétricos e máquinas elétricas na agricultura, para começar, você precisa garantir que tenha infraestrutura de carregamento. Você precisa pensar no fato de que essas máquinas não funcionam apenas por 30 ou 40 minutos, ou 1 ou 2 horas, às vezes as máquinas agrícolas são usadas 24 horas por dia, 7 dias por semana, então pensar em como você pode carregar, recarregar, trocar baterias, ter infraestrutura para isso, esse é o desafio, a mesma coisa ocorre com o biometano. A capacidade de armazená-lo, de colocá-lo no sistema, de transportá-lo com segurança e colocá-lo no sistema com segurança, esses são alguns dos desafios que persistirão para sempre, mas que são maiores hoje e nos quais vamos precisar trabalhar.

AgTech Garage News: A respeito do comportamento dos produtores em relação à digitalização, você vê mudanças recentes nos EUA e no Brasil?

Dan: Sim, quero dizer, como em outros campos, a adaptação segue um padrão universal para toda base de clientes. Para diferentes tecnologias, a curva natural se aplica. Você tem os usuários iniciais, totalmente envolvidos com as principais tecnologias e também com a digitalização, que adotam isso o mais rápido possível. Tem os que vão olhar para seus vizinhos, seus amigos e outros influenciadores para tomar a decisão de estarem prontos ou não. Mas, em geral, eu diria que já vi a adoção de tecnologia na agricultura, incluindo a digitalização, crescendo a um ritmo muito acelerado. Agricultores e produtores em todo o mundo reconhecem que fazer mais com menos não é fácil, e que sem dados é realmente difícil de entender se você está fazendo as escolhas certas.

Eu vejo produtores agrícolas nos EUA, Europa, Austrália, no Brasil e na América do Sul em geral, adotando a oportunidade que a digitalização lhes oferece. Sempre haverá desafios em descobrir como transformar dados em insights e, claro, não apenas insights, mas em decisões e ações. Estamos passando por essa curva agora, novamente, outra oportunidade emocionante e de transformação. Vamos olhar para trás daqui a 10, 15 ou 20 anos, e nos perguntar como vivíamos sem isso, assim como um dia foi com o GPS. Como se produzia sem as informações geográficas valiosas que nos ajudam a tomar melhores decisões em nossas atividades?

AgTech Garage News: Quais são seus maiores desafios trabalhando com Big Data? Vemos que os empreendedores buscam levantar grande volume de dados no campo, mas que ainda é desafiador gerar valor a partir deles para o agricultor. Como a John Deere lida com isso?

Dan: Vejo que você deve pensar, antes de mais nada, nas perguntas mais importantes a serem feitas. Quando você entende quais perguntas fazer, pode começar a buscar os dados para responder a essas perguntas. E não apenas os dados, mas com que frequência precisa deles, a que horas, se é em tempo real, ou quase em tempo real, se vai precisar desta informação em até seis meses contando de agora. Descobrir quais perguntas você precisa fazer é o primeiro passo e, depois, entender quais fluxos de dados são necessários para ajudar a responder a essas perguntas. Essa é uma oportunidade em muitos espaços, é assim que vejo.

Acredito que a computação em nuvem e a conectividade ainda demandam melhorias de infraestrutura ao redor do globo e, em particular, no Brasil. Se você tem uma pergunta que precisa ser feita, e sua pergunta requer mais dados em tempo real para você agir sobre determinado ponto, sem conectividade isso se torna uma barreira real. Portanto, os desafios são quais perguntas fazer e se tenho conectividade para atender à necessidade em que o tempo real é absolutamente crítico, esse é outro desafio. Em seguida, é preciso ser capaz de pensar sobre causa e efeito e também entender que os dados transformados em insights e ações levam à geração de valor que você prometeu ao usuário.

AgTech Garage News: Aqui no Brasil estamos dando os primeiros passos na conectividade 5G. Na sua opinião, isso vai mudar o jogo na agricultura?

Dan: Eu tive essa discussão em outras áreas do globo e a realidade é, se eu for direto e franco nisso, precisamos de conectividade, seja 3G ou 4G hoje. Muitas vezes falamos sobre a próxima geração, 5G ou 6G, e outras coisas no caminho, mas a realidade é que precisamos do nível básico de conectividade como ponto de partida. O 5G abrirá novas oportunidades, o mundo mostrou que a banda larga de menor latência é interessante, mas quando não existe é realmente frustrante. Garantir que tenhamos pelo menos uma banda básica e, possamos construir a partir daí, acho que é provavelmente a virada mais essencial neste ponto.

AgTech Garage News: Como executivo de inovação, o que te tira o sono à noite?

Dan: Essa é uma pergunta muito boa. Eu diria que engajar as pessoas continuamente, e não apenas dentro da John Deere como empresa, mas engajar nossos parceiros de distribuição na nossa jornada, nossos clientes e os operadores dos nossos clientes, dando velocidade de atualização sobre a melhor forma de utilizar a nossa tecnologia. Um dos maiores desafios é garantir que as pessoas saibam o que têm na mão, como utilizar a tecnologia, que ela seja intuitiva e que, no fim do dia, a gente extraia valor dela. Para mim, as principais peças, no ritmo de mudança que estamos imprimindo quando se trata de tecnologia, é a cadeia de pessoas. Seja de dentro da John Deere, dos parceiros ou dos concessionários. Precisamos garantir que eles saibam o que têm na mão, como utilizar os equipamentos e tirar o melhor deles. Isso é provavelmente o que mais me mantém acordado à noite.

AgTech Garage News: E o que você diria para um operador que vai ter de conviver com o trator autônomo? Futuramente vamos precisar desse pessoal no campo?

Dan: Eu acredito, absolutamente, que as pessoas são essenciais. Novamente, esta não é uma oportunidade de reduzir a mão de obra no campo, é realmente uma questão de empregar a mão de obra, as pessoas que estão nas fazendas, em funções que gerem o maior valor agregado. Quando falamos de agricultura, há muitos processos acontecendo no campo e, em um lugar como o Brasil, com duas safras e produção em escala, as pessoas vão ter empregos. Não acho que isso seja uma preocupação. Ao longo de toda a minha vida, não acredito que veremos fazendas totalmente autônomas, sem ninguém envolvido nas operações. Mas vejo a gente sim engajando as pessoas que estão disponíveis para fazer as atividades mais valiosas, nas quais podem aplicar seus talentos. Então, não é redução de trabalho, é realmente aumento de trabalho com a alocação de pessoas para resolver os problemas mais importantes.

AgTech Garage News: Foi um prazer falar com você. Há algo que você gostaria de acrescentar?

Dan: É um prazer também. Vivemos um momento emocionante agora. A agricultura é muito importante não apenas para a economia brasileira, mas para a economia global e para o abastecimento global de alimentos. O progresso que o Brasil fez, de novo, ao longo dos últimos 40 anos e que continua a acelerar, é incrível. Esse é um grande momento para fazer parte da agricultura e a John Deere está muito empenhada em inovar continuamente não apenas dentro de casa, mas com parceiros como o AgTech Garage e as startups que se conectam ao hub, para acelerar a geração de valor que os clientes precisam, a fim de fazer mais com menos e de impulsionar a níveis ainda mais altos não apenas a sustentabilidade agrícola, mas a lucratividade que, no final, impulsiona a sustentabilidade.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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