Abril 24, 2026
Da esquerda para a direita: Dirceu Ferreira Júnior (PwC Agtech Innovation), Frederico Logemann (SLC Agrícola) e Mayra Theis (PwC Brasil).
Por Fernanda Cavalcante, Analista Sênior de Mercado e Marca do PwC Agtech Innovation.
Com oito décadas de história, a SLC Agrícola construiu uma trajetória marcada pela capacidade de atravessar os ciclos do agronegócio brasileiro, combinando crescimento, escala e disciplina operacional. Fundada em 1945, a empresa passou por diferentes fases do setor e se consolidou como uma das principais referências do agro no país.
Essa trajetória foi compartilhada durante a abertura do Conexão Corporates, Startups & Farmers 2026, realizado pelo PwC Agtech Innovation, cujo tema foi a construção de ecossistemas capazes de atravessar ciclos e acelerar oportunidades em um ambiente de constante transformação.
A partir desse contexto, Frederico Logemann, Head de Inovação e Estratégia e representante da família fundadora, revisita os principais marcos da história da SLC, os aprendizados ao longo do crescimento, as decisões que levaram à diversificação do negócio e o papel da tecnologia e da inovação na construção de uma estratégia sustentável e orientada ao longo prazo.
Acompanhe a conversa completa em texto ou assista a live completa:
PwC Agtech Innovation: A SLC tem uma história que começa em 1945 e atravessa diferentes ciclos do agronegócio brasileiro. Como essa trajetória se construiu ao longo de 80 anos?
Frederico Logemann: A história da SLC começa, na verdade, antes mesmo da fundação da empresa. Meu bisavô, Frederico, veio da Alemanha no início do século XX e chegou ao Brasil em 1912. Engenheiro, atuou na construção de estradas e pontes no Rio Grande do Sul, o que o levou a conhecer profundamente o interior do estado.
Em um determinado momento, ele passou a receber terras como forma de pagamento e decidiu loteá‑las. Foi assim que se tornou o primeiro morador da região que deu origem à cidade de Horizontina.
Em 1945, ele se associou a outro colono alemão, Schneider, e juntos fundaram a Schneider‑Logemann & Companhia, origem da SLC. O negócio começou de maneira simples, com uma oficina de reparo de implementos agrícolas e um moinho de trigo. Costumamos dizer que essa foi, de certa forma, a nossa primeira startup.
A sucessão veio com o meu avô, que tomou uma decisão bastante ousada para a época. Ele deixou de produzir apenas trilhadeiras e passou a desenvolver colheitadeiras. Em 1965, a SLC fabricou a primeira colheitadeira do Brasil, em Horizontina, assumindo um risco significativo em um país que ainda tinha pouquíssimas máquinas agrícolas.
Já no final dos anos 1970, a empresa entrou em um novo ciclo com a joint venture com a John Deere, que buscava um parceiro local para produção de colheitadeiras no Brasil. Esse movimento marcou o início de uma fase de maior integração com a indústria global e preparação para os próximos passos do grupo.
PwC Agtech Innovation: A partir dessa base industrial, quais foram os principais marcos que moldaram o negócio como ele é hoje?
Logemann: A parceria com a John Deere foi um desses marcos. Ela durou cerca de 20 anos, de 1979 a 1999, e teve um papel importante na consolidação da atuação industrial da SLC. Em paralelo, já começávamos a estruturar a operação agrícola, que mais tarde se tornaria o principal negócio do grupo.
A SLC Agrícola teve início no Rio Grande do Sul, a partir da incorporação de pequenas propriedades. Com a venda da fábrica, a empresa passou a se dedicar integralmente à agricultura. Foi nesse momento que participamos do movimento de expansão para o Cerrado, com a aquisição da primeira fazenda na região, em 1980.
Outro passo decisivo foi a abertura de capital, em 2007. Fomos a primeira empresa desse segmento a realizar um IPO. Esse movimento abriu um novo ciclo de crescimento, com a expansão da área cultivada, o avanço para o Nordeste, especialmente o Matopiba, e o início do arrendamento de áreas.
Hoje, o grupo atua em duas frentes: a produção agrícola, concentrada na SLC Agrícola, e as revendas de maquinário John Deere no Rio Grande do Sul, que seguem como parte da história do grupo.
