Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2026

Solidez sob pressão: crescimento, regulação e IA no crédito digital

Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2026

O ecossistema de fintechs de crédito no Brasil deu, em 2025, mais uma prova de solidez. O cenário foi desafiador: a Selic encerrou o ano em 15%, as incertezas do ambiente internacional pressionaram os mercados e o custo de captação permaneceu elevado. Ainda assim, as empresas participantes da 6ª edição da Pesquisa Fintechs de Crédito Digital, realizada pela PwC Brasil e pela Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), registraram crescimento expressivo no crédito concedido, na base de clientes e na maturidade operacional. A pesquisa representa uma amostra do setor no Brasil, com base em entrevistas com líderes de cerca de 40 empresas do segmento de crédito digital associadas à ABCD. 

Nove anos após o início da série histórica, o setor sustenta o patamar de maturidade alcançado em 2023: 60% das fintechs participantes já estão em fase de consolidação, com faturamento ou investimento total acima de R$ 20 milhões. A inteligência artificial deixou de ser promessa para virar prioridade declarada e a regulação, com novas resoluções sobre capital mínimo, Banking as a Service e tributação, elevou a régua para todo o setor.

Veja os destaques desta edição:

51%

foi o aumento do volume de crédito concedido pelas fintechs, que somou R$ 53,8 bilhões em 2025.

94,9 mi

de clientes pessoa física atendidos, entre Brasil e exterior – alta de 40% na base doméstica.

79%

das fintechs já aceitam algum tipo de garantia nas operações, o maior índice da série histórica.

96%

das fintechs pretendem implementar ou expandir soluções de IA nos próximos dois anos.

51%

usam capital próprio como principal fonte de financiamento, também recorde da série.

01. Mais crédito, mais clientes

Em um ambiente de juros elevados e maior aversão ao risco, as fintechs de crédito digital voltaram a surpreender em 2025, com crescimento robusto pelo nono ano consecutivo. O volume concedido passou de R$ 35,5 bilhões em 2024 para R$ 53,8 bilhões em 2025. Em 2016, quando a série histórica começou, esse número era de R$ 161 milhões. Em menos de uma década, foi multiplicado por mais de 330 vezes, sem jamais recuar.

Volume anual de crédito concedido

A expansão foi predominantemente orgânica: 82% do crescimento veio do aumento das operações já existentes, e apenas 18% do lançamento de novos produtos. O perfil reflete a maturidade das carteiras mais do que uma aposta em inovação de portfólio.

A base de clientes acompanhou o movimento. As fintechs somaram 86,1 milhões de clientes pessoa física no Brasil (alta de 40%) e mais 8,7 milhões no exterior, totalizando 94,9 milhões. No segmento de empresas, o avanço foi de 30%, elevando o total para 72.249 clientes PJ, ainda concentrados em microempresas, que respondem por 91% dessa base. No entanto, cresce também o atendimento a empresas de maior porte: cerca de 300 clientes com faturamento superior a R$ 300 milhões já são atendidos por fintechs.

02. Um portfólio que escolheu a solidez

A composição da oferta de crédito mudou de forma significativa nos últimos anos. O crédito sem garantia, que respondia por 60% dos produtos ofertados em 2019, está presente em apenas 14% das fintechs pesquisadas em 2025. No mesmo período, o consignado para trabalhadores do setor privado passou de modalidade emergente a um dos principais eixos de crescimento do setor, oferecido hoje por 47% das fintechs, contra 40% no ano anterior.

O saldo total em consignado – somando trabalhadores do setor privado, beneficiários do INSS e servidores públicos – saltou de R$ 1,7 bilhão em 2023 para R$ 15,8 bilhões em 2025. Em dois anos, esses produtos multiplicaram por nove o volume de crédito concedido pelas fintechs participantes.

O avanço das garantias também é notável: 79% das fintechs já aceitam algum tipo de garantia, contra 34% em 2021. A demanda represada é grande. As fintechs receberam 79,8 milhões de solicitações de consignado para trabalhadores do setor privado em 2025 e aprovaram apenas 11% delas – sinal de seletividade, não de falta de apetite.

Empresas que aceitam bens como garantia

Nas taxas, o setor segue competitivo em boa parte das modalidades. No rotativo do cartão, a diferença é a mais expressiva: 115% ao ano nas fintechs, contra 442% na média do mercado. A inadimplência entre pessoas físicas ficou em 10,1%, ante 9,5% em 2024 – uma leve alta, num cenário em que 81 milhões de brasileiros estavam negativados ao longo do ano. No segmento PJ, o índice permaneceu em 3,4% pelo segundo ano consecutivo.

