10 tendências do agronegócio para 2026: o que deve moldar o futuro do agro

Para Seraphim, o ano exige gestão e o uso estratégico de tecnologias como IA, pulverização seletiva, genética avançada, crédito digital e mais 

Renato Seraphim durante o Encontro na Arena do PwC Agtech Innovation (Foto: PwC Agtech Innovation).

Por Fernanda Cavalcante, Analista sênior de Mercado e Marca do PwC Agtech Innovation.

As tendências do agronegócio para 2026 apontam para uma mudança estrutural na forma como o setor opera. Depois de anos marcados por expansão de área, crédito favorável e crescimento de volume, o agro brasileiro entra em um novo ciclo, no qual gestão, eficiência e qualidade da decisão passam a pesar mais do que o tamanho da lavoura.

Essa leitura foi um dos principais pontos de reflexão do Encontro na Arena, iniciativa do PwC Agtech Innovation, e foi sintetizada por Renato Seraphim, especialista em estratégia e inovação: “este é o ano da virada — quando a gestão se torna mais importante que o tamanho da lavoura”.

Os números explicam por quê. Entre 2021 e 2022, o agro viveu um período de preços elevados e crédito favorável, o que estimulou investimentos, expansão de área e maior apetite a risco. A partir de 2023, porém, o cenário mudou. O custo dos insumos subiu, as commodities recuaram, a Selic avançou para patamares altos e a inadimplência cresceu, especialmente entre produtores mais alavancados. Como resume Seraphim, “em quatro safras, a margem líquida caiu 73%, passando de cerca de R$ 2.800 por hectare para algo próximo de R$ 750 por hectare.”

A pressão cresce quando se considera a dolarização dos insumos e a dependência de fertilizantes importados. Nesse cenário, reforça ele, “o produtor passa a lidar com maior volatilidade e precisa se apoiar em ferramentas como trava de custos, seguro agrícola, planejamento financeiro e tecnologias capazes de entregar previsibilidade e eficiência.”

Ao mesmo tempo, o Brasil carrega um diferencial real: a sustentabilidade do sistema produtivo, com adoção consolidada de rotação de culturas, plantio direto, biológicos e preservação de vegetação nativa. O desafio, observa, está em transformar essa prática em valor explícito. “Não basta dizer que somos sustentáveis, é preciso provar com dados”, enfatiza Seraphim.

Mesmo sob pressão, as projeções para a safra são robustas. Ele estima que “o país deve colher cerca de 354 milhões de toneladas em 82,3 milhões de hectares em 2026”, reforçando o peso do Brasil no mercado global. Mas alerta que operar em um ambiente de preços baixos exige um novo olhar estratégico. “A era de plantar muito acabou. Agora, precisamos plantar certo.”

Diante desse quadro, a mensagem para 2026 é clara: mais precisão, mais eficiência e decisões cada vez mais orientadas por dados. Com esse pano de fundo, surgem as 10 tendências que devem orientar o agro ao longo do ano.

1. Inteligência Artificial aplicada à decisão agronômica

Apesar do avanço tecnológico, o campo ainda explora pouco o potencial dos dados que produz. Embora o produtor gere informações sobre clima, solo, máquinas e pragas, grande parte desse volume não se converte em decisão prática. Para Seraphim, a inteligência artificial inaugura um novo patamar ao deixar de ser apenas um sistema de alerta e se tornar uma ferramenta de prescrição agronômica, integrando diferentes fontes de informação para orientar o que fazer, quando fazer e em qual dose. Soluções como Digifarmz e SciCrop já colocam isso em prática, reduzindo erros, otimizando insumos e elevando eficiência operacional.

2. Visão Computacional

A aplicação de defensivos ainda é ampla e pouco precisa, tratores e aviões pulverizam grandes áreas sem considerar a localização exata do problema. A visão computacional muda essa dinâmica ao identificar planta a planta onde intervir. Tecnologias como o See & Spray, da John Deere, já apresentam estudos com reduções de até 80% no uso de herbicidas ao combinar câmeras, sensores e inteligência artificial. Soluções como Cromai e Zait levam esse conceito ao campo brasileiro, permitindo pulverização seletiva em tempo real, com benefícios diretos em custo, eficiência e indicadores ESG.

3. Edição Gênica de Precisão (CRISPR)

A edição gênica ganha relevância ao permitir ajustes precisos no DNA das plantas sem inserir genes externos, acelerando o desenvolvimento de materiais mais tolerantes a seca, calor e pragas. A tecnologia CRISPR, uma espécie de “tesoura molecular”, já avança com startups como a InEdita Bio. O impacto, destaca Seraphim, é profundo: “hoje, apenas 30% da soja permite segunda safra. Imagine se tivermos híbridos resistentes à seca permitindo que 100% da soja seja seguida por outro cultivo, isso muda completamente a economia do agricultor.” Ele reforça que intensificação será decisiva: “quem não fizer duas ou três culturas por ano está ficando para trás.”