PwC Agtech Innovation: Como essas diferentes fases de crescimento influenciaram a forma como a SLC Agrícola passou a operar e gerir o negócio?
Logemann: A SLC Agrícola passou por etapas bem diferentes ao longo do tempo. A primeira vai da criação do negócio até a abertura de capital e foi marcada pela aquisição de terras e pela construção do modelo de gestão.
Após o IPO, o crescimento ganhou velocidade. Abrimos muitas áreas novas, o que significava operar áreas de primeiro e segundo ano e conviver com uma produtividade média mais baixa, algo natural naquele estágio.
A virada aconteceu em 2015 e 2016, quando enfrentamos uma safra muito ruim. Naquele momento, já plantávamos pouco mais de 300 mil hectares, e isso nos obrigou a mudar o foco. Eficiência passou a ser prioridade: atuar em áreas já desenvolvidas, aumentar produtividade e reduzir custos.
Com esse ajuste, a expansão passou a acontecer principalmente por meio de áreas arrendadas, o que nos permitiu crescer de cerca de 300 mil para aproximadamente 800 mil hectares com mais controle e consistência operacional.
PwC Agtech Innovation: Como a diversificação e a tecnologia passaram a sustentar o crescimento da SLC e preparar a empresa para os próximos ciclos?
Logemann: Quando a empresa chega a um determinado tamanho, a escala passa a impor limites claros. Com mais de 800 mil hectares, não é simples crescer todos os anos no mesmo ritmo.
Foi a partir dessa reflexão que buscamos novas avenidas de crescimento. Uma delas foi a produção de sementes, que começou para consumo próprio e hoje é um negócio que deve faturar cerca de 1 bilhão de reais. Outra foi a pecuária, iniciada como um experimento de integração lavoura‑pecuária, que hoje soma cerca de 80 mil cabeças de gado.
A escala só é possível também por causa da agricultura digital. Sem tecnologia, seria inviável operar fazendas desse tamanho. Ao longo dos anos, estruturamos imagens de satélite, telemetria, sensores e sistemas digitais, além do Centro de Inteligência Agrícola e de uma fábrica própria de software.
Mais recentemente, organizamos a inovação aberta com o AgroExponencial e a SLC Ventures. O foco sempre foi o mesmo: testar rápido, aprender e escalar aquilo que gera valor.
Olhando para frente, o desafio é integrar melhor tudo isso. A tecnologia começa resolvendo problemas específicos e passa a apoiar decisões cada vez mais amplas. É nesse ponto que entram as possibilidades da inteligência artificial, conectando dados e apoiando decisões de forma mais estratégica.
PwC Agtech Innovation: A sucessão também teve um papel central na longevidade da SLC. Que aprendizados essa experiência trouxe?
Logemann: Um dos principais aprendizados ao longo dessa trajetória é entender que sucessão não é drama, é estratégia. Sempre tratamos esse tema de forma muito racional, pensando no que é melhor para o negócio no longo prazo.
No caso da SLC Agrícola, especificamente, a empresa nunca teve um CEO da família. Desde o início, optamos por executivos de mercado para liderar a operação, com foco em profissionalização e governança. A família atua muito mais na definição da visão, dos valores e da construção de longo prazo, principalmente a partir do conselho.
Outro ponto central é o investimento em pessoas. Formar lideranças dentro de casa foi fundamental para garantir continuidade e alinhamento ao longo das gerações.
PwC Agtech Innovation: Que mensagem você deixaria para líderes e empresas que hoje precisam atravessar ciclos cada vez mais curtos e complexos?
Logemann: Ao longo dessa trajetória, a gente aprendeu que tudo começa por valores claros. Na SLC, integridade, paixão pelo que fazemos, relações de longo prazo e resultados sustentáveis sempre orientaram nossas decisões, independentemente do ciclo que estivéssemos vivendo.
A inovação, para nós, é um músculo. Se você deixa de exercitar, perde condicionamento. Mas ela precisa ser conduzida com disciplina, foco e racionalidade. Não se trata de fazer algo extraordinário o tempo todo, mas de aplicar boas práticas de forma consistente.
E, talvez o mais importante, é manter a inquietação. Estar bem hoje não garante estar bem amanhã. Em um ambiente cada vez mais dinâmico, é preciso continuar se movendo, ajustando e aprendendo para seguir relevante no longo prazo.