03. Maturidade tecnológica: foco no que funciona

Nas primeiras edições da pesquisa, o mapa tecnológico das fintechs era marcado pela experimentação: blockchain, IoT, robôs, OCR. Em 2025, esse cenário mudou. O setor convergiu para um conjunto mais reduzido e sólido de soluções, com dois vetores concentrando a atenção nos próximos anos: inteligência artificial e cibersegurança.

Em 2024, 67% das fintechs declaravam estar estudando ou desenvolvendo soluções de IA. Em 2025, 62% já utilizam a tecnologia de forma efetiva, e 96% pretendem implementá-la ou expandi-la nos próximos dois anos – o maior índice de intenção já registrado na série. A adoção se organiza em duas frentes: a automação de processos de ponta a ponta, com agentes autônomos em vendas, formalização e cobrança, e o uso da IA no próprio ciclo de desenvolvimento de produto.

Já o Pix e o Open Finance recuaram em adoção declarada – de 71% para 66% e de 44% para 32%, respectivamente. A queda não significa desinteresse: reflete, de um lado, a concentração de recursos em IA e, de outro, a desaceleração do próprio regulador. O interesse no real digital também esfriou, caindo de 33% para 9% entre as fintechs que planejam adotar novas tecnologias.

04. Regulação: um novo campo de competição

Com um conjunto denso de novas resoluções em vigor – sobre Banking as a Service, capital mínimo, governança de dados e tributação –, a capacidade de navegar pelo ambiente regulatório tornou-se, por si só, uma vantagem competitiva.

As duas regulações com maior impacto declarado são a Resolução Conjunta nº 14/2025, que eleva o capital mínimo exigido para operação, e a Resolução Conjunta nº 16/2025, que regulamenta o Banking as a Service. A primeira é citada por 40% das fintechs como prioridade regulatória, com pressão direta sobre as empresas menores. A segunda afeta tanto fornecedoras quanto tomadoras do serviço: em 2025, 17% das fintechs operavam nessa modalidade, recuando de 25% em 2024 – um recuo no número de operadores, não no volume agregado.

O impacto assimétrico da regulação do BaaS

Citam a Res. Conjunta 16/2025 como prioridade regulatória

36%

Tomadoras

23%

Fornecedoras

Para 2026 e 2027, dois temas devem ganhar espaço na agenda regulatória: o PLP 128, que propõe aumento nas alíquotas de CSLL para instituições financeiras, citado por 30% das fintechs, e a portabilidade de crédito, apontada por 23% como tema relevante para o próximo ciclo.

05. Captação: o setor amplia suas fontes de financiamento

Crescer 51% no volume de crédito com a Selic em 15% exige uma resposta clara a uma pergunta essencial: de onde vem o dinheiro? Em 2025, a resposta foi mais de continuidade do que de ruptura. O uso de capital próprio subiu de 46% para 51% – o maior percentual da série histórica –, refletindo tanto a maturação do setor quanto a dificuldade de captar recursos externos em um ambiente de juros elevados.

Os instrumentos tradicionais de mercado de capitais não avançaram: as debêntures recuaram de 19% para 17% de uso, e a securitização teve variação mínima. Já o FIDC seguiu caminho oposto, com o maior crescimento entre todas as fontes de captação: de 15% para 25% das fintechs. Para 2026, 65% das empresas consideram o instrumento uma fonte prioritária de captação.

Destino dos recursos captados (2025)

Da prova de conceito à maturidade

Em 2016, as fintechs de crédito digital eram uma promessa. Hoje, são R$ 53,8 bilhões em crédito concedido, quase 95 milhões de clientes pessoa física e taxas que competem com as dos bancos tradicionais.

Os desafios continuam, com juros altos, regulação mais densa, inadimplência subindo em algumas linhas, mas o setor aprendeu a transformar restrição em disciplina. O próximo capítulo é crescer à altura da maturidade que já conquistou.

Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2026

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Lindomar Schmoller

Lindomar Schmoller

Sócio e líder de Serviços Financeiros, PwC Brasil

Willer Marcondes

Willer Marcondes

Sócio para Serviços Financeiros, Strategy& Brazil

Luiz Ponzoni

Luiz Ponzoni

Sócio e líder de Consultoria em Risk Transformation, PwC Brasil

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