4. Robótica e FaaS

A robótica surge como alternativa complementar em operações que exigem regularidade e precisão, especialmente em regiões com oferta limitada de operadores. Equipamentos como o Solinftec Solix mostram como o monitoramento e a aplicação autônoma podem apoiar a rotina agrícola. Esse avanço dialoga com o modelo Farm‑as‑a‑Service (FaaS), em que o produtor contrata serviços por hectare, reduzindo imobilização de capital e ampliando acesso a tecnologias avançadas. Para o especialista, a infraestrutura é o principal desafio: “hoje, 67% da área agrícola brasileira não tem conexão. Enquanto isso não for resolvido, não entregaremos o potencial dessas tecnologias.”

5. Crédito 360°

O financiamento agrícola passa por transformação à medida que plataformas digitais evoluem de soluções de análise de risco para operações financeiras completas. TraiveTerraMagna e Tarken ilustram esse movimento ao digitalizar etapas historicamente marcadas por burocracia — da avaliação ao desembolso. Na visão do especialista, essas ferramentas tornam o crédito “mais rápido, mais transparente e mais aderente à realidade do campo”, atendendo a um produtor que busca previsibilidade em um ambiente de juros altos e margens comprimidas.

6. Nanotecnologia

A nanotecnologia desponta como caminho para maior eficiência em insumos ao permitir que ingredientes ativos cheguem de forma mais precisa ao alvo. Embora já consolidada na medicina, sua aplicação no agro ainda é inicial, mas demonstra alto potencial. Empresas como RevellaNanoscoping e Krilltech desenvolvem formulações nano para fertilizantes, defensivos e tratamento de sementes. Seraphim sintetiza o avanço: “há um espaço enorme para evoluir”, especialmente em busca de produtividade com menor impacto ambiental.

7. Rastreabilidade, compliance e ESG

Com mercados exigindo evidências concretas de origem e impacto ambiental, a rastreabilidade se torna peça-chave para transformar sustentabilidade em valor econômico. Mesmo com práticas consolidadas, como plantio direto e preservação de vegetação nativa, o desafio ainda é estruturar os dados. Como reforça o especialista, “não basta dizer que somos sustentáveis, é preciso provar com dados.” Soluções como Agrotools e SafeTrace ampliam as possibilidades de documentação e análise, conectando manejo, origem e métricas ambientais de forma transparente.

8. Digital Twins (Gêmeos Digitais)

Os gêmeos digitais evoluem como ferramentas de apoio à decisão ao permitir que o produtor simule cenários antes de executá‑los no campo. SciCrop e BemAgro já integram dados climáticos, sensores e históricos de manejo para testar estratégias de irrigação, adubação e operação com menor risco. Para Seraphim, esse movimento traz previsibilidade: “permitir errar no digital para acertar no real.” A lógica também se aplica a máquinas, com modelos que simulam desgaste, manutenção e vida útil.

9. Automação da classificação

A automação da classificação de grãos avança como uma resposta natural à necessidade de maior padronização e agilidade nas análises que orientam a comercialização. Tecnologias como a desenvolvida pela NeoSilos oferecem leituras de umidade, impurezas e avarias, trazendo mais uniformidade ao processo e reduzindo variações que podem ocorrer em avaliações manuais. Durante o encontro, o especialista destacou que a digitalização “reduz incertezas e dá mais segurança às duas pontas da operação”, especialmente em um mercado que exige transparência e rapidez. Esse tipo de tecnologia também chega a outras cadeias, como a cana‑de‑açúcar, com equipamentos capazes de realizar a leitura de BRIX diretamente no campo, fortalecendo a previsibilidade e a confiança nas relações comerciais.

10. Nano‑satélites

Os nano‑satélites despontam como uma evolução natural do uso de tecnologias espaciais no campo, ampliando a conectividade em regiões agrícolas e abrindo caminho para monitoramento mais frequente. No Encontro, Seraphim destacou como a chegada da Starlink transformou a conectividade no Cerrado ao oferecer acesso contínuo onde antes havia limitações, e apontou que o próximo passo é incorporar soluções nacionais capazes de entregar também imagens e dados agronômicos com maior autonomia. Nesse cenário, iniciativas como as da Visiona reforçam o potencial de combinar conectividade e inteligência espacial para apoiar decisões no campo. 

O olhar para 2026

As tendências do agronegócio para 2026 revelam a transição de uma década marcada pela expansão para uma era de maior maturidade do setor. Mais do que ampliar área, o futuro do agro brasileiro passa por ampliar decisão, eficiência e capacidade de comprovação. Diante desse cenário, o produtor opera um conjunto de tecnologias que, quando integradas, não apenas protegem margens, mas consolidam o Brasil como referência global em agricultura tropical. Entre desafios e oportunidades, uma mensagem permanece: tecnologia é meio e a gestão é destino.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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