Março 24, 2026
Por Fernanda Cavalcante, Analista sênior de Mercado e Marca do PwC Agtech Innovation.
Num ambiente de negócios marcado por mudanças rápidas, inovar deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade estratégica. Ainda assim, muitas empresas enfrentam o mesmo obstáculo: transformar a intenção de inovar em resultados concretos para o negócio.
A 29ª CEO Survey da PwC, reforça essa percepção. Metade dos CEOs considera a inovação central para sua estratégia, mas reconhece que suas estruturas internas ainda não acompanham o ritmo exigido pelos desafios. Surge, então, uma questão essencial: como avançar quando a necessidade de inovar escala mais rápido do que a capacidade interna de execução?
É nesse contexto que identificar a startup certa para resolver um desafio específico do negócio se torna um caminho relevante. Em vez de começar do zero, empresas podem se beneficiar de soluções já existentes, desenvolvidas por startups e parceiros especializados que acumulam aprendizados práticos, tecnologias testadas e modelos prontos para adaptação.
Ao reduzir a distância entre o problema e a solução, essas parcerias aceleram decisões, diminuem custos de experimentação e ampliam a capacidade de resposta das organizações diante de desafios cada vez mais complexos.
Um exemplo que representa bem essa busca por soluções foi contado no podcast Master of Scale e aconteceu no Vietnã.
Nos anos 1990, dois voluntários chegaram ao país asiático representando a ONG Save the Children com o objetivo de responder a um problema que resistia a décadas de esforços internacionais: a desnutrição infantil que atingia cerca de 60% das crianças do país.
Em vez de propor novas dietas, programas complexos ou soluções externas, eles decidiram fazer algo simples: conversar com as famílias das comunidades locais. A ideia era entender como algumas crianças, apesar das condições extremamente precárias, conseguiam se manter saudáveis.
A resposta estava ali. As famílias cujos filhos eram bem nutridos incluíam na alimentação diária carne de caranguejo e folhas de batata, ingredientes disponíveis, acessíveis e pouco consumidos pela maioria da população. Na época, a base da dieta das crianças era outra, uma tradicional sopa de arroz.
A descoberta mudou tudo. Em vez de criar algo do zero, os voluntários apenas escalaram uma solução que já existia. Eles organizaram reuniões e refeições coletivas para disseminar a prática de como preparar alimentos mais nutritivos usando o que já estava ao alcance. Em um ano, mais de mil crianças atingiram níveis saudáveis de nutrição, e o hábito começou a se espalhar pelas vilas vizinhas.
Moral do podcast: em um mundo com bilhões de pessoas, alguém, em algum lugar, provavelmente já descobriu um caminho eficaz para lidar com um desafio semelhante ao seu.
Aplicar essa lógica nas organizações significa estruturar formas de identificar, entre tantas possibilidades, quem já desenvolveu soluções relevantes. Para isso, há dois mecanismos amplamente utilizados.
A Chamada Aberta, em que a empresa apresenta seu desafio ao ecossistema e recebe propostas de startups, pesquisadores e especialistas, amplia o repertório de alternativas e ajuda a revelar soluções que dificilmente surgiriam internamente. Já o Scouting envolve uma busca direcionada e, muitas vezes, confidencial por tecnologias e empreendedores para identificar soluções emergentes e tecnologias disruptivas em uma temática específica.
Esses modelos podem ser complementados por iniciativas como Watchlists, que permitem o monitoramento contínuo de startups e tecnologias, e pelo Venture Finding, uma busca ativa por startups com potencial de parceria estratégica, investimento ou aquisição.
Independentemente do formato, alguns elementos são decisivos: uma definição clara do desafio, o registro do que já foi explorado e critérios objetivos de avaliação. Quando esse processo é bem conduzido, a inovação deixa de depender exclusivamente da construção interna e passa a conectar quem tem o problema com quem já está criando a solução.
No agronegócio, iniciativas como o PwC Agtech Innovation cumprem esse papel ao facilitar o encontro entre grandes empresas, startups e outros atores do setor. Com mais de 600 startups em sua plataforma, o hub já recebeu demandas diversas e apoiou a identificação de soluções para diferentes desafios do setor.
A jornada da ICL por soluções biotecnológicas é um exemplo claro de como a inovação acontece mais rápido quando empresas encontram parceiros que já dominam parte do caminho. Em 2024, a companhia buscava acelerar o desenvolvimento de seis novos produtos biológicos — um desafio que exigia profundidade científica, domínio de processos e velocidade de execução.
A aproximação com a Ideelab Biotecnologia começou anos antes, durante o lançamento do ICL Planet no Brasil, realizado no PwC Agtech Innovation em 2021. Naquele evento, o hub apoiou a seleção de startups com tecnologias relevantes para fertilizantes de nova geração. Entre elas, a Ideelab chamou atenção pela capacidade de transformar conhecimento técnico em soluções aplicáveis ao campo.
Essa primeira interação abriu espaço para algo maior. Três anos depois, a ICL e a Ideelab firmaram um acordo de co‑desenvolvimento para criar novos produtos biotecnológicos. A grande empresa entrou com sua experiência em validação agronômica, capacidade de mercado e rigor de pesquisa; a startup trouxe seu domínio de microrganismos, moléculas e processos industriais — um conhecimento altamente especializado e difícil de construir internamente em pouco tempo.