Maio 4, 2026
Caio Freire, da gestor da Fazenda Jamaica e CFO da Farm Fruit, compartilhou os desafios da produção de laranjas com líderes de startups e corporações presentes no evento.
Por Barbara Lemes, Analista de Mercado e Marca do PwC Agtech Innovation
O Conexão Corporates, Startups & Farrmers 2026, promovido pelo PwC Agtech Innovation, reuniu diferentes elos da cadeia para discutir os principais desafios e oportunidades do setor.
Assim como na edição anterior, o evento foi marcado pela participação ativa dos produtores rurais ao longo de toda a programação. E na Arena do PwC Agtech Innovation aconteceu uma nova sessão de pitches reversos, em que os produtores apresentam seus desafios para a comunidade de startups, corporações, pesquisadores, investidores, entre outros agentes do ecossistema de inovação.
Caio Freire, gestor da Fazenda Jamaica e CFO da Farm Fruit, e Giuliano Beggio, CEO da Beggio Lorenzo Agropecuária, debateram os principais desafios enfrentados por eles nas produções de laranja e cana-de-açúcar, respectivamente. A seguir, a visão de quem está diariamente na linha de frente da produção:
Com mais de 40 anos de história na produção de citros, Caio Freire trouxe à Arena os principais desafios de uma cadeia estratégica para o Brasil, maior produtor mundial de laranja e líder global na exportação de suco.
Além dos quatro desafios apresentados, Freire trouxe para o início da conversa o “desafio zero”: o greening, uma doença sem cura e com alto custo e manejo, que já compromete mais de 45% dos pomares. “Hoje, o greening é o maior pesadelo da citricultura, segundo ele. A doença não tem cura e aumenta significativamente a mortalidade das plantas, exigindo manejo constante e oneroso”, diz.
De acordo com ele, as principais preocupações que tiram o sono do produtor de citros:
O controle de pragas na citricultura opera perto do limite. Com poucas moléculas registradas e o avanço do greening, o aumento das pulverizações acelerou a resistência de insetos e ácaros. A combinação de defensivos químicos com biológicos, além do monitoramento por armadilhas, já é realidade, mas ainda insuficiente diante da complexidade enfrentada nos pomares.
Na laranja destinada à indústria de suco, todo o custo logístico recai sobre o produtor - da colheita ao transporte. O frete terceirizado, pago por caixa, encarece conforme a distância até a fábrica e esbarra na escassez de motoristas e na frota de transporte mais antiga. Longas filas de espera nas indústrias ainda adicionam riscos trabalhistas e ineficiência a uma cadeia pressionada por margens estreitas, tornando a logística de frete um dos principais desafios do setor.
A colheita da laranja segue basicamente manual, num cenário agravado pela escassez de mão de obra e pouca renovação das equipes. As turmas estão envelhecendo, e atrair pessoas dispostas a aprender e permanecer no campo tornou-se cada vez mais difícil, segundo o relato do produtor. O desafio não é exclusivo da citricultura, muito embora ganhe peso no setor por limitar a escala de produção.
No mercado de suco, altamente concentrado nas mãos de poucos compradores, a volatilidade dos preços é especialmente desafiadora. Isto se deve à queda na demanda global e redução de consumo nos últimos anos, que diminuíram a previsibilidade do mercado, inclusive afastando produtores da atividade. A venda da fruta in natura surge como alternativa, que, contudo, também esbarra em exigências comerciais, prazos longos e descontos que pressionam as margens. Na frente de exportação, o desafio apontado foi o das barreiras regulatórias.
Giuliano Beggio, CEO da Beggio Lorenzo Agropecuária, destacou os desafios da produção de cana-de-açúcar.
Na Arena do PwC Agtech Innovatio, Giuliano Beggio tirou a “roupagem institucional” e falou da cadeira de produtor. Seu relato mostra como decisões baseadas na intuição, falta de clareza sobre custo e investimento e ausência de planejamento estratégico comprometem margens, eficiência e em uma cadeia que representa uma fatia relevante da economia brasileira.
Os principais gargalos apresentados por ele foram:
Na cana-de-açúcar, ainda é comum a fazenda operar sem lógica empresarial consolidada. Decisões seguem baseadas no “feeling”, com pouca visibilidade de margem, ROI e planejamento de longo prazo. Sem integração entre dados operacionais e financeiros, o produtor perde o lastro das escolhas e deixa de enxergar gargalos que drenam resultados de forma silenciosa.
Segundo o produtor, quando o assunto são os biocombustíveis, o desafio ainda está em escalar o uso. O avanço de misturas maiores de etanol, inclusive em mercados estratégicos como o aéreo e o marítimo, exige evidências baseadas em testes, métricas e critérios comparáveis, aceitos por indústria, reguladores e mercado. Sem padronização, o alinhamento entre os elos fica limitado, travando a adoção em escala e dificultando, inclusive, a construção de uma narrativa consistente e “exportável”.
Apesar do avanço do debate, a sustentabilidade ainda paga pouco em termos financeiros à cadeia da cana, na visão de Beggio. Sem demanda clara do mercado final e mecanismos econômicos bem estruturados, o desafio está em criar modelos que permitam reconhecer e remunerar a entrega de valor do setor. Para o produtor, sem liquidez, iniciativas sustentáveis correm o risco de serem vistas como “greenwashing”, diante da falta de mecanismos claros de remuneração.
Com o fim da taxa sindical compulsória, atrair e reter associados virou um desafio estratégico no setor. E ele vai além da produção, de acordo com ele, passando por construir um ecossistema que gere vínculo no dia a dia do produtor, da família e da rede, o que fortaleceria a relevância e posicionamento da cadeia no campo e perante o mercado.